Caro Francisco: em relação a suicidar-se não sinto nenhuma estranheza. E não há-de ser porque também é assim, pronominal reflexo, noutras línguas neolatinas, mas porque as línguas não têm lógica e, no caso do português, não faltam redundâncias e ilogismos. Agora, estava aqui a rever um texto em que se podia ler: «A maioria das mulheres que chegam ao centro não sabem ler nem escrever. Recebem aulas de alfabetização, higiene e culinária, e aprendem a montar a e gerir um negócio, como costura, fabrico de sabão, criação de gado, jardinagem…» A alfabetização não é a acção de alfabetizar, isto é, e no sentido mais lato, ensinar a ler e a escrever? Se aquelas mulheres, que não sabem ler nem escrever, chegam ao centro, seja lá onde for, poderão assistir a aulas de alfabetização? Não se destinarão estas aulas apenas a quem já está alfabetizado, porventura futuros professores? Estão a ver a contradição? Contudo, a expressão é muitíssimo comum.
[Post 3121]
Meu caro Helder,
ResponderEliminarPermita-me que discorde de si em dois pontos:
1º A minha dúvida em relação ao "suicidar-se" é apenas se estamos ou não (tal como os espanhóis, os franceses e os italianos, como muito bem diz) perante um pleonasmo.
2º Dizer "As línguas não têm lógica e, no caso do português, não faltam redundâncias e ilogismos" é, parece-me, uma contradição de termos. Onde não há lógica não há ilogismos. Ou não será assim? Aceitaria de bom grado a afirmação com um ligeiro matiz: As línguas nem sempre têm lógica. Ou: Nas línguas, nem tudo segue uma lógica.
Permita-me discordar: o que afirmo é que à língua, como um todo, não preside a lógica. Ora, esta asserção não invalida que tenha, no seu seio, aqui e ali, segmentos lógicos, como é óbvio. Assim, podemos dizer com certeza que não é lógica nem permitida a expressão *descer para cima. Quanto ao verbo suicidar-se, pretendi dizer que vejo nele um pleonasmo assumido pela língua como sistema e, logo, não sinto qualquer estranheza.
ResponderEliminarPermito-me discordar da sua discordância. Mal de nós se à língua não presidisse a lógica. Exemplos como "descer para cima" só confirmam que a lógica preside, e bem, à formação e evolução das línguas. Só a lógica impede que se diga "descer para cima". Caso contrário, era o vale-tudo. Já assim é o que se vê! Bato-me pela lógica da língua como base indispensável à sua funcionalidade. Os pleonasmos não são necessariamente ilógicos. São antes um (muitas vezes desnecessário, pelos vistos nem sempre) reforço da lógica da língua. Não concorda?
ResponderEliminarTalvez tenha razão.
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