4.12.09

Léxico: «eticista»

Recomendável

      Um leitor pede-me que dedique umas palavras à ética e escreve: «Interrogo-me muitas vezes porque não temos o antónimo do adjectivo. Por exemplo: “um certo comportamento de um médico é... ‘inético’, ‘desético’ ou ‘anético’”. É que dizer “antiético” (ou será “anti-ético”?) não me satisfaz em todos os contextos. Por outro lado, falta-nos (?) o termo para definir o especialista em Ética. Podemos chamar-lhe “eticista”? Não o encontro nos dicionários portugueses da Internet (Porto Editora e Priberam), nem nos em papel da Sociedade da Língua Portuguesa ou da Academia. Só o vejo no Houaiss em papel. É neologismo?»
      Comecemos pelo fim. Em dicionários gerais, também só encontro no Dicionário Houaiss (papel). No Dicionário Escolar de Filosofia, da Plátano Editora, é usado. Pode ler-se na entrada «Moral», da autoria de Desidério Murcho, professor de Filosofia na Universidade Federal de Ouro Preto: «Um moralista é alguém que defende ou condena certos costumes com base em tradições religiosas ou culturais; um eticista é um especialista em ética, que defende ou condena certas práticas com base numa argumentação filosófica.» É um neologismo, sim, tradução do vocábulo inglês «ethicist», preferível, a meu ver, a «especialista em ética». Na imprensa especializada, o termo é usado com alguma frequência: «No que respeita à eutanásia, o eticista [Prof. Rui Nunes, director do Serviço de Bioética e Ética Médica da Faculdade de Medicina do Porto] defende que é preciso abordar o tema “com clareza, transparência e determinação”, embora reconheça que é “um tema profundamente fracturante da nossa sociedade e de todas as democracias ocidentais”» («Questões médicas no fim da vida», Cláudia Azevedo, Notícias Médicas, 22.07.2009, p. 7).
      À semelhança de muitos outros vocábulos, não há um termo antónimo que não seja obtido por acrescentamento de um prefixo. Antiético será o que imediatamente nos ocorre, mas também podemos usar aético (que há quem, por razões fundadas na analogia, repute erróneo) ou anético. Ainda nos resta escrever «contra a ética» e, tão do gosto hodierno, «não ético».

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