24.4.09

Verbos reflexos

Treino sem me ajoelhar

«— Ela pediu ensopado de mexilhões de Nova Inglaterra — disse-me, enquanto eu ajoelhava ao seu lado, ainda de sobretudo e a segurar-lhe a mão — e eu pedi de Manhattan» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 32). É verdade que M. Said Ali, na Grammatica historica da lingua portugueza (São Paulo: Melhoramentos. 2.ª ed., 1931, pp. 201-2), escreve que «verbos desta espécie [os que se referem a actos materiais, em geral movimentos, que o sujeito executa iguais aos que executa em coisas ou noutras pessoas] na sua própria pessoa dispensam por vezes o pronome, como mudar ou mudar-se (para outro lugar), ajoelhar ou ajoelhar-se», eu é que não me convenço nem ninguém me persuade. Mas a tradução da obra de Roth usa o nefando treinar-se: «Pela primeira vez em alguns meses, parecia bem-disposta e confiante e é muito possível que tenha saído naquela tarde na esperança de começar a treinar-se para a nossa volta estival» (p. 31).

2 comentários:

Catarina disse...

... sim, porque se ajoelhou...

(desculpe, mas não resisti...)

Pedro Bingre disse...

Ainda a propósito da liberdade nas grafias onomásticas (a qual me parece ser defendida pelo autor deste blogue), leio o nome de uma das tradutoras do trabalho em apreço — Eulália Pyrrait — pergunto-me se terá algum grau de parentesco com uma personagem real da narrativa "In Illo Tempore", de Trindade Coelho:

"Ele não se zangava que lhe chamassem Pássaro e até gostava: e como alcunha que se ponha em Coimbra pega como se fosse visgo (...)
ninguém lhe chamava de outra maneira: «Ó Pássaro, isto!», «Ó Pássaro, aquilo!»
A pontos que o rapaz adicionou a alcunha ao apelido, como fizeram outros (o Pirré, por exemplo, a quem chamavam assim por ser pequenino e que passou depois a assinar-se Pirrait); e, não contente em adicionar a alcunha ao apelido, arranjou não sei que firma ao lado do nome, que era um
pássaro de asas abertas – a levantar voo!"

Não sei se Pyrrait é uma grafia aristocrática de Pirrait ou Pyrrait; nem se um Melo se torna mais nobre ao assinar Mello; ou um Tomás, Thomaz; ou um Mota, Motta; um Teles, Telles; um Sousa, Souza; um Carneiro, Carneyro, um Sotomaior, Sotto Mayor, ou — caso extremo — um Central, Lencart, &c. Parece-me, no entanto, que a liberdade de cada um modificar a sua onomástica como quiser nenhum melhoramento substantivo traz a si próprio, porém confunde a todos os demais.