24.5.10

«Fase de negação»

Mataram a cronologia!


      «— Ainda me lembrei de te desafiar, mas estavas na fase da negação — ironizou Brites. — Além de que a polícia corria connosco ou prendia-nos» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 167).
      Mais um romance histórico, mais um anacronismo. Que é isto de «fase da negação»? A psiquiatra de origem suíça Elisabeth Kübler-Ross (1926–2004) definiu cinco fases pelas quais os indivíduos passam após qualquer perda pessoal, como a aproximação da própria morte, morte de um ente querido ou mesmo divórcio. Uma dessas fases é a fase de negação. Vejam: a psiquiatra estabeleceu esta teoria em 1969 e o diálogo passa-se no início de 1919, um mês e uma semana depois do homicídio do Presidente-Rei (1872―1918). Só sete anos depois do diálogo ficcionado nasceria a autora, e apenas meio século depois estabeleceria a teoria. O nosso Geraldino Brites, chefe do Serviço de Tanatologia da Morgue de Lisboa, podia ser excepcional, mas não era, mesmo atenuado, um Rasputine. No blogue da editora pode ler-se que Moita Flores é «considerado um dos mestres da técnica de diálogo», mas mestria é não pôr diálogos inverosímeis (rebuscadamente inverosímeis, admito) na boca das personagens, e isso não acontece nesta fala.

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