8.5.11

Como se escreve nos jornais

A desorbitada

      «O arraso que os vários discursos presidenciais fizeram aos “políticos” e aos “partidos” pareceu-me também muito desadequado: todos eles foram e são políticos (sim, Eanes e Cavaco também).
      Além disso, não conheço democracias sem partidos. E, acima de tudo, penso que estas figuras de referência têm a obrigação de incentivar as novas gerações para a generosidade da política» («25 de Abril», Inês Pedrosa, Sol, 29.04.2011, p. 12).
      «Arraso» só pode ser linguagem de telenovela brasileira. A escritora não encontrou nada mais português. Sobre «desadequado», já aqui disse alguma coisa. E a regência do verbo incentivar é outra: incentivar a.

[Post 4760]

7 comentários:

R.A. disse...

Permita uma sugestão: as palavras com hiperligação aparecerem sublinhadas. Assim se torna mais evidente a possibilidade de saltar para outra página.

Quanto às palavras de Inês Pedrosa, também me parece impróprio usar a palavra "desadequado". Já na entrada de junho de 2008, relativa à notícia do DN («Lei do aborto desadequada do Código Deontológico»), que alternativa seria, para si, preferível, em "bom português?
Lei do aborto imprópria do Código Deontológico?
Lei do aborto inadequada ao Código Deontológico?
Lei do aborto contrária ao Código Deontológico?

[Note-se que em 2009 o Código Deontológico foi revisto.]

R.A. disse...

Será que, em vez de «têm a obrigação de incentivar as novas gerações para a generosidade da política», Inês Pedrosa queria dizer que «têm a obrigação de impulsionar as novas gerações para a generosidade da política»

Anónimo disse...

Sobre «desadequado», veja-se também no Ciberdúvidas a resposta de Carlos Rocha, que, ao invés de J. Neves Henriques, distingue matizes entre «desadequado» e «inadequado» em certos casos, e ele próprio acaba por empregar «desadequado» — na resposta «Sobrevivência “infantil” ou “das crianças”»: «... o plural “das crianças” não seria desadequado»; — e na resposta «O uso do verbo “firmar”»: «... pode parecer desadequado em alguns contextos...»
Parece-me que desadequado vingará, como vingou «invulgar», já tão correntio, apesar das condenações, e das recomendações de que se usasse «não vulgar», que é como Camilo escrevia.
— Montexto

Venâncio disse...

Helder,

Já não é só o Montexto a apelar para um «como me ensinaram». É (a propósito de «desadequado») você também. Que estranha adução de razões, em gente tão bem formada! Será nostalgia da perdida adolescência?

Devo dizer que nunca, até aqui, me dera conta de existirem tanto «inadequado» como «desadequado». Um e outro surgiam-me... quando adequados.

Importa, parece-me, alguma contenção no banimento duma forma. A filtragem das impróprias vai-se fazendo com bastante eficiência.

Venâncio disse...

P.S.

Não entendo o título «A desorbitada». Mas tendo a pensar que visa, sugestivamente, Inês Pedrosa. Se for este o caso, é basto infeliz.

Unknown disse...

Fernando,
Suponho que tem sempre que ver com quem nos ensinou e em que conta tínhamos essa pessoa. No caso, era, no respeitante à língua, alguém sábio. Nostalgia da pessoa, não da época em si. E esse ensinamento aliado ao que eu próprio observei levaram-me a preferir uma forma em detrimento da outra.
Escrever, sabe-o melhor do que eu, é escolher palavras. «Inadequado» e «desadequado» nunca me surgem como de uso indiferente.
Quanto a «desorbitada», Fernando, é só um título, e não me parece... inadequado. Desorbitar é o mesmo que exorbitar, que é o mesmo que desviar-se de uma norma — que foi, a meu ver, o que aconteceu. Repare que estão três aspectos em causa: arraso, desadequado e incentivar para. Longe de mim qualquer intenção ofensiva.

Venâncio disse...

Entendi, Helder.