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24.11.10

Regência do verbo «acreditar»

Visto dessa maneira...


      «As autoridades acreditam em que os jovens foram assassinados pela mesma pessoa, mas não têm qualquer indício sobre os motivos de tão bárbaro crime» («Mistério envolve morte de jovens», Paulo Madeira, Correio da Manhã, 23.11.2010, p. 38).
      Transitivo indirecto, o verbo acreditar? Bem, talvez, mas hipercorrecção não é só exagero — é erro.

[Post 4119]

Actualização no mesmo dia

      O jornalista Alexandre Panda anda a ler os artigos do colega Paulo Madeira (ou será ao contrário?), e isso só lhe faz mal: «O Ministério Público de Felgueiras acredita em que ambos agiram em cumplicidade para que a ex-autarca recebesse as despesas que só lhe podiam ser reembolsadas depois da decisão judicial ter transitado» («Câmara pagou 83 mil euros a advogado», Alexandre Panda, Correio da Manhã, 23.11.2010, p. 34).



23.11.10

«Deitar água na fervura»

Acalmar os ânimos


      «Um encontro semelhante sobre as ilhas Curilhas, entre o primeiro-ministro japonês e o presidente russo, Dmitri Medvedev, não teve resultados (ver pág. 35). Para colocar água na fervura, os russos dizem estar interessados em mais comércio com o Japão» («Obama apoia ambições do Japão na ONU», Luís Naves, Diário de Notícias, 14.11.2010, p. 32).
      Se até um jornalista como Luís Naves escreve desta maneira, bem podemos tirar o cavalinho da chuva — é uma causa perdida. Desta vez, nem sequer é confusão com o verbo «pôr», mas com outro. Então, caro Luís Naves, não é deitar água na fervura que se diz? Não é a brincar: vou mesmo emigrar. De longe, isto há-de ser muito divertido.

[Post 4111]

12.11.10

Verbo «inaugurar»

Nem pensar


      «Inaugurou no passado dia 14 a segunda edição da Trienal de Arquitectura, que se estende até 16 de Janeiro, por diversos pontos de Lisboa — os museus Berardo, da Electricidade e do Chiado — e a Casa das Histórias de Paula Rego, em Cascais, e conta com exposições, workshops e uma conferência internacional» («Falemos de casas», Cláudia Melo, Diário de Notícias, 17.10.2010, p. 66).
      Inaugurou — quem? Querem ver que foi a Trienal de Arquitectura que se inaugurou a si mesma? Enquanto o mundo for mundo e se falar português, a Trienal de Arquitectura foi inaugurada. Esta forma de escrever foi inaugurada, e agora é seguida, por jornalistas com um deficientíssimo conhecimento da língua.

[Post 4069]

30.10.10

Como se escreve nos jornais

Ai, que susto


     «Chris Meade, do if:Book London, uma organização britânica que explora as potencialidades criativas dos novos média e está ligada ao Institute for The Future of the Book de Nova Iorque, esteve em Lisboa na semana passada e não o vê assim. “Estamos a ser muito duros. O que significa realmente ser dono de um livro impresso, o que é esse sentimento de pertença? Ele não dura para sempre; perdêmo-lo, oferecêmo-lo, deixamos que caia no banho e não o podemos ler mais. Num dos nossos projectos, colocámos uma piada: o Google desliga uma ficha e toda a nossa cultura desaparece. Talvez o grande perigo seja esse: o da perda do digital”, disse» («Ser ou não ser dono de um e-book», Isabel Coutinho, «Ípsilon»/Público, 29.10.2010, p. 42).
      Pois é, Chris Meade tê-lo-á dito, mas não o escreveu com aqueles erros. É, acaso, algum acento diferencial?

[Post 4027]

14.9.10

Verbos pronominais

É doença, é grave


      «Oiça esta: “Muitos ter-se-ão já questionado...” “Ter-se-ão” existe, claro, mas não se pode usar aqui. Será antes: “Muitos terão já questionado...”» Nada de pronominais, portanto. Assim se constrói a biografia de um homem. Já sabem qual.

[Post 3875]

1.8.10

Verbos pronominais

Parece que o ouviram


      «A procuradora Cândida Almeida decidiu pelo arquivamento dos autos relativos a corrupção activa e passiva, tráfico de influência, branqueamento de capitais e financiamento ilegal de partidos políticos» («MP arquiva crime de corrupção», Manuela Teixeira/Janete Frazão/Rui Pando Gomes, Correio da Manhã, 28.07.2010, p. 28).
      O revisor antibrasileiro iria rejubilar com esta construção — mas está errada, como ainda recentemente aqui dissemos. Correcto seria «decidiu-se pelo arquivamento».

[Post 3750]

29.7.10

Verbos pronominais

Decidir-se por


      O revisor antibrasileiro voltou ontem a afirmar pernóstica e categoricamente que a forma como os Brasileiros escrevem e falam tem contribuído decisivamente para a degradação da língua portuguesa. Há ali, nada me desconvence, qualquer trauma, e menos latente que efervescente. Pouco falta, se algo falta, para negar a existência de verbos pronominais na língua portuguesa. «Veja aqui: “O presidente decidiu-se pela dissolução do clube.” “Decidiu-se”! Já não é “decidiu pela”.» Não me mostrei bisonho e disse-lhe que eu me decidia pela pronominalização. Amochou. («Retraiu-se», diria, se ele não se melindrasse com o se inerente.)

[Post 3740]

15.7.10

Verbo «reaver»

O impensável


      Isto globalmente, porque depois sempre encontramos casos de arrepiar. Como este: «O autarca de Oeiras, que ainda não foi notificado da decisão do TRL [Tribunal da Relação de Lisboa], foi absolvido do crime de abuso de poder e reaveu a posse de um terreno em Cabo Verde, que lhe tinha sido confiscado, assim como foi ordenada a devolução de bens apreendidos à ordem do processo, descontados que sejam os 197 266 euros de indemnização ao Estado que a Relação fixou, bastante menos do decidido em primeira instância, 463 mil euros» («Isaltino Morais não perde mandato», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 14.07.2010).
      Defectivo, irregular, o verbo reaver está para além de tudo o que é de esperar — e por isso se tem de decorar. É imperdoável que um jornalista dê tal erro.
      A terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do verbo reaver é reouve (eu reouve, tu reouveste, ele reouve, nós reouvemos, vós reouvestes, eles reouveram).

[Post 3692]

25.6.10

Formas perifrásticas

Se quer saber


      Cara Luísa Pinto: já aqui abordei pelo menos uma vez essa questão. Hoje exemplifico com outra frase errada: «Apesar de fazer parte da colecção Portugal Turístico (o logótipo é um trevo de quatro folhas), o postal foi Made in Italy. É pois aos italianos que assacamos o ultraje. Não é assim tão mau: acabamos por nos habituarmos a morar em Necklaces» («Feito à mão», Miguel Esteves Cardoso, Público, 6.06.2010, p. 33).
      O nosso notável cronista desprezou o que lhe terá ditado a intuição, e a gramática saiu ofendida. Com formas verbais perifrásticas, o infinitivo deve ser impessoal: acabamos por nos habituar.

[Post 3626]

26.5.10

Tempos verbais

Ficha Limpa


      O leitor Paulo Araujo chamou-me a atenção para uma polémica que tem todo o interesse para nós, pois centra-se essencialmente numa questão linguística. Um projecto de lei, de iniciativa popular, chamado Ficha Limpa, pretende impedir a candidatura de políticos condenados em segunda instância judicial. Tudo teve origem em 2008, quando a Associação Brasileira de Magistrados (ABM) tornou pública uma lista com os candidatos com «ficha suja». Mais recentemente, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) desencadeou o processo depois de ter obtido a assinatura de mais de 1,5 milhão de cidadãos. O texto-base do projecto já foi aprovado pelo plenário da Câmara dos Deputados. Entretanto, o senador Francisco Dornelles introduziu umas emendas que podem desvirtuar o sentido da lei. A alteração é de tempos verbais e não de verbos: em vez de se estatuir «os que tenham sido condenados», passou a ser «os que forem condenados».
      Não há gramático ou linguista brasileiro que não tenha sido ouvido pelos meios de comunicação a propósito da questão. De um artigo da jornalista Alessandra Duarte (que podem ler na íntegra clicando na imagem acima), na edição de ontem do jornal O Globo, extraio a opinião de Evanildo Bechara, com a qual concordo inteiramente: «Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), o filólogo Evanildo Bechara afirma que, enquanto o tempo verbal “tenham sido” é mais claro e aponta para uma só categoria — aqueles que já foram condenados no passado —, a expressão “os que forem condenados” dá margem a duas interpretações: — Uma dessas interpretações abrange só os que vierem a ser condenados. A outra, porém, abrange todos aqueles na condição de condenados, o que, portanto, inclui os que já tiveram condenações. Do meu ponto de vista, essa segunda interpretação é a mais próxima do espírito inicial do projeto pensado pela sociedade. E eu escolho o que está mais próximo do espírito do projeto — analisa Bechara.»
      Devo, no entanto, realçar que me parece um pouco contrafeito — e, em qualquer caso, a denotar uma deficiente técnica legislativa — o uso do futuro do conjuntivo no texto da lei, que, por uma interpretação restrita, significará somente os que vierem a ser condenados, diminuindo assim o alcance da norma.
      Resta agora saber se Lula da Silva vai sancionar ou vetar a lei. O caminho mais sensato seria optar pelo veto, dado o perigo real de subversão do espírito da lei.

[Post 3504]

18.5.10

Regência do verbo «preferir»

Não pode ser


      «“Prefiro morrer no meio daquelas magníficas montanhas do que sozinho na cama de um hospital sinistro”» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 233). «Os Nakhis são gente apaixonada e, ainda hoje, jovens amantes preferem envenenar-se, afogar-se ou saltar de um abismo, do que sujeitarem-se a um casamento indesejado» (idem, ibidem, p. 235).
      Uma tradução não é o texto adequado para a exibição de semelhantes relativismos linguísticos. A norma culta portuguesa manda usar-se a construção «preferir uma coisa a outra», e o tradutor e o revisor não podem ignorá-la.

[Post 3476]

Regência do verbo «consistir»

E a decência sintáctica?


      «Além do barrete, o traje das mulheres consiste de um corpete azul, avental branco plissado e uma capa direita acolchoada, presa por cordões entrecruzados» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 229).
      Já aqui vimos uma citação do Prof. Vasco Botelho de Amaral sobre a regência do verbo consistir. Este estudioso, se se lembram, atribuía esta regência espúria à influência do inglês consisted of. E, no caso, trata-se mesmo de uma tradução do inglês.

[Post 3475]

12.5.10

«Colocar em causa»?

Mais um prego


      «Manuel Alegre publicou ontem no seu site (www.manuelalegre.com) uma cronologia detalhada sobre a forma como cumpriu o serviço militar, com o objectivo de esclarecer dúvidas que têm sido levantadas sobre a matéria. O candidato presidencial diz que não tem nada a esconder, “ao contrário dos cobardes que espalham calúnias a coberto do anonimato”, e vai “agir judicialmente” contra os que colocarem em causa a sua carreira militar» («Alegre processa quem coloca a sua carreira militar em causa», Luciano Alvarez, Público, 12.05.2010, p. 21).
      Quis saber se também o poeta já tinha cedido a esta moda aparvalhada de substituir o verbo pôr pelo verbo colocar, agora omnipresente, mas não, é mesmo inépcia do jornalista.

[Post 3445]

13.4.10

Casar ou casar-se?

Não precisa de ser oficiante


      Escreve-me um leitor: «Escritor de sucesso imparável e irrequieto apresentador de telejornais, disse José Rodrigues dos Santos: “Elizabeth Taylor vai casar.” Não disse quem nem o quê. Nem isso será importante.»
      A verdade é que os dicionários já vão apresentando este verbo, casar, não apenas como pronominal, mas também como intransitivo. A eliminação do se, que, neste caso, não é reflexo, como muita gente afirma, mas inerente, vai sendo comum, em parte devido à lei do menor esforço, mas também graças a fenómenos de analogia e cruzamento. De uma maneira geral, os falantes já não estranham a supressão do pronome nestes casos. Aliás, José Rodrigues dos Santos, que disse de facto o que o leitor transcreve, também disse — e até antes — isto: «Elizabeth Taylor vai-se casar pela nona vez.»
      Mais: se contrario, sempre que posso, a omissão do se no verbo ir — nunca sancionaria uma frase como esta: «Finalmente, o chefe local que tinha sido o seu principal apoio, Omach, também teve de ir embora com a sua gente.» —, nada faço em relação a casar. Espero que não me comparem agora ao médico que, podendo salvar o doente, deixa a doença seguir o seu curso.

[Post 3336]

28.3.10

Verbo «dar»

«O verbo deiamos não foi encontrado.»


      Um leitor acaba de me escrever: «No programa Um Certo Olhar, da Antena 2, de hoje, comentava-se a eleição do novo presidente do PSD quando o professor, escritor, dramaturgo, crítico literário, comentador e não sei que mais Miguel Real disse: “Pronto, deiamos oportunidade.”»
      Na Beira Interior é que se conjuga comummente desta forma o verbo dar. Mas Luís Martins, pseudónimo de Miguel Real, é lisboeta, segundo umas fontes, ou sintrense, segundo outras. Pode ser as duas coisas, exactamente: natural de Lisboa e residente em Sintra. Mas quanto ao verbo: Dê/dês/dê/dêmos/deis/dêem.

[Post 3287]

16.3.10

Submirjo ou submerjo?

O erro do tabelião grogue


      «Descubro o meu fundão, submirjo a minha garrafa de cerveja num remoinho à beira de água e pesco durante uma hora, apanhando três pequenas trutas, que devolvo ao rio» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 125).
      Algumas gramáticas e dicionários de verbos consideram submergir regular e conjugável com -e- no radical da primeira pessoa do presente do indicativo e em todo o presente do conjuntivo, e eu também. Esta forma bastarda, submirjo, deve ter sido lapso de algum tabelião mais conspícuo mas já com os copos. Eu próprio estou a beber — numa caneca, não gosto de muitos calicezinhos — uma reserva Dona Antónia (uma velhota tesa, e a cupidez do barão de Forrester, com a faixa panda de moedas de ouro, é que o afogou), e os efeitos, conspícuos ou não, nunca deixam de se fazer sentir.

[Post 3247]

26.2.10

Acertos e erros na televisão

Pobres criancinhas


      Quase um terço das crianças portuguesas, soube-se ontem com a divulgação de um estudo da Deco, passa mais de nove horas por dia nas creches e a esmagadora maioria ocupa parte do tempo a ver televisão em jardins-de-infância. E mais: 27 por cento de pais com filhos entre 1 e 2 anos (creches) e 10 por cento com crianças nos jardins-de-infância (entre 3 e 5 anos) afirmam que gostariam que as instituições abrissem ao sábado. Em vez de empregados, as instituições têm televisões. Ainda há poucos minutos, no canal Disney, passava um episódio da série de desenhos animados A Nova Escola do Imperador. Uma das personagens (Kronk?) dizia: «Foi o tipo que nos deteu.»

[Post 3184]

10.2.10

Verbo «reaver»

Vergonha


      Não, cara Maria Luísa, não estamos de acordo: veja por aí se não encontra, em vez da correcta forma reouve, a errada *reaveu. Em acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça, em jornais, em páginas da Internet de organismos oficiais, em blogues... A terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do verbo reaver é reouve. O verbo reaver é formado de haver (re + haver). Reaver, nunca é inútil lembrá-lo, é um verbo defectivo, só se conjuga nas formas que conservam o v do radical. E pensar que quem escreve assim pode andar por aí a debitar opiniões sobre o Acordo Ortográfico de 1990...

[Post 3126]

14.9.09

Sobre «suprir»

Ora bem


      «A central do Pego supre 11 por cento da electricidade em Portugal e é o segundo maior emissor de CO2 no país» («Central do Pego estuda enterramento de CO2», Público, 10.09.2009, p. 22). O verbo suprir não é muito usado, e muito menos esta acepção de abastecer, prover. Etimologicamente, o verbo latino suppleō (subpl-), ēvī, ētus, ēre significava tão-somente «encher de novo». Na frase, não foi usado como transitivo indirecto, pois não tem o complemento regido pela preposição a (com certos verbos, com a preposição para). Como bitransitivo ou biojectivo (e Maria Tereza de Queiroz Piacentini lembra «que já não se fala em “bitransitivo”, mas em “transitivo direto e indireto”), também não. Que acham os meus leitores?

Actualização às 16.42

      Só a Academia Brasileira de Letras me respondeu: «O verbo suprir pode ser regido pelas preposições de, com e a. (TDI: supri-lo de, com...) A construção: ...supre 11% da electricidade em Portugal ...está correta. Suprir a uma família (TI).»

31.8.09

Ficar e ficar-se

Diário de um revisor

     

      Enquanto palitava, com minúcia de odontologista, a redúvia, o revisor antibrasileiro ia lendo e resmungando: «Ah! Ouça esta: “E por aí se ficou”! O brasileiro estragou isto tudo. Não basta escrever “E por aí ficou”?» O verbo ficar também é, sem qualquer dúvida, pronominal: ficar-se. Houve, no entanto, confusão do jornalista, pois, no contexto, o verbo é intransitivo, na acepção de permanecer em determinado ponto ou valor; não passar de. Para ser pronominal, a frase teria de ter outra redacção. Em relação à forma pronominal, o exemplo do Dicionário Houaiss refere-se a um cavalo — «O cavalo ficou(-se), e o vaqueiro estatelou-se no chão.» —, mas claro que se podia referir a um futebolista: «Em relação aos boatos que o dão como preguiçoso e pandegueiro, o avançado ficou-se.» Fico por aqui.