8.1.09

Norma brasileira do português

Do acordo ao Havai

Num dos comentários mais soezes dos últimos tempos, obviamente apagado, que me deixaram aqui, o seu autor, obviamente anónimo, pretendia ter descoberto porque sou a favor (sou?) do Acordo Ortográfico de 1990: é que assim eu teria «aquilo com que se compra melões». É tão estúpido como afirmar que só os juízes que aplicam o novo Código do Trabalho poderão ter férias no Havai. Como se eu e os juízes não tivéssemos de aplicar o que está em vigência.
Agora que tenho em mãos uma revisão muito especial, lembrei-me de referir o episódio. Mais do que revisão: é a adaptação, da norma brasileira para a norma europeia do português, de uma obra sobre história. Vejo, contudo, que os editores, quando pretendem um trabalho semelhante, afirmam quase sempre, menorizando, que se trata de «adaptação ortográfica», quando, na verdade, esta é o que menos importa. São em muito maior número — e incomparavelmente mais importantes, decisivas mesmo — as adaptações lexicais. Sem esquecer as adaptações sintácticas. Lexicais, então. Digam-me só quantos leitores portugueses saberiam o que é: interiorano, trafegar, traquinagem, contábil, mutirão, borduna, cabano, blefe, na marra, grilar, picape, píer, trapiche, lastrear, malemolente… — quantos?

1 comentário:

Alberto Martinet disse...

Tem o professor toda a razão. A "adaptação ortográfica" é o de menos. As diferenças lexicais são tão numerosas e tão contundentes que nenhum acordo jamais dará conta de aparar-lhes as arestas.

O fato de estar escrito "actual" ou "atual" nunca fez perder o rumo a nenhum leitor de boa vontade. Bem que podiam ter deixado como estava, que não estava não mal assim. Ou então, que tirassem de vez todos os acentos, deixando só aqueles absolutamente indispensáveis para diferenciar homógrafas. Essa, sim, que teria sido uma boa e bela reforma. Definitiva.

Enfim, fica para o próximo acordo.

Cordialmente