11.2.09

Sobre o uso de «respectivamente»


Sem relações

O leitor N. G. L. escreveu-me: «Encontrei a seguinte frase num pacote de açúcar: “Os três principais países produtores de café são o Brasil, Vietname e Colômbia, respectivamente.” A minha questão é a seguinte: “respectivamente” é correctamente usado nessa frase, ou é uma palavra obsoleta? Se a frase fosse “Os três principais países produtores de café são o Brasil, Vietname e Colômbia, respectivamente primeiro, segundo e terceiro maiores produtores”, o respectivamente seria já essencial, não? Coloco esta questão por me ter sido dito que, por exemplo, em termos judiciais, essa frase faz todo o sentido. Disseram-me que “respectivamente” coloca o Brasil como primeiro produtor, o Vietname como o segundo e a Colômbia como o terceiro. O que me parece é que “respectivamente” é um elemento de ligação entre elementos da frase, e que, utilizado assim isoladamente, perde todo o significado. Tenho razão?»
O leitor tem razão. Mas atenção: «respectivamente» não é uma palavra obsoleta, como afirma, mas uma palavra inadequada no contexto. De facto, «respectivamente» significa «cada um a cada um» e «na devida ordem», e esta ordem é impossível de estabelecer na frase, por falta de elementos. É relativamente comum o uso desnecessário e inadequado deste advérbio. Se a frase fizesse parte de um diploma legal, as considerações não seriam diferentes destas.

3 comentários:

Antonio Martinet disse...

Olá Professor,

O pacotinho de açúcar que aparece na foto traz uma expressão que me pareceu estranha. Diz: "Todo o ser humano tem direito (...)"

Soou-me bizarra. Acho que havia de estar escrito "Todo ser humano tem direito (...)" ou ainda "Todos os seres humanos têm direito (...)". Do jeito que está, dá a ideia de que a integralidade de cada ser humano tem tal direito.

Que acha o professor?

Cordialmente

Helder Guégués disse...

Caro Antonio Martinet
Soará estranho, admito, a um brasileiro, mas não a nós, que não interpretamos a frase da mesma maneira. Nestas circunstâncias, não omitimos o artigo.
Cordialmente,
Helder Guégués

Anónimo disse...

Na linguagem jurídica, o advérbio só se usa seguindo a regra indicada por H. Guégués, aliás, pressuposta pelo leitor que pediu o esclarecimento.

MFCR