30.11.08

«Candahar»?

Porque não?


      Caro M. L. Bem, não sei o que está na edição dos Livros do Brasil (de 1985), mas no volume da colecção «9 mm», do Público, e o tradutor é o mesmo, Silveira de Mascarenhas, lê-se «Candahar». «Tomei o mesmo caminho, com muitos outros oficiais que estavam em idêntica situação, e consegui chegar são e salvo a Candahar, onde encontrei a minha unidade e imediatamente assumi as novas funções» (p. 7). Agradam-me mais certas opções de tradução de Hamílcar de Garcia, o tradutor brasileiro (cuja tradução pode ler aqui). Digo-lhe apenas isto: se vejo também em inglês Candahar, por que diabo não escrevemos assim em português? Como revisor, pelo menos, não altero. Em qualquer dos casos, estamos de acordo, nenhum leitor deixará de saber a que cidade se refere o oficial-médico Dr. John H. Watson.

Sobre «director»

Nem mais


      Pouco há, falei aqui do uso do vocábulo «dirigente» numa acepção que me pareceu pouco comum. Leio agora no conto «Perdão», que faz parte dos Contos Bárbaros de João de Araújo Correia, a seguinte frase: «O director de montaria, chegando a uma clareira, fez alto» (Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 132). É o mesmo, pois director também é o indivíduo que organiza uma qualquer tarefa.

 

29.11.08

Ortografia: «bem-cheiroso»

Pura anarquia? Não!


      Escreve-se mesmo assim, cara Olga Pereira. Estou a ler o livro de contos Pura Anarquia, de Woody Allen (publicado pela Gradiva em 2007, com tradução de Jorge Lima). Um dos contos intitula-se «Sam, fizeste as calças demasiado bem-cheirosas». Chega lá por analogia, que não por estar registado em nenhum dicionário, e por se considerar que há unidade semântica, como em «bem-falante», bem-comportado», etc.

«Tratar-se de», outra vez

Tratem-se


      O Centro Nacional de Cultura (CNC), com o apoio do Alto-Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI), lançou o Guia da Lisboa Intercultural, o que motivou uma reportagem da Antena 1. A repórter Lídia Cristo entrevistou ontem Helena Gelpi, Coordenadora de equipa do ACIDI a propósito desta publicação, que pretende dar a conhecer a presença das diversas comunidades de imigrantes residentes em Lisboa e é de distribuição gratuita. A jornalista quis resumir, pragmática mas agramaticalmente, o alcance da obra: «Tratam-se de sugestões para conhecer melhor a cidade, é isso?» Uma jornalista a falar assim…
      A construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular.

28.11.08

Sintaxe e elisão

Em bom português


      Caro Luís Ferreira, a sintaxe da frase que me cita é bem portuguesa. João de Araújo Correia, contista de primeira plana, por vezes purista extremado, escreveu no conto «Milagre»: «Se tivesse morrido, bem regalado devia estar, à banda de cima das nuvens, com sol do melhor e bons manjares celestes, enquanto os terrianos, de molhados, começavam a criar barbatanas de robalo» (Contos Bárbaros. João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 17). Cá está: «de molhados», com elisão do verbo, como quem diz «de molhados que estavam».