10.5.11

Sobre «corruptela»

A besta do ortógrafo

      «— Também a bésta, no II Concílio de Latrão» (O Homem do Turbante Verde, Mário de Carvalho. Lisboa: Editorial Caminho, 2011, p. 44). E lá vem, fatal, a nota a «bésta», assinada por MdC (o autor gostou da novíssima abreviatura do Banco de Portugal). Até eu sou favorável a acentos diferenciais, mas não exageremos, ou podemos ir demasiado longe. «O leitor reparou que o autor escreveu “bésta”, com aposição dum acento agudo. Quando era mais jovem, por timidez, em Os Alferes, deixou que lhe corrigissem o acento (dessa vez grave) que tinha colocado em “pègada” (assim) e que era imprescindível para que o vocábulo não se confundisse à primeira leitura com “pegada”, do verbo “pegar”. Desta vez, o autor quis mesmo desfazer a homofonia e a homografia, demarcando as heranças de “balista” e de “bestia”. Se a ortografia se ressentiu, pior para ela, e para os ortógrafos.
      Os autores costumam ter algumas prerrogativas de invenção vocabular, desvio semântico e liberdade sintáctica. Não lhes está vedado, até, inventar sinais de pontuação, como fez Sterne e aqueloutro escritor, de que não me recordo agora o nome, que criou o ponto de indignação.
      Fica aqui proclamado, no pequeno território deste conto, o direito de o escritor escolher a sua própria acentuação, como aquelas bandeiras que as nações colocam nas ilhotas, antes que se afundem.
      À semelhança do que aconteceu logo a seguir a 1911, alguns autores fazem questão de manter a ortografia prévia ao acordo destes dias. Eu não exijo tanto, até mais ver. Quero é o acento em “bésta”.»

[Post 4767]



Sobre «corruptela»

De Torres Vedras a pulmonia


      «“Catrefada” vem de “catrefa”, que por sua vez é uma corruptela, ou seja, uma derivação da palavra “caterva”» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 10.05.2011).
      Corruptela, corruptela... Sim, «catrefa» é corruptela de «caterva», como «pulmonia», que se ouve um pouco por todo o País, é corruptela de «pneumonia». (E quando terá corruptela passado a designar a palavra que por abuso se escreve ou se pronuncia erradamente? Terá sido no século XIX?) Contudo, derivação aqui não designa o processo de formação de palavras, pelo que seria de evitar neste contexto linguístico. De resto, as corruptelas são assunto fascinante, e estão para a norma linguística como o organismo teratológico está para a conformação biológica normal. Mas há corruptelas e corruptelas, pois algumas nada têm que contrarie a norma num sentido sincrónico. Torres Vedras, por exemplo, é corruptela de Turres Veteres, expressão da baixa latinidade para Torres Velhas. E a Pontevedra dos Galegos (não é assim, Fernando?) era uma simples Ponte Velha. «Vedro», arcaísmo, foi adjectivo usado durante muito tempo na língua portuguesa.

[Post 4766]

Regência de «ajudar»

Qual coroinha

      «O LIP, Laboratório de Instrumentação e Física de Partículas, criado para ajudar à participação portuguesa no CERN, organização europeia de investigação nuclear, assinalou ontem, em Coimbra, os seus 25 anos» («LIP criado há 25 para relançar ciência», Diário de Notícias, 10.05.2011, p. 32).
      Ajuda-se à participação como se ajuda à missa? Duvido. O verbo «ajudar» tem dupla regência: ajudar a («ajudar alguém a» + infinitivo) e ajudar em («ajudar em alguma coisa»: «ajudar em» + substantivo).
      «Pouco e pouco, obtive que ella viesse á igreja de quatro em quatro semanas, e n’essas occasiões já ella sabia que o seu filho era o menino que me ajudava á missa» (Novelas do Minho, Vol. 1, Camilo Castelo Branco. Lisboa: A. M. Pereira, 1922, p. 112).

[Post 4765]


9.5.11

Léxico: «palangreiro»

No mar

      Como decerto saberão (ou pelo menos Miguel Esteves Cardoso e Rui Tavares saberão), a Comissão Europeia remeteu para aprovação no Parlamento Europeu o novo protocolo assinado ao abrigo do Acordo de Parceria de Pesca (FPA) entre a União Europeia (UE) e Cabo Verde, que deverá ser votado esta semana. Este acordo autoriza a pesca de navios europeus, entre eles portugueses, em águas territoriais cabo-verdianas: 28 atuneiros cercadores, 35 palangreiros de superfície e 11 atuneiros com cana. Quanto aos primeiros e aos últimos, creio que não há dúvidas — mas o que é um «palangreiro» e de onde veio o termo? Os dicionários gerais da língua portuguesa não o registam. A suspeita de que era vocábulo espanhol levou-me a consultar o DRAE: cá está: palangrero é o barco de pesca com palangre, que é o cordel comprido e grosso de que pendem de espaço a espaço uns cordéis mais finos com anzóis nas extremidades. O étimo do espanhol é o vocábulo catalão palangre: «Ormeig que consisteix essencialment en una corda llarga, anomenada mare, de la qual pengen unes altres cordes més primes, anomenades braçols, cadascuna de les quals va proveïda d'un ham al seu extrem lliure

[Post 4764]

«Fora-da-lei»

A desacautelada

      «Ora, perante o grande número de foras-da-lei que aterrorizavam a zona [Carolina do Sul] em determinada altura, a população deu ao juiz Lynch carta branca para passar aquela que ficou conhecida como a lei de Lynch e que consistia na execução imediata do réu, dado como culpado, sem possibilidade de apelo e como parte integrante da sentença, execução essa que era feita nas instalações do tribunal e à vista de todos. Como se imagina, a injustiça, pela sua crueldade, passar desapercebida e o juiz que a praticou, John Lynch, deu origem ao verbo “linchar” e à expressão “ser linchado”» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 9.05.2011).
      Fora-da-lei é invariável, como se pode ver em qualquer dicionário: um fora-da-lei, mil fora-da-lei. Quanto a «desapercebida», é erro muito comum e já aqui tratado mais de uma vez. «Homem desapercebido, meio combatido», diz o adágio.

[Post 4763]