27.2.11

Anglicismos

E cá?

      Na crónica de hoje de Ferreira Fernandes no Diário de Notícias, ficámos a saber que os Franceses foram aconselhados a referir o iPad e aparelhos semelhantes como «ardoise». 
      «O londrino The Times fez ontem um artigo à volta de uma fotomontagem. Descrevo-a: numa sala de aula, garotos de há meio século mostram as suas ardósias (para os leitores mais novos: uma pedra preta onde se escrevia com giz — escrevia-se e apagava-se, hoje chamar-se-ia um objecto sustentável). Mas há uma menina que em vez da lousa segura algo parecido: um iPad. A fotomontagem ilustrava este assunto: a Comissão de Terminologia e Neologismos [Commission générale de terminologie et de néologie], polícia francesa da língua, proíbe que os dez milhões de funcionários franceses chamem “iPad” àquela magia plana e fina, um computador do tamanho de uma ardósia, que permite navegar na Internet, ler livros e jornais (esta semana, o DN aderiu a essa maravilha). E o que propõe a tal comissão como nome para combater o termo anglófono? “Ardoise”, ardósia. Não está mal lembrado. Primeiro, pela certeira evocação antiga. Segundo, porque sugere um sentimento de gratidão para com a Apple (“ardoise”, em francês, também quer dizer dívida). Terceiro, porque a Apple chegou a pensar chamar iSlate ao seu invento (“slate”, em inglês é ardósia). E, sobretudo, quarto, porque nenhuma língua deve deixar-se apagar. Para o que americanos chamam IT (Information Technology) os franceses inventaram a palavra “informatique” e conseguiram exportá-la: nós (e os americanos!) adoptámo-la. Às vezes, um pouco de teimosia vence batalhas dadas por perdidas» («O regresso da ardósia perdida», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 27.02.2011, p. 68).
      Cá ninguém quer saber: não temos nenhuma entidade encarregada de velar pela língua e a apregoada defesa da língua são só palavras.
      (Na semana passada, vi uma tradução do inglês em que se tinha usado o vocábulo «pedra» para traduzir «slate», e, de facto, pedra também é lousa escolar, ardósia, mas é ambíguo.)


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10 comentários:

Bic Laranja disse...

Cá já nem palavras. Aipede é palavra?
Cumpts.

Paulo Araujo disse...

Placa, até por analogia com a placa-mãe dos computadores; mas corro o risco de estar propondo 'viande'; tablete, tabuleta ou tablita correm o mesmo risco. Malditos gauleses; sempre chegam na frente...

Anónimo disse...

Lembro-me de, nos anos noventa, a Academia Francesa se ter lembrado de afrancesar "CD". Qual a solução proposta? "Cé-Dé"! Claro que não pegou, tão absurdo era (relembro os mais distraídos que "CD" é a sigla de "Compact Disc"). Agora, no seu afã de proteger a sua dama das investidas dos invasores estrangeiros, vêm propor outro absurdo.

Primeiro, iPad é o nome de um modelo da marca Apple, de um dispositivo a que os ingleses chamam “tablet PC”, ou mais simplesmente, “tablet”. Faz tanto sentido tentar traduzir iPad como traduzir, por exemplo, Fiat Punto. Se queriam traduzir o termo geral pelo qual estes dispositivos são designados em Inglês, embora me pareça justificável, parece-me infeliz o termo “ardoise”. Uma analogia com as arcaicas ardósias que os nossos avós levavam debaixo do braço para a escola não podia estar mais longe da realidade de quem, hoje em dia, utiliza o iPad. Faz tanto sentido como chamar “ábaco” a um computador portátil.

Entre a selvajaria que por cá reina e a alienação dos académicos franceses, deve existir um meio-termo. A teimosia em afrancesar tudo por decreto é ainda mais descabida quando o francês comum utiliza termos como “weekend”, “business”, “chewing gum”, “news”, etc., a torto e a direito. Podem ter sucesso em algumas ocasiões, como “informatique”, mas com fundamentalismos e propostas apressadas e sem nexo apenas conseguirão que muitos falantes não lhes liguem nenhuma. Quer gostemos, quer não, a língua é, em boa parte, feita por quem a fala e não por decretos de académicos.

Portugal bem precisava de algo para acabar com a parolice dos anglicismos desnecessários, mas não desejaria uma versão portuguesa da Comissão de Terminologia e Neologismos francesa. Tenho uma opinião clara sobre este assunto: se queremos que a língua portuguesa seja respeitada e acarinhada, é na escola que o amor à língua bem escrita e bem falada deve começar. Tardaria gerações, mas chegaríamos lá. No entanto, o que vejo é o contrário. Mas de responsáveis políticos que preferem falar “bad English” e “Portuñol” em vez da sua língua, não se pode esperar nada. E o reparo não é só para o actual PM. Infelizmente, não é o único.

Anónimo disse...

Não há muito que me referia aqui a uma entidade qualquer que se fosse antecipando e evitando ou minorando o desconchavo consumado, e propondo ou sugerindo soluções. Mas é como dizem os outros: eles falam, falam... mas realmente não se interessam. E no entanto servimo-nos da sexta ou sétima língua mais falada do mundo (dizem), e é assim que a servimos... Nem vou continuar a desenvolver o tema porque tamanha abdicação faz-me mal à saúde...
— Montexto

Jorge disse...

Por falar em anglicismos... franceses com maiúscula? Então, pá? Ou, em brasilês, "oi?"

Helder Guégués disse...

É e continuará a ser assim. Ainda não tinha reparado, imagino...

Jorge disse...

Não, de facto não é. "Franceses" não é nem antropónimo nem topónimo nem nome de ser antropomorfizado ou mitológico nem nome de instituição nem está em nenhum dos outros casos em que se deve usar a maiúscula inicial. Segundo o texto do AO'90. E segundo a prática esmagadoramente maioritária anterior ao AO'90, apesar do acordo de 45 prever usar-se maiúscula para "nomes étnicos de qualquer natureza". Este uso veio sendo abandonado (e a meu ver muito bem; por que raio se há de escrever "os Portugueses" e não "os Canalizadores"?) a partir aí dos anos 70 ou 80 e com o acordo de 90 caiu de vez.

Helder Guégués disse...

Julgará que é irrespondível a sua argumentação — mas de facto não é. Vamos por partes. Este blogue ainda não aderiu às novas regras ortográficas, e, como muito bem afirmou, segundo o Acordo Ortográfico de 1945, os gentílicos, num sentido geral, grafam-se com maiúscula inicial. Nenhuma reforma ortográfica veio derrogar esta regra. Logo, continuo a escrever em conformidade com ela. Quanto ao Acordo Ortográfico de 1990, não diz nada sobre o caso em espécie, pelo que teríamos de concluir (e podemos rir antes ou depois) que não se grafam nem com maiúscula nem com minúscula. Sabe qual a solução? Já aqui expus a minha solução.

Jorge disse...

OK, a primeira parte é legítima, por aí arrumo as botas.

A segunda, contudo, não é. Porque aqui não temos um daqueles casos em que a regra vem acompanhada de situações em que muda e situações em que não muda. As sequências consonantais, patati, caem na situação tal e mantêm-se na situação coiso, podendo cair ou manter-se na situação x, y, z, patata. Nestes casos, sim, quando aparece alguma situação que não corresponde a nenhuma das descritas temos um dos tais casos omissos em que, na prática, a situação anterior não muda (ou então tem de se ir ver aos vocabulários ortográficos se muda ou não, que é também para isso que eles servem).

Mas aqui não. Aqui temos uma alínea que diz que se usa minúscula "ordinariamente, em todos os vocábulos da língua nos usos correntes." Isto é o mesmo que dizer que em todos os casos em que não está previsto o uso de maiúscula deve usar-se minúscula. Nem seriam necessárias as restantes alíneas desse ponto (que só lá estão, na realidade, para não dar lugar a dúvidas a respeito de algumas mudanças). E os nomes étnicos não constam. Logo, minúscula com eles.

Há coisas no AO'90 que teriam beneficiado de mais cuidado e atenção, mas esta não é uma delas.

Anónimo disse...

Nisto o tal coiso, o acordo, é sinal dos tempos, cada vez mais minúsculos. Quem se há-de dar bem com ele é o valter hugo mãe.
— Montexto