14.7.06

Verbo faltar

Falta aprender as conjugações   

      «Faltam ainda recolher pistas, mas as fontes em Nova Deli ouvidas pelo diário indiano afirmaram que os atentados seguiram o modus operandi do LeT [Lashkar-e-Toiba, «Exército dos Puros», grupo islamita com base no Paquistão] em estreita colaboração com o SIMI, que cada vez tem mais influência no estado de Maharashtra, do qual Bombaim é a capital» («Atentados com impressões digitais do Lashkar-e-Toiba», Francisca Gorjão Henriques, Público, 12.07.2006, p. 3).
      Este é um dos erros mais comuns na conjugação verbal. Ora, o sujeito do verbo faltar, que é pessoal, é outro verbo, o verbo recolher, que está no infinitivo. O valor nominal do verbo no infinitivo exige assim que o verbo faltar esteja no singular. O valor nominal do infinitivo já vem do latim. Que digo eu? Já vem do grego. No latim, o infinitivo era um antigo substantivo que exprimia a noção verbal pura e simples. Contudo, à semelhança do grego, o latim tendia a fazer entrar o infinitivo na conjugação, dando-lhe tempos e vozes: lecturum esse, legisse, lecturum fuisse (irreal); lectum fore, lectum esse, legendum esse. Por vezes, como acontece em português, o infinitivo era mesmo substantivado, virtualidade que já vinha do grego, língua em que era muito comum graças ao uso do artigo. «Hic uereri perdidit» («Perdeu todo o sentido do respeito»), escreveu Plauto nas Bacchides, exemplo em que uereri está por uerecundiam. E mesmo os escritores da época imperial alargaram este uso do infinitivo substantivado: «Illud […] iucundum nihil agere» («Este agradável nada fazer»), escreveu Plínio, o Jovem, nas Epistolae.

1 comentário:

Quiron disse...

Água mole em pedra dura...
Admiro a sua persistência e tenho a certeza de que vai acabar por abrir um furinho na pedra.

A mim os erros de português incomodam-me mais quando redundam - como tantas vezes acontece - em vícios de pensamento ou no empobrecimento da expressão.

Falta ensinar gramática - da tradicional, da normativa, daquela que é uma propedêutica da arte de pensar. Mas - e convencer disto os peritos em pedagogia?!