9.10.06

Etimologia: testemunha

É de homem

Todos temos consciência de como, de uma maneira geral, ainda somos relutantes em ir a tribunal prestar testemunho acerca de quaisquer factos que interesse averiguar. Na província, correm como anedotas episódios hilariantes sobre esta realidade e, até há pouco tempo, estava enraizado no imaginário colectivo o risco de a testemunha ficar detida em vez do próprio arguido. Ir testemunhar voluntariamente parecia ser coisa só de homens intimoratos.
Parece que a própria etimologia do vocábulo «testemunha» já determinava a atitude. De facto, «testemunha» provém do latim testis (no português antigo, usava-se o vocábulo «teste» nesta acepção; modernamente, qualquer teste, e este chegou-nos também do latim através do inglês, comprova, atesta algo), que por sua vez procede da raiz indo-europeia tris-, a que pertence também, por exemplo, a palavra inglesa tree. A ideia é a de alguém, imparcial, que está no meio, qual árvore bem fincada no chão, das partes interessadas, que testemunha o acordo. Ora, da mesma palavra latina testis provém, e era aqui que queria chegar, o vocábulo «testículo» — o órgão que atesta a virilidade de um homem.

6.10.06

Etimologia: Santarém

Santa etimologia

Século VI. Filha dos senhores de Sellium (Tomar), Irene ou Iria, natural de Nabância, começou muito cedo a professar a religião cristã num mosteiro da ordem beneditina. Vítima de uma intriga engendrada pelo monge Remígio, seu mestre, foi decapitada e lançada por Britaldo (ou Banão) num pego do rio Nabão, e o seu corpo sepultado pelos anjos nas areias do Tejo, junto a Scalabis. Em sua homenagem, esta localidade passou, no século seguinte, a chamar-se Santarém (Santa Irene ou Iria). Lendária ou não, é a explicação que temos para a etimologia do topónimo Santarém. Ao contrário de inúmeros santos aémeros (os que não são celebrados em dia especial, por ignorar-se a data da sua morte), Santa Iria tem um dia em que é festejada: 20 de Outubro.

4.10.06

Léxico: pastifício

Imagem: http://www.pastificiopetropolis.com.br/

Sucos & Massas


Em Setembro, um consulente brasileiro, Paulo Pérsio, perguntava à equipa do Ciberdúvidas se existia um adjectivo que exprimisse a noção associada à locução «de suco», para referir uma indústria que produz sumos. Depois de referir «suculento», o consultor concluiu, sensatamente, que não se aplicava com propriedade e, inferimos, que não existe vocábulo para o exprimir. O que é, tanto quanto sei, verdade. E este é ou pode ser o primeiro passo para criar ou adaptar de outra língua esse vocábulo de que se precisa.
Lembremo-nos do termo «pastifício», usado para designar a indústria de massas alimentícias, levado na bagagem cultural e linguística dos italianos que emigraram para o Brasil. Actualmente, depois de ter sido introduzido no léxico no início do século XX, faz parte do dia-a-dia dos Brasileiros. De alguns, pelo menos. Em contrapartida, quem o conhece em Portugal? Os imigrantes brasileiros, pois claro!

3.10.06

Léxico: «hálux»

Da mão para o pé


      É verdade que o vocábulo «polegar» também se aplica ao dedo grande do pé. Contudo, o ideal é fazer corresponder a cada conceito um vocábulo diferente. É prosseguindo por este caminho que a ambiguidade (que, de resto, tem causas muito mais vastas) é menor naquilo que dizemos e escrevemos. Os Brasileiros, que são mais criativos e liberais, libérrimos, na verdade, na linguagem, dão o nome de «dedão» ao dedo grande do pé — e o Dicionário Houaiss regista-o. O vocábulo que designa, de forma inequívoca e com propriedade, esse dedo é «hálux». Os joanetes (vocábulo que vem do espanhol «juanete», registando o Diccionario de la Real Academia Española que é assim porque provém de «Juan, nombre rústico frecuente, pues se atribuía a rústicos ser juanetudo») têm a designação médica de «hallux valgo». O Chico Fininho, de Carlos Tê e Rui Veloso, tinha joanetes — e muita droga no corpo, o que é pior.

2.10.06

Multiúsos

Nada disso

      Tratava-se de traduzir o termo inglês «all-purpose» e a frase era a seguinte: «But like some all-purpose brainbooster, the prefrontal area is spectacularly flexible, able to engaje in a greater range of tasks than any other neural structure.» O tradutor verteu-a assim: «Mas como uma espécie de impulsionador cerebral multi-usos, a área pré-frontal é espectacularmente flexível, capaz de desempenhar uma gama de tarefas muito mais ampla do que qualquer outra estrutura neural.» Recentemente, também li no Diário de Notícias: «Novo pavilhão multiusos abre no dia 28» (12.09.2006, p. 33). A verdade, porém, é que a palavra é grave (como a maioria das palavras portuguesas) e, por ter o acento tónico no u, que é precedido de vogal com a qual não forma ditongo, tem de ter acento gráfico: multiúsos. Pela sua formação irregular, é, contudo, uma palavra que se deve evitar, substituindo-a vantajosamente por «polivalente», por exemplo. O que, afinal, sucede muitas vezes, pois que deverá haver mais «pavilhões polivalentes» do que «pavilhões multiúsos». Vendo bem, talvez não haja sequer um «pavilhão multiúsos», mas somente «multi-usos» ou «multiusos».