2.4.09

Preposições «de» e «desde»

Não espanholize, Luís

      «Até agora o colectivo de juízas de Oeiras ouviu sete testemunhos, um dos quais por vídeo conferência desde o Tribunal de Ansião, concelho onde viveu a sogra do arguido» («Isaltino satisfeito com testemunhas», Luís Galrão, Diário de Notícias, 1.04.2009, p. 9). Talvez pudéssemos, com alguma prestidigitação, subentender ali um «até», mas é mais correcto dizer e escrever «de»: «do Tribunal de Ansião». Os repórteres desportivos é que gostam de transmitir «desde o Estádio Municipal de Braga, a Pedreira», «desde o Estádio da Luz, a Catedral», «desde o Estádio Algarve, em Faro», e por aí fora. Vão para Espanha falar assim, se fazem favor.

Prefixos re- e co-

Corrector incorrecto


      No início de Janeiro, a Academia Brasileira de Letras (ABL) lançou a 2.ª edição do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa. Foram 56 as alterações, todas referentes aos prefixos co- e re-, que fez em relação à 1.ª edição. Nesta, estavam registadas palavras como re-edificação, re-edificar, re-editar, re-educação, re-educar, re-eleger, re-eleição, re-eleito, re-embolsar, re-embolso, re-encarnação, re-encarnar, re-encontrar, re-encontro, re-engenharia, re-entrância, re-entrante, re-entrar, re-enviar, re-erguer, re-escalonamento, re-escalonar, re-escrever, re-escrito, re-estruturação, re-estruturar, re-estudar, re-exame e re-examinar. Na 2.ª edição, o hífen desapareceu, como já tínhamos referido aqui. Também escrevemos então que alguns dicionários portugueses difundiam o erro. E não só dicionários, comprovei-o ontem: também o corrector ortográfico Flip 7, da Priberam. Como os computadores da secção de revisão do Record o têm instalado, experimentei-o. Escrevi: «Reencontram-se na terra de ninguém entre a memória e o esquecimento, os tempos e os espaços em que o futuro foi uma realidade.» A ferramenta sublinhou a vermelho a palavra «re-encontram-se». Abro as opções e vejo que correcto é escrever «re-encontram-se». Agora vamos ver, como diria um tecnocrata enfatuado, o time lag da Priberam, o tempo que decorre entre a correcção no Brasil e a necessária (e mais barata) correcção a fazer cá. É que em algumas editoras já se vai usando o corrector ortográfico como se de uma autoridade se tratasse.

1.4.09

Grafia dos nomes próprios

Questão homérica

Ao ler agora o texto «Ruy, a Águya de Haya», que faz parte da obra What língua is esta?, de Sérgio Rodrigues (Gradiva, 2009), não pude deixar de pensar no leitor Pedro Bingre e na acusação de que eu também dormitei, qual Homero. Quandoque bonus dormitat Homerus. Felizmente já estou habituado a elogios, caso contrário poderia fazer-me mal ser comparado a um génio. Só uma coisa me desagrada na comparação: Homero, e Pedro Bingre, professor na Escola Superior Agrária de Coimbra, não há-de ignorá-lo, poderá nunca ter existido. Mas voltando a Sérgio Rodrigues. Resumo o texto: os descendentes de Rui Barbosa (este sim, um génio) querem recuperar o ípsilon que ele perdeu na reforma ortográfica de 1943. Escreve Sérgio Rodrigues: «Como se sabe, a lei de 1943, regulamentada por decreto presidencial dois anos e meio depois, foi prontamente acatada nos dicionários, nas escolas, na imprensa, por todo lado. Nos cartórios é que não houve jeito de pegar. O professor Celso Pedro Luft admite, em seu Novo guia ortográfico, que “a tradição entre nós (…) tem contrariado a lei”. Tem mesmo, e como. Uma discreta mas tenaz desobediência civil acabou se impondo na questão dos nomes próprios. Vez por outra, algum escrivão radical ainda tenta fazer valer o manual, mas a causa parece perdida. Luiz Inácio Lula da Silva, para citar um exemplo ilustre, se insere nessa tradição de contrariar a lei de 1943, segundo a qual todo Luís deveria ser escrito com s e acento» (p. 180).

Aplicação do AO

Espectáculo

      «“Os professores, jornalistas e tradutores serão os grandes obreiros da mudança com a entrada em vigor do AO, que vai permitir ao português dispor de uma única ortografia a nível internacional”, afirmou aos jornalistas João Malaca Casteleiro, que participou, nos Açores, numa sessão de esclarecimento sobre o tema na Escola Básica Integrada da Maia», leio no Diário de Notícias. Esqueceu-se, é claro, dos obscuros revisores (obreiros menores). Mas isso agora não interessa. Estou de novo, e por uns dias, no Record. Até agora, o jornal, que está a aplicar as novas regras ortográficas, apenas recuou numa opção. Tinha decidido escrever «espetador», e num jornal desportivo escreve-se milhares de vezes a palavra, e logo a indignação de alguns leitores se fez ouvir. Confunde-se, argumentam, com espetador, aquele que espeta. Parece que José Pedro Gomes e António Feio, na Conversa da Treta, já brincaram com esta alteração trazida pelo acordo ortográfico. Como se fosse novidade na língua. E os falantes não sabem distinguir entre «pregar», fixar ou segurar com prego, e «pregar», anunciar ou desenvolver um assunto em prédica ou sermão? Este último até já se escreveu prègar, mas a verdade é que a ortografia actual não impede a realização fonética considerada correcta. Por vezes, porém, em relação a algumas palavras a distinção fonética tem-se vindo a perder, como no caso de «bordo» (do frâncico bord), interior de navio ou avião, e «bordo» (do latim alburnu), árvore da família das Aceráceas. A brincar, costumo dizer que /bôrdo/ em relação a aviões só no caso do aeromodelismo, em que se usa essa madeira.

Transcrição da fala


Calma lá

«Na tentativa de dar um exemplo, Isaltino começa a explicar um negócio passado na década de 70, mas dá a entender uma fuga ao fisco. “O soutôr gosta de confessar crimes prescritos”, comenta o procurador» («Notas no bolso e crimes prescritos na mira do MP», Luís Galrão, Diário de Notícias, 28.03.2009, p. 12). Pode dar uma nota de graça ao texto fazer aquela transcrição da fala, mas é um caminho potencialmente perigoso. Imagine-se agora que o repórter tinha um ataque de fidelidade semelhante quando ouvisse, por exemplo, o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, com a sua pronunciadíssima pronúncia regional com todas as sibilantes a transformarem-se em chiantes.