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28.3.11

Léxico: «neveiro»

Não só

      Quanto a dicionários, também podemos falar de novíssimos. Ora vejam: para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, «neveiro» é o «vendedor de sorvetes»! Mesmo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não andou bem, apesar de registar que é o «fabricante ou vendedor de gelo ou sorvetes; sorveteiro». E a neve? Consultem o Aulete.
      «Desconhecido para a maioria dos portugueses, aquele engenho teve construção iniciada em 1741, destinado a fornecer gelo a Lisboa, a comerciantes e hospitais, e à casa real, apreciadora de gelados e bebidas frias, hábitos que terão sido introduzidos na corte por Filipe II. O empreendimento é atribuído a Trófimo Paillete, João Rosa e Pedro Francaleza, e era operado por dezenas de neveiros de Pragança, a localidade que lhe fica mais próxima, no concelho do Cadaval, não distante do Tejo e a cerca de 50 quilómetros de Lisboa» («A história do gelo que arrefecia Lisboa está pronta a ser contada», Carlos Filipe, Público, 28.03.2011, p. 21).

[Post 4623]

21.3.11

Sobre «sereia»

Não o ser lendário

      «Subitamente a sereia do barco apitou muito alto por duas vezes» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 20).
      Eis outro termo que, nesta acepção, está a cair em desuso, se não caiu já. Sereia. Ora vejam o que se passa com o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Regista esta acepção, sim, mas de uma forma muito ínvia. Não será, decerto, a segunda acepção: «Física aparelho acústico usado para determinar a frequência de um som.» Passemos ao verbete de «sirene», a variante mais usada: «instrumento que produz um sinal sonoro de alarme ou de chamada», como primeira acepção, e «sereia», como segunda. Todavia, esta «sereia» só pode ser o tal aparelho acústico usado para determinar a frequência de um som. De «sirene» não há, como devia, nenhuma remissão para «sirena», mas fomos consultar o verbete desta variante. «Sirena» não tem definição, apenas uma remissão → sereia. Agora pergunto: quem tem a desfaçatez de afirmar que isto está bem feito?

[Post 4596]

12.3.11

Sobre «camuflado»

Escondido, disfarçado

      Sempre dissemos, como Montexto, «dicionários, por melhores que sejam, nenhum suficiente, todos necessários». Por estes dias, a surpresa foi não ver registado em nenhum dicionário — com excepção, mais uma vez, do Dicionário Houaiss — o substantivo «camuflado». Nem sequer nesses dicionários que há por aí que acolhem acriticamente tudo, quais albergues espanhóis. «Roupa, geralmente de carácter militar, com cores e padrões que permitem fácil camuflagem.» O galicismo camouflage, «disfarce», entrou na língua portuguesa durante a Grande Guerra. No século XVI, pelo contrário, é que, como já aqui vimos, os soldados, que não eram obrigados a um modelo uniforme, usavam trajes vistosos, garridos.


[Post 4552]

3.3.11

Lexicografia

Se

      Se Portugal fosse mesmo multicultural, como alguns juram que é (aqueles, professores, que vão agora, com o AO90, passar a admitir que os seus alunos escrevam «fenômeno» «bebê», «anistia»...), de fora dos dicionários da língua portuguesa não ficariam as acepções de termos como «gasosa», «refresco» e mesmo «propina», todas formas coloquiais de referir o suborno, a corrupção, respectivamente, em Angola, em Moçambique e no Brasil. As nossas luvas. Ah, mas dispensamos o cosmopolitismo de kickback, bustarella, bakchich e outras. (Talvez aqueles professores passem também a dizer e a escrever, como pouquíssimos brasileiros fazem, «corrução»...)

 [Post 4512]

3.1.11

Tradução: «core»

Rotten to the core


      É verdade que os dicionários bilingues deviam ser melhores, mas nada deve substituir o discernimento do tradutor. O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora só regista para core âmago, medula, parte central. No que respeita à botânica, refere-se apenas a frutos: coração, caroço. Pois é, e onde está a parte central do lenho do caule das árvores, a mais rija e mais escura, também designada durame ou durâmen? Esqueceram-se, e por isso os tradutores mais apressados vertem de uma forma óbvia: optam pela primeira acepção: âmago. À parte central do lenho do caule das árvores dá-se o nome de cerne. O Dicionário Michaelis Inglês-Português não se esquece: «cerne, durame (de madeira).»

[Post 4268]

1.1.11

Tradução

Imagem tirada daqui

Honestamente


      Os maiores obstáculos acabaram por ser os «trolley wires and their supporting cables» — «os fios dos eléctricos e os seus cabos de suporte», verteu o tradutor. Pergunto: os trolley wires não serão os tróleis, isto é, os dispositivos pelos quais veículos movidos a electricidade estabelecem a ligação do motor ao cabo condutor de uma corrente eléctrica (trole, para os Brasileiros) e os supporting cables não serão as catenárias? Quanto ao nome do veículo: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista a forma reduzida «trólei», «troleicarro» e «troleibus». Já o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista apenas «troleibus» e «troleicarro», pois para este dicionário um «trólei» não passa de um «carrinho que roda ao longo de um cabo». Quanto a catenária: para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o «cabo metálico condutor de electricidade suspenso nas vias-férreas electrificadas»; para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é algo que só interessa aos matemáticos: «Curva formada pelo próprio peso de um fio flexível suspenso pelas suas extremidades.» Misteriosamente, faz anteceder a definição pela abreviatura «Mecân.». Em suma, caros senhores, redijam novas definições. É o meu melhor desejo para este novo ano.

[Post 4262]

6.10.10

Léxico: «neotenia»

Nascem por fazer


      «Os seres humanos são constitutivamente abertos à questão ética, porque nascem por fazer, devido à neotenia, e devem fazer-se bem moralmente, porque a sua lei é a lei da liberdade e da dignidade. Devemos habitar o mundo eticamente (o étimo de ética é êthos, morada)» («Quem guardará o guarda?», Anselmo Borges, Diário de Notícias, 2.10.2010, p. 62).
      Tanto o Dicionário Houaiss como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam o vocábulo; o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa perdeu o verbete ou considerou, erradamente, que nunca se usa. A neotenia é, na definição do segundo dicionário referido, o «atraso no desenvolvimento morfológico do indivíduo, o que ocasiona, por vezes, o aparecimento de maturidade sexual na forma larvar, ou, pelo menos, numa forma atrasada». Para o Dicionário Houaiss, é a «pedomorfose produzida pelo retardamento do desenvolvimento somático, de maneira que a maturidade sexual é atingida em um organismo que retém características juvenis». Pois é: má técnica lexicográfica: para conhecermos um conceito, temos de consultar dois verbetes. Pedomorfose (vocábulo ignorado pelos outros dois dicionários) é a «presença de caracteres primitivamente juvenis, larvais ou embrionários em um organismo adulto».

[Post 3939]

Sobre «romanche» e «rético»

Vai dar uma volta à Récia


      «Constituída por quatro comunidades linguísticas — alemão, francês, italiano e romanche —, a Suíça baseia a sua unidade enquanto nação no passado comum e na partilha de princípios como o federalismo, a democracia directa e a tal neutralidade que sempre a caracterizou» («A excepção de ser República na Europa de 1910», Helena Tecedeiro, Notícias Sábado, 2.10.2010, p. 13).
      Munido somente de um exemplar do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o leitor não vai muito longe: o verbete «romanche» remete para «rético», e este regista que, como adjectivo, é o referente à Récia, região oriental da antiga Gália» e, como substantivo, é a língua novilatina também chamada romanche. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, por seu lado, que regista romanche, é no verbete rético que fornece mais informação: «Língua românica, também chamada romanche, falada em três pequenas regiões distintas: nos Grisões (Suíça), no Tirol (Áustria) e no Friul (Nordeste de Itália).» O Flip 7 não reconhece nenhuma das duas palavras.

[Post 3937]

17.9.10

Desconcentração/descentralização

Ciganos e consultores


      «Assinalando que a Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) autorizou a criação desta turma especial, o ODH [Observatório dos Direitos Humanos] rejeita a argumentação aduzida pela estrutura desconcentrada do Ministério da Educação, segundo a qual a medida “responde à especificação de um grupo de jovens”, para além de ser também uma forma de combater o abandono escolar e elevado de insucesso dos alunos abrangidos”» («Observatório condena turma cigana», Jornal de Notícias, 16.09.2010, p. 49).
      «Estrutura desconcentrada do Ministério da Educação» — não tem nada, em termos jurídicos, que se lhe diga. O único problema é que a esmagadora maioria dos leitores não faz a mínima ideia de que se trata. E os jornalistas também não. O pior, porém, e é disto que quero falar, os dicionário não ajudam nada. Mais do que isso: confundem os conceitos. Consultemos, por exemplo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. No verbete do verbo «desconcentrar», podemos ler: «proceder à descentralização de». Está, creio, tudo dito. Pela descentralização, que é um processo político, visa-se transferir atribuições da Administração Central do Estado para outras entidades territorialmente delimitadas, como, por exemplo, as autarquias locais. Através da desconcentração, que é um processo administrativo, atribuem-se competências a outras entidades, territorialmente delimitadas, da Administração Central do Estado. São conceitos assim tão esotéricos ou confundíveis que os consultores da Porto Editora não saibam redigir uma definição correcta e compreensível?

[Post 3886]

12.9.10

Léxico: «pneumotórax»

Falha do consultor


      Uma onda gigante «abalroou», nas palavras do jornalista, oito pescadores que estavam no paredão da Cova do Vapor. «“Um deles suspeita-se que tivesse alguma costela partida, outro tinha uma fractura no braço e um outro por ter batido com o peito nas rochas provavelmente tinha um pneumotórax”, disse [Luís Vitorino, coordenador da associação Caparica Mar]» («Onda gigante atira ao mar oito pescadores», S. B., Jornal de Notícias, 11.09.2010, p. 19).
      Se recorrermos ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, até podemos pensar que é mais um erro dos jornalistas: «Pneumotórax MEDICINA método de tratamento da tuberculose pulmonar pela introdução de azoto na pleura para provocar a compressão e a retracção do pulmão e, finalmente, a cicatrização das lesões pulmonares.» O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, no respectivo verbete e logo na primeira acepção, regista: «Acumulação de gases na cavidade pleural.» Se queremos saber mais, consultamos, por exemplo, a Medipédia. De maneira que, senhores da Porto Editora, está na altura de corrigirem acrescentando a acepção.

[Post 3870]

3.9.10

«Bondade» e «fortaleza»

Qualidade do que é bom


      Só agora, ao ser confrontado com a tradução de «fortaleza del ungüento», é que me lembrei doutro substantivo que, usado fora de certo contexto, causa sempre perplexidade em certos falantes: «Ontem, uma dezena de pais e alunos telefonaram para a tutela e enviaram e-mails a pedir esclarecimentos e uma reunião com Isabel Alçada para falar da bondade da EM e do direito dos seus filhos à educação» («Ministério da Educação fecha Escola Móvel», Bárbara Wong, Público, 10.08.2010, p. 7). E, vendo bem, a definição do Dicionário Hoauiss não ajuda nada a convencer esses tais perplexos da propriedade do termo.

[Post 3842]

27.8.10

«Correr as cortinas»

Imagem tirada daqui

Ao correr da pena


      Quando corremos um ferrolho ou uma cortina, como ficam a cortina ou o ferrolho — abertos ou fechados? Simples? Não para um jornalista: «À esquerda fica o quarto, amplo, o tecto estrelado, uma música a sair baixinho das colunas embutidas. Quando se correm as cortinas e levantam os estores (normalmente fechados), o efeito intimista perde-se» («Dois dias em motéis com muito sacrifício», Ricardo Dias Felner, Sábado, n.º 326, 29.07.2010, p. 84).
      Ainda recentemente vi este mesmo erro, mas não disse aqui nada. Ou seja, corri uma cortina sobre o assunto. Décima acepção do verbete «correr» no Dicionário Houaiss: «Empurrar ou puxar (algo), fazendo deslizar. Ex.: para que o sol não entrasse, correu as cortinas.» Convenho: a definição está mal redigida, pois somente pela leitura do exemplo se fica a perceber que esse movimento se faz no sentido de fechar as cortinas. É o que eu costumo dizer: os dicionários têm muito por onde melhorar. Tal como os falantes.

[Post 3819]

26.8.10

Léxico: «radiotelefone»

Esmerem-se


      «“Puro, Chile, é o teu céu azulado...” cantaram os 33 mineiros presos há 20 dias a quase 700 metros de profundidade. O hino chileno soou no radiotelefone quando souberam que os companheiros sobreviveram ao acidente de 5 de Agosto e que os seus familiares estão acampados à superfície» («Mineiros ignoram que resgate vai durar meses», Susana Salvador, Diário de Notícias, 25.08.2010, p. 22).
      O Dicionário Houaiss não regista, santo Deus!, o vocábulo «radiotelefone». (Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.) Vejamos o que dizem outros dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define-o assim: «Aparelho receptor na transmissão da palavra pela radiotelefonia.» Percebe-se? Não me parece. E quanto ao Dicionário Priberam da Língua Portuguesa? O verbete diz isto: «Telefone colocado num veículo e que funciona utilizando ondas radioeléctricas.» Se estiver no fundo de uma mina, já não é um radiotelefone? Passemos a fronteira. A definição do DRAE é esta: «Radioteléfono. m. Teléfono sin hilos, en el que la comunicación se establece por ondas electromagnéticas.»

[Post 3817]

22.8.10

Sobre «câmara-de-ar»

Imagem tirada daqui

Pensemos nisto


      Os Brasileiros grafam câmara de ar e nós, câmara-de-ar. O problema, porém, não é nem podia ser esse. Vejam a definição no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «Tubo circular de borracha que, cheio de ar, se ajusta à volta do aro das rodas das bicicletas, dos automóveis, etc.» Ora bem, e como se diz «câmara-de-ar» em inglês? Justamente: inner tube. E que nome se dá ao compartimento que, nas naves espaciais, permite a passagem de pessoas e objectos de uma área com um nível de pressão para outra com diferente nível? Em inglês, airlock. Em português, muitas vezes câmara de ar. E sala estanque. E sistema de saída para o espaço. E escotilha de despressurização... Supondo que a primeira é a designação mais usada, falta acrescentar uma acepção no verbete dos dicionários. E mais: não há compartimento destes somente nas naves espaciais.  É verdade que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista, além da definição do dicionário da Porto Editora, esta: «Cavidade que contém ar.» Contudo, não me satisfaz.

[Post 3810]

29.7.10

Sobre «mina»

Uma acepção quase perdida


      Os dicionários vão ficando cada vez mais pobres. Onde pára a acepção do vocábulo mina relativo à galeria subterrânea que se abre nos sítios das praças, pondo no fim dela uma recâmara cheia de pólvora ou outro explosivo para que, dando-lhe fogo, arruíne as fortificações? Só no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, mas muito mal explicado e redigido: «Fortif. Cavidade que (cheia de pólvora) faz ir pelos ares o que há por cima.» Bem, também, admito, o Dicionário Houaiss, e, aliás, com uma redacção suspeitamente semelhante, e por isso igualmente mal explicado.

[Post 3741]

28.7.10

Sobre «vectorial»

Assim se vê a diferença


      «José Robalo, subdirector-geral da DGS, revelou ao CM que foram reforçadas as medidas de combate ao vírus do Nilo Ocidental: “Foi reforçada a rede de vigilância vectorial, coordenada pelo Instituto Nacional de Saúde [Dr.] Ricardo Jorge, que recebe mosquitos de todo o País. Nesta medida, decidimos aumentar o número de insectos recolhidos em Lisboa e Vale do Tejo para análises laboratoriais”, explicou o responsável» («Reforçadas medidas contra vírus do Nilo», André Pereira, Correio da Manhã, 27.07.2010, p. 17).
      Uma sondagem dir-nos-ia quantos leitores do Correio da Manhã perceberiam aquele vectorial. Assim sem qualquer explicação, é um mau trabalho. No Público, creio que ainda é pior: «“Foram encontradas 11 espécies diferentes de mosquitos na zona de residência do doente, mas, até agora, nenhum caso positivo da presença de vectores do vírus do Nilo Ocidental”, refere José Malheiros, especialista dedicado a esta rede de vigilância do INSA que já funciona há alguns anos» («Caso de infecção por vírus do Nilo Ocidental em Portugal está “praticamente confirmado”», Andrea Cunha Freitas, Público, 27.07.2010, p. 6).
      No Diário de Notícias, a palavra começa por nem sequer estar na peça principal (de resto, o artigo é muito mais informativo do que os dos outros jornais), mas num texto de apoio: «Desde 2008 que o INSA tem uma rede de vigilância de vectores (veículos de transmissão como os mosquitos) no Continente e na Madeira» («Mosquitos e mamíferos estão a ser investigados para detectar vírus do Nilo», Diana Mendes, 27.07.2010, p. 12).
      Agora quanto a vectorial. Se tivéssemos dicionários realmente bons, talvez não fosse tão grave que os jornalistas escrevessem assim. Não é o caso. Qualquer dicionário remete sempre para vector. Este vem do latim vector, -ōris, «que conduz». Em termos genéricos, é o agente que transporta algo de um lugar para outro. Especificamente em termos médicos, é o ser vivo que pode transmitir ou propagar uma doença. Nenhum dicionário da língua portuguesa, porém, apresenta esta simplicidade.

[Post 3732]

25.7.10

Sobre «ambidestro»

A torto e a direito


      Hitler, cruzes!, era canhoto. Mas isso não tem, excepto na etimologia, nada de sinistro. António Lobo Antunes também é esquerdino, e não há-de ser por isso que não foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. Destro, dextro, ambidestro, ambidextro, esquerdino, canhoto, canhestro são todos termos que qualquer dicionário — excepto, pelo menos de forma inequívoca (digo isto para objectar ao que me possam dizer sobre o Dicionário Aulete Digital), o Dicionário Houaiss — refere apenas às mãos, mas os jornalistas desportivos usam-nos igualmente para referir o pé que os futebolistas usam. «Apesar da chegada de Sereno, que é um central ambidestro, Villas-Boas tem apostado em Maicon para jogar na posição mais à esquerda do centro da defesa, ou seja, aquela que nos últimos anos tem vindo a ser ocupada por Bruno Alves.»

[Post 3725]

19.7.10

Sobre «banhos»

Bons banhos


      Faz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora muito bem em autonomizar o substantivo plural «banhos», ao contrário do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que o inclui no verbete «banho». Banhos, no plural, é o anúncio oficial de um casamento, também chamados proclamas, e não têm nada que ver com o étimo de «banho». Agora, vejo aqui em Cervantes que o conde mandou «echar bando por toda su armada que, so pena de la vida, volviese la niña cualquiera que la tuviese». Aquele echar bando é o mesmo que publicar um édito e o étimo de «bando» é justamente o mesmo dos nossos «banhos»: o francês ban, e este do frâncico ban.

[Post 3704]

4.7.10

Léxico: «rádula»

Ganha o caracol


      Se não devemos, razoavelmente, esperar que os dicionários gerais da língua expliquem que o córtex está dividido em seis camadas, numeradas de I a VI e todas com uma designação específica, porque não são enciclopédias ou manuais de Medicina, já acho muito razoável que esperemos encontrar neles o próprio vocábulo «neocórtex». Consultemos, por exemplo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (2009). Na página onde devia estar registado (p. 1115), esbarramos com o vazio entre «neócoro» e «neocriticismo». Deve ser por se tratar da área mais evoluída do cérebro... Em contrapartida, todos registam, por exemplo, o vocábulo «rádula», que designa o órgão semelhante a uma língua de muitos moluscos, entre eles o caracol. Munida de numerosos dentículos, serve para cortar os alimentos — plantas, que os caracóis são herbívoros. Qual o critério para estas exclusões? Falta de espaço? A sério? Por mim, dispensem o encarregado da guarda, limpeza e boa ordem dos templos, entre os pagãos.

[Post 3660]

26.6.10

Sobre «radiofarol»

Sem luz


      «Não houve nem falsos radiofaróis atraindo enganadoramente para o desastre o avião, nem mísseis prontos a destruí-lo, nem “uma longa mão” dos serviços secretos sul-africanos, ou soviéticos, ou mesmo moçambicanos» («O mistério continua», Luísa Meireles, Actual/Expresso, 15.05.2010, p. 14).
      O Dicionário Houaiss define radiofarol como o «equipamento que emite determinados sinais de rádio para orientação do navegante»; o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, como a «estação emissora de ondas radioeléctricas que permite a um navio ou a um avião determinar a sua posição e seguir na rota prevista»; o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, como a «estação fixa de rádio, de emissão temporária ou permanente, cujos sinais, captados a bordo de uma aeronave, permitem determinar a sua posição». Esta última definição parece-me dúbia. Quanto à definição do Dicionário Houaiss, creio que seria melhor ter optado pelo termo «navegador» em vez de «navegante». A definição constante do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa é (mas gostaria de conhecer a opinião de quem sabe destas questões, como Paulo Araujo) lapidar.

[Post 3632]