12.4.11

URL e ponto final

De Nuiorca a Bosta

      Lembram-se de ter aqui perguntado porque é que Miguel Esteves Cardoso, à semelhança de muitos outros, não tinha posto ponto final depois de um URL que encerrava frase? Pois bem, homem inteligente, agora já sabe, e na crónica de hoje, quase toda à volta da proverbial ineptidão dos Espanhóis para as línguas estrangeiras, pode ler-se isto: «A prova que1 não há em Espanha quem leia a Nuiorca2 é que hoje, segunda, sete dias depois, o site da Rail Europe ainda não corrigiu a indesejada alusão ao Santo Ofício. É provável que nem sequer leia o PÚBLICO e que hoje até possa apanhar a espectacularmente insensível tradução aqui: http://bit.ly/ihj6X9.» («Um pouco de Inquisição», Miguel Esteves Cardoso, Público, 12.04.2010, p. 35). Leio o Público em PDF, e facilmente segui a hiperligação. Mas ainda na semana passada, numas provas, o paginador, em relação à minha emenda para que se pusesse o ponto final numa frase que acabava com um URL, deixou a nota marginal peremptória3: «Não funciona.» Não funciona? Em papel?


[Post 4680]

      1 Mas não se exige aqui a preposição? «O primeiro foral de Melgaço de 1181 mostra-nos evidentemente que era concedido a uma povoação de jugadeiros, e, posto que o de 1258 pertença ao typo de Salamanca, a prova de que a villa ficou sendo um gremio de peões está nas disposições que o restringem ou modificam» (História de Portugal, tomo quarto, Alexandre Herculano. Lisboa: em casa da viúva Bertrand e Filhos, 1853, p. 168).

      2 Suponho que Miguel Esteves Cardoso esteja aqui a usar o nome aportuguesado de New York (que faz parte do título da publicação) no discurso do emigrante nos EUA, como se lê na obra de Eduardo Mayone Dias Falares Emigreses: Uma Abordagem ao Seu Estudo (Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1989, p. 61). New York é Nuiorca; Providence é Providência; Newark é Nuarca; Boston é Bosta; Rhode Island é Roda Além; Pawtucket é Pataca...

      3 Que, na nova ortografia, será «perentória». A propósito, ainda hoje recebi uma mensagem de correio electrónico, que circula sobretudo entre professores, em que se dizia que está a decorrer uma iniciativa legislativa de cidadãos para impedir que o Acordo Ortográfico de 1990 seja aplicado. Ei-la aqui.

7 comentários:

Anónimo disse...

Quanto às línguas estrangeiras, e mormente à correcção na respectiva prosódia, qualquer povo saudável se está nas tintas para elas, a começar pelos próprios bifes, honra lhes seja. Há umas observações interessantes de Ramalho Ortigão e Ortega y Gasset sobre essa deficiência inglesa, cujo lugar não indico porque não lhes tenho agora as obras à mão (mas a de Ortega encontra-se de certeza numa das notas de Una interpretación de la Historia Universal. En torno a Toynbee).
A nós, gente fina e sobredotada, é que nos estava reservado, como aos apóstolos, o dom das línguas, de que não nos cansamos de dar provas. Por exemplo, ainda hoje o novíssimo Henrique Raposo no blogue «Clube das Repúblicas Mortas»: «Este congresso passou completamente ao lado desta realidade inescapável. O denial é a marca deste PS. Este partido precisa de ir não à bruxa, mas à psicóloga.»
*
Quanto ao uso de «que» ou «de que» ou «em que», remeto para os meus comentários neste blogue em:
• 24.11.2010, «Regência do verbo “acreditar”»;
• 23.01.2011, «Léxico: “bipé”»;
• 02.12.2010, não me lembra em qual tópico, porque continua a não se conseguir aceder de modo seguido aos primeiros textos de alguns meses.
— Montexto

Anónimo disse...

P.S. — Eu escreveria «A prova de que não há em Espanha quem leia...», porque uma prova é uma prova «de» alguma coisa, e portanto a «prova «dessa» coisa. Mas nos textos mais refinadamente apurados, como a Arte de Furtar, não faltam exemplos sem «de». Entendo porém que nestes casos mais se ganha, mormente em clareza, declarando a partícula do que calando-a.
— Mont.

Anónimo disse...

Penso que MEC se refere, neste caso, à revista "The New Yorker" e não à cidade de Nova Iorque.

Paulo Araujo disse...

Esse AO está ensejando uma 'guerra santa' antibrasileira; também somos vítimas, não tanto na grafia, mas nas pronúncias estranhas que acabarão por surgir: fre/kên/cia, elo/ken/te, etc. O que se deveria exigir é que os doutos defensores da língua, nos dois hemisférios, unificassem, de fato, a ortografia, de modo a que 'peremptório' e 'perentório' tivessem uma só escrita. Qual? Não é minha alçada, eles saberão encontrar uma solução, pois estudaram o assunto por mais de uma década.

C. Kupo disse...

Se no Brasil se pronuncia claramente o segundo "p" de "peremptório", a grafia sem ele estaria fora de cogitação.

Bic Laranja disse...

Homessa! Não sabia da I.L.C.?!
Já leva mais de um ano. Porque será...?

Bic Laranja disse...

Sobre a I.L.C. ver com mais sumo aqui....
Não deixar de assinar (se aplicável).

@ Paulo Araújo
Não conte conte que «eles saberão encontrar uma solução». Fato (leia terno s.f.f.) e facto não se unem em Português, nem com uma camisa de forças.

@ Kupo
Ora aqui está uma cedência unificadora que eu faço peremptoriamente ao Brasil num acordo decente. Olha! Já fiz. No de 45.

Cumpts.