10.3.11

«Crer/querer»

Não quero crer

      No laboratório, de novo. «Os partidos com assento parlamentar criam queriam apresentar soluções pró-populares.» «Muitos alunos», defendeu a professora, «cometem este erro, talvez por serem palavras como que parónimas.» «Como que»? Então não há uma categoria específica em que encaixá-las? São muito mais, a avaliar pelo que vejo, os que consideram este mesmo par, crer/querer, como palavras parónimas do que aqueles que as dizem  homófonas. Eu aprendi que, se a pronúncia não for contrafeita, forçada, antinatural, são palavras homófonas. Não faltam, porém, manuais escolares, como este, que ensinam que são parónimas. Crer e querer têm grafia semelhante? Tem a palavra o leitor.

[Post 4546]


19 comentários:

Anónimo disse...

Eu também diria que são homófonas. A semelhança na grafia não é assim tão pronunciada. A pronúncia, essa sim, é muito semelhante.
RS

Venâncio disse...

É verdade: «crer» e «querer» são, em Portugal, homófonos. Tal como «crido» e «querido». Mas, logo que entra em cena a mínima formalidade, começa a soar o shwa das segundas formas. É pois, parece-me, uma homofonia algo precária.

Venâncio disse...

Mas também soam shwas inesperados. Querédo!

Anónimo disse...

E eu que são parónimos. Talvez um engano meu de alma, ledo e cego...
Mas traz-me à memória um passo dos comentários do divino Júlio, clássico entre todos — «Facile credimus quod volumus» (cit. de mem.), — que, ao lê-lo, me fez devanear sobre como se poderia tirar em linguagem. De várias maneiras. Uma seria: «Cremos facilmente no que queremos»; ou, ainda mais cerrado, para acentuar a paronomásia (ah!): «Facilmente cremos no que queremos.»
— Montexto

Bic Laranja disse...

Na cantiga "A Casa" de Rodrigo Leão ouvide a Adriana Calcanhotto entoando qu'ria meia à portuguesa:
... há tanto tempo que eu qu'ria mudar,
qu'ria voltar
.
Será carioca?
Cumpts.

Anónimo disse...

"Ouvide"!!!
Onde "ouvísteis" tal, senhor?

Anónimo disse...

Eu não tenho procuração do caro Bic, mas nem sequer é preciso estar muito atento para a ouvir a gente do bom povo, e a ler em autores da craveira de Herculano (folhear Lendas e Narrativas), atribuída a populares. Frequentassem os novíssimos os autores do cânone, e já não se espantariam tanto e tão amiúde...
— Montexto

C. Kupo disse...

"Ouvide" não é forma "arcaica" para o imperativo da 2ª pessoal do plural do verbo "ouvir", atualmente "ouvi"?
E é de fato arcaica, ou ainda há por cantos de Portugal quem a empregue naturalmente, na fala?

C. Kupo disse...

Caro Bic, posso dizer-lhe que a pronúncia "qu'ria" aí na música nada tem de carioquês; é antes uma simples necessidade métrica.

Bic Laranja disse...

«Ouvide, ouvide!» - bradaram alguns que pareciam maioraes daquella multidão desordenada.
A. Herculano, Lendas e Narrativas, 13ª ed., T.1, 13ª ed., Aillaud e Bertrand/Francisco Alves, Paris, Lisboa, Rio de Janeiro, 1918, p.60.

Bic Laranja disse...

Métrica portuguesa, arrisco. O compositor é português.
Cumpts.

Bic Laranja disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bic Laranja disse...

Vem dous compradores, hum per nome Vicente, e outro Matheus, e diz Matheus a Justina.

Matheus.
Vós rosa do amarello,
Mana, tendes hi queijadas?
Justina
Tenho vosso avô marmello;
Conhecei-lo?
Mat.
Aqui estão emborilhadas.
Jus.
Estade ma ora quedo,
Pela vossa negra vida.
Mat.
Menina, não hajais medo:
Vós sois mais engrandecida
Que Branca de Figueiredo.

Se trazeis ovos, meus olhos,
Não m'os vendais a ninguém.
Jus. Andar em burra e ter bem;
Ouvide ora ó rasca-piolhos
(Azeite no micho!) em que vem!
Vicente
Minha vida, Leonarda:
Traz caça para vender?
Leonarda
Vossa vida negra e parda
Não lhe abastará comer
Da vacca com da mostarda?
[...]

Gil Vicente Auto da Feira.

Anónimo disse...

Ora aí está, caro Bic, ora aí está. Tudo está nos clássicos, senão a inscícia linguística, tão mimosa e mimada dos novíssimos.
— Montexto

Bic Laranja disse...

Muito grato pelas achegas. Cumpts.
:)

R.A. disse...

Ah! Oh!
Não quero crer... nem quero querer!
Estais dizendo que "ouvide" é tempo de verbo aceitável, HOJE?!
Oh! Ah!
Nem creio que credes no que dizeis!

Bic Laranja disse...

Nem "ouvi" é tempo aceitável hoje. "Oição" é que sim.
Cumpts.

Bic Laranja disse...

... termo... digo.

Eduardo disse...

Será certamente erro meu, mas isto das palavras parónimas não me entra na cachimónia.

Bem me esforço por compreender a coerência do conceito, mas confesso a minha incapacidade.

Quem sabe, um dia chego lá.