5.3.09

Plural de «persona non grata»


Não se metam nisso

Não há-de ser por acaso que certos jornais, como a Folha de S. Paulo, registam nos seus livros de estilo o plural da expressão latina, de uso diplomático, persona non grata. (O Livro de Estilo do Público só regista — para quê? — o singular.) Não basta acrescentar esses, como fazem neste artigo do Expresso: «As autoridades de Islamabad têm o hábito de interrogar e investigar a fundo os cidadãos que regressam ao país com o rótulo de personas non gratas» («Ashik pode ter problemas em casa», Hugo Franco e Ricardo Marques, Expresso, 24.01.2009, p. 17). O plural da expressão é personæ non gratæ. Quem sabe se eles não pensam que a expressão é espanhola…
A imagem faz-me lembrar uma expressão inglesa: carnival barker. Como traduzi-la? Gostava de ver como o fariam os consultores do Ciberdúvidas que afirmam que não precisamos de palavras estrangeiras… «Animador de circo», como já vi, está longe do conceito. Ele há malucos para tudo, e um carnival barker não é um animador de circo ou de festas.

Actualização em 9.03.2009

Um leitor informa-me de que o Dicionário Houaiss regista o termo empata-fodas, adequadíssimo, parece-me, para traduzir o inglês carnival barker.

Empata s.f. (1638) jur obsl. 1 arresto, confiscação ou penhora v s.2g. (c1920) infrm. pej. 2 indivíduo que atrapalha o andamento de algum processo ou a realização de qualquer intento alheio, quer por criar, propositadamente ou não, obstáculos ao seu progresso ou à sua actividade, quer por se intrometer em assuntos que não lhe são pertinentes; empata-amigos, empata-foda(s), empata-vazas ¤ etim regr. de empatar; ver empat- ¤ hom empata (fl.empatar).

4.3.09

«A sério»


Chega correio

Nada de eufemismos: há muitos lunáticos a escreverem para a secção de correio dos jornais e das revistas. Por vezes, porém, há textos úteis — que não são de lunáticos. O texto que transcrevo, com uma vénia à publicação e sobretudo à autora, saiu na edição de 21 de Fevereiro da Notícias Sábado e está assinado por Berta Brás: «Andar à tona, à babugem, aos caídos, à roda; mandar/ir à fava, ou à… (isso que se diz em caso de crise); atirar/lançar/mandar às malvas ou às urtigas; viajar à borla; morrer à míngua de, chegar — ou não — aos calcanhares; ir/vir à boleia, ficar à mercê… E muitas mais expressões, formadas, a sério, por verbo seguido de complemento adverbial constituído por artigo contracto por meio de crase com a preposição a e por substantivo abstracto ou concreto. Mas hoje em dia prolifera oralmente ou por escrito o aborto à séria, formado não por substantivo, mas por um adjectivo feminino, chegado dos confins da inércia educativa. Poupemos carinhosamente os meninos e meninas, que não precisam de fixar tabuadas, porque as contas fazem-se nos computadores, nem de distinguir o adjectivo do substantivo ou do verbo, deixemos este navegar pelos faze-mos que assim curti-mos a vida sem preocupação pelo correcto, repetindo à exaustão o tu dissestes ou mandastes, ou o hadem e o hades e o houveram e o diz a ela porque o pronome lhe se eclipsou, e o por aí fora dos dislates sem nome com que a própria televisão nos “favorece” a cada passo, em traduções descuidadas, ou até na oralidade precipitada daqueles cuja promoção nos cargos foi favorecida, talvez, não por concursos “a sério”, mas por processos sem seriedade, muito nossos. Mas temos tanto já com que nos preocupar, na crise em que mergulhamos, que os “pontapés” na gramática portuguesa são bem de pouca monta» («Gramática», p. 58).
A autora há-de ser a Prof.ª Berta Henriques Brás, ex-docente de Filologia Românica no Liceu Nacional de Aveiro, em Lourenço Marques e, a partir de 1976, em escolas do distrito de Lisboa, e autora de várias obras, entre elas uma síntese comentada de Os Maias e uma, Melodias do Passado, disponível em linha, aqui.

Criação vocabular

Com o alto paitrocínio

«O Instituto Português da Juventude (IPJ) assistiu na passada semana à assinatura de contratos-programa com associações de todo o País, no âmbito do PAI, o Programa de Apoio Infra-Estrutural», escreveu José Furtado na edição de 30 de Outubro de 2008 no Jornal Reconquista, de Castelo Branco. Que título poderia ter um artigo que aborda este questão? Isso mesmo: «Associações recebem PAItrocínio para obras».
Esta amálgama, «paitrocínio», corre há anos por aí, pela boca dos falantes de português. Também os Brasileiros a usam. É exactamente este processo de criação vocabular que distingue a escrita de Mia Couto, como também distinguiu a obra do genial Guimarães Rosa. A nova palavra, o neologismo, deriva da junção de dois lexemas num só. Justamente num estudo académico sobre a amálgama na obra de Mia Couto, escrevem Ana Margarida Belém Nunes e Rosa Lídia Coimbra: «Não será difícil imaginar que algumas palavras, nos dias de hoje, se conhecidas e divulgadas, facilmente entrariam no léxico da Língua Portuguesa. Isto porque, cada vez mais, tentamos dizer muito de forma breve e clara (pensemos, por exemplo, nas mensagens de telemóvel), é muita a informação que nos chega e que a todo o momento queremos fazer passar» (in «Estudo da amálgama e do seu valor em Mia Couto». Aveiro: Centro de Línguas e Culturas, 2007).

Tradução: «allouer»

Eu não aloco, obrigado

Bem podem os consultores do Ciberdúvidas asseverar que alocar é bom português. Veja-se esta frase de J. Attali: «La démocratie permet d’allouer librement des ressources rares pour produire et distribuer des biens publics» (La crise, et après?. Paris: Fayard, 2008, p. 151). Traduzimos aquele allouer por «alocar»? Só o faria se alguém me convencesse inequivocamente de que por trás daquelas três silabazinhas se esconde algo mais do que «atribuir» e «conceder». A não ser assim, governo-me com estes verbos.

3.3.09

Recursos

Vai uma linha?

Da Colômbia não vem só branca e cavalo. Da Medellín de má memória, e concretamente da Universidade de Antioquia, chega-nos a Mutatis Mutandis, Revista Latino-Americana de Tradução. Ver aqui.