29.3.11

Elipse de «com»

Não se fala mais nisso

      Não há semana em que não veja um original inglês em que aparece uma frase com a estrutura destoutra: «[…] Ethan said, his chin set sharp as an arrowhead.» Tradução invariavelmente encontrável: «[…] disse Ethan, o queixo esticado como a ponta de uma seta.» Cheguei a focar e a increpar aqui esta via única de verter para português esta sintaxe. Aliás, honestamente, até a reputei errada. Estava enganado, mas fiz bem em mostrar aos tradutores que podem e devem variar. Ora cá está o bom Vasco a pontificar (zurzindo, de caminho, o autor da Estilística da Língua Portuguesa): «Têm-se criticado redacções como esta assim — “ela..., os olhos na mãe postos...”. Há quem julgue só correcto — ela..., com os olhos na mãe postos.
      Mostrei, com exemplos clássicos, no referido Dicionário, que a omissão de com anda abonada pelos melhores autores, e não pode considerar-se “viciosa”» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 421).

[Post 4629]


7 comentários:

C. Kupo disse...

Olavo Bilac usava muitíssimo disso.

Paulo Araujo disse...

Sim, caro Kupo, mas como você bem sabe o Poeta (com P maiúsculo) é um escravo da métrica. Temos no próprio Bilac 'com' e 'como' bem pertos nestes versos:
"E, torturado e só, sobre o penhasco a pique,/
Com os olhos febris furando a escuridão,/
Queda como um fantasma o Infante Dom Henrique..."
Ficaria até mais poético dispensar o 'com' e o 'como', mas a métrica exigiu-os.

Anónimo disse...

1
Exactamente. Aqui é uma questão de medida, mas também de perspicuidade e estilo: como noutros casos, censurável é o abuso, por redundar em galicismo, não o uso.
Na lição de Mário Barreto, que dedicou o capítulo XLI de Através do Dic. e da Gram., Rio de Janeiro, 1986, às «Frases que costumam explicar-se subentendendo-se a preposição»: «Numa língua como a nossa, de transposição livre e senhoril, e que não anda a chouto, o chouto regular do sujeito, verbo e atributo gaulês [a tal ordem directa], a supressão da preposição pode lançar algumas vezes obscuridade sobre o complemento indirecto, confundindo-se com o sujeito, e é para evadir tal perigo que de ordinário se exprime em português a preposição subentendida em correcto francês: “Il mourut faute de secours”, morreu por falta de socorro; “elle s’est retournée, la bouche ouverte”, voltou-se, “de” boca aberta; “un instant après, il tombait, le bras droit fracasse”, momentos depois caía ferido “com” o braço direito fracturado; “le marquis se tenait immobile les yeux baissés”, o marquês mantinha-se imóbil, “com” os olhos baixos; “elle écoutai la respiration régulière du malade qui reposait, les yeux fermés”, escutava a respiração regular do doente, que descansava, “de” olhos fechados; “elle courut vers lui, les yeus brillants, sa bouche et ses joues éclairées du plus joyeux sourire”, correu para ele, “de” olhos brilhantes, “com” as faces e os lábios iluminados pelo mais jubiloso sorriso; “il passait, le front baissé, les yeus pleins de larmes”, ele passava “de” fronte baixa, “com” os olhos cheios de lágrimas; “Suzy l’écoutait le coeur battant”, Susana escutava-o “com” o coração palpitante”.»
Cont.
— Montexto

Anónimo disse...

2
«No tocante a preposições, é o uso que decide geralmente. Ofereço os seguintes exemplos: “Quem saiu, em 1904, “armas em punho”, às ruas da Capital, com a bandeira da insurreição desfraldada contra o Chefe de Estado, sob a administração Rodrigues Alves?” (Rui Barbosa, “Discurso proferido no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, a 3 de Outubro de 1909). — “Enquanto o Pêro Safio canta os últimos versos, Bernardim Ribeiro embuçado na capa, “o chapéu sobre os olhos”, aparece com Paula Vicente no patim da escadaria à esquerda.” (Garrett, “Um Auto de Gil Vicente”, act. I, sc. II). — “As duas mães estavam já debruçadas da janela aberta, “as mãos” dadas, “o seio” arquejante, “o coração” afogado, “os olhos” nas trevas, “o pensamento” para o céu!” (Mendes Leal, “Os Mosqueteiros de África”, cap. X, p. 159). — “… e entra Mariquinhas, correndo cheia de júbilo, “a boca” cheia de riso; “os olhos” cheios de ventura”. (Pinheiro Chagas, “ A Morgadinha de Valflor”, act. IV, sc. III, p. 170). — “logo a infanta foi ao seu encontro, e todos quantos legitimistas ali eram presentes permaneceram em pé, “fronte inclinada.” (Alberto Pimentel, “Terra Prometida”, p. 8).
“A aquelas duvidosas gentes disse,
Com palavras mais duras que elegantes,
‘A mão na espada’, irado e não facundo,
Ameaçando a terra, o mar e o mundo:…
(Lus., IV, 14).
“Sofrer aqui não pode o Gama mais,
De ledo em ver que a terra se conhece,
‘Os geolhos no chão, as mãos ao céu’,
A mercê grande a Deus agradeceu.”
(Lus., VI, 93).
[Os enfastiados dos cacófatos aguentem o «Gama mais»: o Épico não lhe torceu o nariz…]
Os seguintes versos são dos “Nocturnos”, precioso escrínio das mais belas jóias de um dos maiores poetas que honraram as letras portuguesas no último período do século XIX — Gonçalves Crespo, um “ourives”, como se diz dos que pulem e contornam o verso, como cinzelava Cellini a prata e o oiro:
“E vi descer do quadro a lânguida açafata
Que, ao discreto palor das lâmpadas de prata,
A fímbria alevantando azul do seu vestido,
‘O rosto acerejado, o gesto comovido’,
A sorrir, deslizou graciosa no tapete,
Dançando airosamente o airoso minuete…”»
Cont.
— Montexto

Anónimo disse...

3
«Se o não sabe ainda, ficará sabendo o leitor que não só em francês, senão também na nossa língua, podemos subentender a preposição “com”, contanto que daí se não causem anfibologias: “Fui dar com ele estendido no soalho, ‘o rosto’ num charco de sangue”, e que se nota ainda a omissão da preposição (“de”) noutros exemplos como estes: “D. Rosa da Silveira tinha vinte e um anos. Era alta, morena, ‘olhos’ grandes e pretos, ‘testa’ espaçosa, ‘nariz’ aquilino, ‘boca’ larga, ‘beiços’ quase austríacos, …” (António Augusto Teixeira de Vasconcelos, “O Prato de Arroz Doce”, p. 13, ed. do Porto, 1862). — “Luís pedia a primeira, que era morena, ‘olhos’ negros e vivos, alta e nervosa, altiva e risonha. Carlos pedia a segunda, que era alva, ‘olhos’ cismadores e estáticos, ‘compleição’ linfática, ‘estatura’ mediana, ‘ar’ melancólico e pudico, um certo quebranto que a poetas daria mais inspirações que a outra.” (Camilo, O Retrato de Ricardina, cap. I, p. 12).
*
Mas, com tanto bárbaro tão precisado da bordoada do discreto e homem de bem, e os nossos Botelho de Amaral e Rodrigues Lapa a escaramuçar entre si! Corta o coração, tanto golpe desviado do verdadeiro alvo. Por alguma coisa porém ficou proverbial aquilo de «grammatici certant…», e nem só os poetas são gente irritável (e, nas suas alturas, irritante).
— Montexto

Venâncio disse...

«Ela..., com os olhos na mãe postos», melhor, «Ela..., os olhos na mãe postos», melhor ainda, «Ela..., olhos na mãe postos».

Esta língua é o nosso orgulho.

Anónimo disse...

Sem dúvida. E onde a criatura foi maior que o criador.
— Montexto