31.8.06

Legendas

Imagem: http://www.clubcultura.com/

Volver a probar

     

      Fui à antestreia (e não «ante-estreia», como se vê escrito muitas vezes) do filme Volver, de Pedro Almodóvar. Gostei muito, sim senhor. Já as legendas, da responsabilidade de Fátima Chinita, as poucas vezes que as li, não me pareceram incontestáveis, pelo contrário. Dois exemplos: traduzir rosquilla por «donut» não faz qualquer sentido. E quanto a «língua de sogra» para verter barquillo, nem pensar. Terá querido escrever «língua-de-sogra», o que é diferente. E mais: se tivesse deixado «barquilho» não teria sido má opção. No meu caso pessoal, conheci primeiro a palavra «barquilho». Vendo bem, conheci primeiro a palavra barquillo.


30.8.06

Patronímicos

Dos nomes

Suscita sempre algum interesse tudo o que se relaciona com os nossos nomes. É sabido que na Idade Média havia o costume de juntar ao nome de baptismo o nome próprio do pai (curiosamente, nos países árabes é, ainda hoje, o oposto: os homens árabes começam a vida com uma denominação como «filho de X» — bin ou ibn X — e, depois de terem tido um filho, podem adoptar a denominação «pai de Y» — Abu Y) para distinguir pessoas diferentes, mas que tinham o mesmo nome. Surgiram então os chamados patronímicos. Distinguem-se pela terminação -es, e antiga -ez, correspondente, já adivinharam, ao genitivo latino -ci. Temos, assim, José Fernandes, que significa José, filho de Fernando, etc. Mais tarde, deixaram de ser usados com esta função de filiação, passando a ser meros nomes. Eis alguns patronímicos e os nomes de que derivaram:

Álvares — Álvaro
Antunes — António
Fernandes — Fernando
Gonçalves — Gonçalo
Lopes — Lopo
Mendes — Mendo
Nunes — Nuno
Pais — Paio
Ramires — Ramiro
Rodrigues — Rodrigo
Sanches — Sancho
Soares — Soeiro
Vasques — Vasco
...

29.8.06

Género de «modelo»

O uso e o abuso

O uso faz lei, diz-se, e, sob certas condições, isso é verdadeiro. Contudo, não podemos invocar esse argumento por dá cá aquela palha, pois isso desgasta-o e tende a erigir em norma o que é excepção. Vem esta reflexão a propósito do género do vocábulo «modelo»: pese embora quase todos os dicionários o darem como masculino, o uso vai impondo o género feminino. Vejamos um exemplo. «A ex-modelo de 38 anos queria refazer a sua vida na América após o conturbado divórcio mas, de acordo com um amigo, está sem emprego» (Hether [sic] Mills está sem trabalho na América», Público, 22.08.2006, p. 42).

Tradução

Dez milhões de tradutores

Nunca quero dar uma ideia muito risonha da minha actividade, não vá alguém lançar-me mau-olhado ou querer, como castigo, pagar-me menos. Mas, francamente, que hei-de fazer quando me chegam às mãos traduções como esta que se segue? O original dizia: «Subsistió la fábrica hasta que, durante la Guerra de la Independencia, su edificio —que el pueblo de Madrid designaba La China— fue destruido por los cañones ingleses.» O tradutor reinterpretou a História: «A fábrica subsistiu até que, durante a Guerra da Independência, o seu edifício — que o povo de Madrid chamava La China — foi destruído pelos cânones ingleses.» Não fisicamente, claro, mas a fábrica poderia, de facto, ter sido destruída pelos novos cânones ingleses no fabrico de porcelana, em especial os difundidos pelas fábricas de Chelsea, Bow, Derby e Worcester.

28.8.06

Léxico: bruíço

As brumas da Academia

Há já muitos anos que conheço um regionalismo muito interessante: bruíço. Conhecem? É usado em Vila Nova de Foz Côa e designa a pedra granítica sobre a qual se costumam quebrar as nozes e as amêndoas. Muito poucos dicionários o registam. O Dicionário da Academia, por exemplo, passa directamente de bruços para bruma, deixando nesta o vocábulo procurado. Entretanto, abriu em Foz Côa um restaurante chamado O Bruíço, conhecido por servir a antiga sopa seca de Trás-os-Montes, a que deram — apelando aos apetites turísticos — o nome de sopa do Paleolítico.