5.9.06

Tradução

Vocações erradas

Um dos meus temas preferidos, os meus leitores já sabem isso, é a leviandade com que se faz alguma tradução em Portugal. É preciso ver que alguns textos não têm, por opção meramente economicista, suponho, revisão. Este exemplo chegou-me recentemente às mãos. Se por um lado demonstra cabalmente que os dicionários que temos não são os melhores, também deixa ver claramente que há muitos curiosos a ganhar a vida nesta área. Vejamos o que diz o original: «En esta simpática escena, el perrito faldero parece ser el único que presta atención a los músicos, mientras dos abates y un monje juegan una partida de naipes ignorando por completo al conjunto.» O pouco discernimento do tradutor deu isto: «Nesta simpática cena, o cão efeminado parece ser o único que presta atenção aos músicos, enquanto os dois abades e um frade jogam às cartas ignorando completamente o conjunto.» Ora, um perro faldero é, na definição do Diccionario de la Real Academia Española, «el que por ser pequeño puede estar en las faldas de las mujeres».


[Perrito faldero: cão de regaço; totó, fraldiqueiro.]

4.9.06

Alcatraz e albatroz

Nem mais

Agora que Zacarias Moussaoui está na prisão de Florence, Colorado, prisão de segurança máxima também conhecida por «Alcatraz das Rochosas», apetece-me falar das palavras «alcatraz» e «albatroz».
Alguns preferem «albatroz» a «alcatraz», mas fazem mal: a primeira deriva da segunda. «Albatroz» é uma corruptela inglesa do vocábulo português «alcatraz», que vem do árabe al-ġaţţās (mergulhador). Isto faz-me lembrar uma pessoa que conheço. Por vezes, vem contar-me, com ar de sabichão e como novidade, factos que eu lhe contara. De início chamei-lhe a atenção para o lapso, mas depois passei a ignorar. Vendo bem, até tem uma vantagem: a de refrescar-me a memória.

Galicismos

Preservativo

Recentemente, alguém me perguntava, e não estava a brincar, se «ainda existe essa coisa dos galicismos». Perguntei-lhe se conhecia o Movimento 560. Ah, sim, estou a ver, exclamou, você não me dá chance! Como é que adivinhou que esse é o galicismo que mais odeio!?
Vejamos uma citação do truculento frade José Agostinho de Macedo: «Os galicismos introduzidos na língua, e acrescidos por quem os pretendeu expungir, e que os maus mestres e tradutores do francês para cá nos acarretaram, desafiavam o riso aos homens sisudos, e que se não deixavam contaminar, tendo a devoção de lerem todos os dias, ao levantar da cama, uma ou duas páginas dos nossos bons livros portugueses, único preservativo contra a peste francesa.»
Eça de Queirós, por sua vez, num artigo intitulado «O Francesismo», de As Últimas Páginas, escreveu: «Há já longos anos que eu lancei a fórmula: — Portugal é um país traduzido do francês em vernáculo. A secura, a impaciência, com que ela foi acolhida, provou-me irrecusavelmente que a minha fórmula era subtil, exacta, e se colava à realidade como uma pelica. E para lhe manter a superioridade preciosa da exactidão, fui bem depressa forçado a alterá-la, de acordo com a observação e a experiência. E de novo a lancei assim aperfeiçoada: — Portugal é um país traduzido do francês em calão. E desta vez a minha fórmula foi acolhida com simpatia, com rebuliço, e rolou de mão em mão como uma moeda de ouro bem cunhada.»

1.9.06

Publicidade das autarquias


Gramática, 0, Estética, 1



      Já tinha visto na televisão, mas o facto de o leitor Hugo Santos me ter enviado uma mensagem a alertar para o facto determinou-me a dizer alguma coisa a este respeito. Trata-se da publicidade que a Câmara Municipal de Montemor-o-Novo está nesta altura a fazer à Feira da Luz, cujo cartaz se vê em cima. Alguém decidiu que os hífenes é uma coisa fora de moda, que só atrapalha a caminhada quase — não fora os malditos hífenes — inexorável para o desenvolvimento local. Talvez seja, quem sabe, um estádio intermédio para um aglutinado: Montemoronovo. Francamente! Ainda se o nome fosse Porcalhota, ou Picha, ou Cachaporra, topónimos que existem ou existiram (excepto talvez o último, escolhido por efeitos retóricos), eu compreendia que quisessem mudar. Juízo!


Pontuação

Tudo na mesma

«Duas dirigentes da Associação Solidariedade Imigrante, foram ontem detidas e levadas para a esquadra da Brandoa para identificação» («Amadora nega que demolições na Aziganha [sic] se devam à CRIL», Alexandra Reis, Público, 31.08.2006, p. 49). Claro que não vou referir-me ao metagrama, até porque não acredito que escasseie pábulo para fazer estes textos que aqui vou publicando. A jornalista anda, vê-se, a ler Alexandre Herculano, que afirma no volume V dos Opúsculos: «Uma das cousas em que maiores incorrecções e incertezas aparecem no comum dos escritos, é a pontuação.» Herculano (que, a propósito, se lê /Hêrculano/, pois com e aberto é a cidade de que sempre se fala a par de Pompeia), um dos melhores cultores da língua portuguesa, em parte esquecido, ou lembrado pelas piores razões («Foi cá uma seca ter sido obrigado a ler Eurico o Presbítero», já ouvi um professor de Português desabafar), pontua esta frase de uma forma que, no português contemporâneo — e pena é que a esmagadora maioria de quem escreve ainda não o saiba —, é inadmissível. Refiro-me ao sujeito longo a ser separado por vírgula do seu predicado.