12.5.11

«Pentelho/pintelho»

Só para poetas

      «[…] e os jornalistas, em vez de discutirem como é que, quais são as medidas no sistema de justiça, como é que vão reforçar o poder dos directores da escola, como é que vão reforçar o ensino técnico-profissional, que é, vai ser uma revolução no programa, etc., em vez de andarem a discutir as grandes questões que podem mudar Portugal, andam a discutir — passo a expressão — pintelhos» (Eduardo Catroga, Negócios da Semana, Sic Notícias, 11.05.2011).
      Anda mal citado por aí — foi mesmo «pintelhos» que o coordenador do programa eleitoral do PSD disse. Grande admiração, reticências. Deviam pensar que só poetas e romancistas podiam usar a palavra: Jorge de Sena, Casimiro de Brito, Augusto Abelaira. «Desço a mão, cuidadosamente, quase um a um, afasto-lhe com os dedos os pintelhos até encontrar a abertura do sexo» (Sem Tecto entre Ruínas, Augusto Abelaira. Lisboa: Livraria Bertrand, 1979, p. 65).
      É verdade que a variante mais comum é «pentelho», e mesmo a única registada nos dicionários, mas não é por isso que se deve citar mal. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista «cona» e «caralho», por exemplo, esqueceu-se de pentelho/pintelho.

 [Post 4772]

11.5.11

Ortografia: «Simiídeos»

Só isto

      Estou aqui a ler que certos animais «estão muito afastados dos simídeos e dos humanos». Não, não. Ao i do primeiro elemento junta-se o i do controverso (ver aqui) sufixo –ídeo. Logo, Simiídeos. Não temos menos de cem vocábulos, de uso científico, com estes dois ii. Acridiídeo... zifiídeo. Contem-nos e depois digam qualquer coisa.


[Post 4771]

«Miocénico»? «Mioceno»?

Sem nostalgias, mas...

      E a propósito de evolução. Tudo evolui. Dantes, ao que me parece, as eras, as épocas e os períodos geológicos eram sempre referidas pelos nomes Paleoceno, Eoceno, Oligoceno, Mioceno, Plioceno, etc. Agora parece que já não é assim. «Os primatas mais antigos, de pequeno porte, lémures e tarseiros, começaram a aparecer no Paleocénico, etc.» Acompanharão os dicionários esta mudança? Vejamos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o tal que está em todas as casas. «Paleocénico» não regista, por exemplo. E depois: «Eocénico  ⇒ Eoceno». «Cretácico ⇒ cretáceo». «Miocénico ⇒ Mioceno». Por enquanto, ainda com remissão.
      E esta «evolução» trouxe-me outra à mente: «mamaliano». Para distinguir adjectivo e substantivo, dizem os defensores.

[Post 4770]

«Idêntico/semelhante»

Passo

      «“Sabíamos que o Tarbossaurus adulto era muito idêntico ao T. rex”, explicou por seu turno o coordenador do estudo Takanobu Tsuihiji, do Museu Nacional da Natureza, em Tóquio» («Tiranossauros adultos não competiam com jovens», Filomena Naves, Diário de Notícias, 10.05.2011, p. 32). Takanobu Tsuihiji disse: «We knew that adult Tarbosaurus were a lot like T. rex
      Já aqui o perguntei uma vez: a identidade tem graus? Se temos o vocábulo «semelhante», porque havemos de usar sem propriedade o vocábulo «idêntico»? Alguém imagina Camilo a escrever assim? (Risos) Talvez José Régio (aventa um): «Não se teria mostrado simplesmente incompreensivo, orgulhoso, estreito, agindo por força dum preconceito muito idêntico a tantos que lhe repugnavam?» (As Raízes do Futuro, José Régio. Porto:  Brasília Editora, 1982, p. 151).

[Post 4769]

10.5.11

Etimologia de «fóssil»

Talvez fodere

      «O vocábulo fóssil deriva do termo latino fodere, “desenterrar”, via fossile, que significa “desenterrado”» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 22). Julgava lembrar-me que effodere (ou refodere) é que é, em latim, desenterrar; fodere é apenas escavar; infodere é, pelo contrário, enterrar. Seja como for, não queria deixar de partilhar o conhecimento desta etimologia.


[Post 4768]