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23.4.11

«Houve»/«ouve»


O fim do mundo

      «O papagaio bate as asas e empertiga o seu peito, o Ruca ri quando o houve falar.» Confundir houve com ouve? Se tivermos 7 anos, não me parece grave. Já me parece é o cúmulo da desvergonha e da torpeza que uma empresa como os CTT continue a vender aos seus balcões uns livrinhos do Ruca com seis selos e erros deste jaez. É o contributo da empresa para a defesa da língua portuguesa. E os jornais, que anunciaram a colecção, calam-se.

[Post 4716]


9.4.11

Como se fala na rádio

Precipitar-se no abismo

      Numa composição, uma aluna escreveu que as colegas «aficçaram um cartaz com os trabalhos do Carnaval». Uma colega declarou todos os rapazes «maliducados». Jornalistas em embrião. Mas vamos ao que interessa.
      «[…] e reza a lenda que terá sido erguida sobre as ruínas de uma outra, de uma pequena ermida dedicada a uma imagem de Nossa Senhora que terá misteriosamente aparecido no promontório do cabo Espichel, isto, claro está, há muitos, muitos anos atrás. […] Pouco depois, um clarão de enormes proporções, uma luz intensíssima iluminou toda a costa, vinha do alto de um promontório, e graças a ela o navio viu com clareza a costa, conseguiu evitar despenhar-se nas rochas e chegar a bom porto» (Mafalda Lopes da Costa, Histórias Assim Mesmo, 8.04.2011).
      Sobre «uma outra» e «há anos atrás» já adverti várias vezes. Um navio pode despenhar-se nas rochas? Despenhar-se não é precipitar-se, cair de grande altura? Só se fosse uma lancha voadora! Junto à costa há bons despenhadeiros, sim, mas para quem está em terra.



[Post 4670]


(A propósito: actualizei a hiperligação aqui ao lado para os dicionários de Bluteau e de Morais, verdadeiros monumentos da língua portuguesa.)  

7.4.11

Graus Celsius

O calor à noite

      «Anteontem e ontem, por volta da meia-noite em Lisboa, ainda a derrota do Benfica na Luz arrefecia e escurecia mais do que até os mais calorosos e iluminados tinham previsto, estavam duas dezenas de graus centígrados» («O calor de noite», Miguel Esteves Cardoso, Público, 7.04.2010, p. 39).
      Miguel Esteves Cardoso nasceu alguns anos depois da Conferência Geral de Pesos e Medidas de 1948, que aboliu a designação «graus centígrados», pelo que não tem nenhuma desculpa para escrever «graus centígrados» (excepto, naturalmente, não ter tido professores que lho tivessem ensinado). Como não há, nem nunca terá havido, ninguém que tenha escrito tanto e tão bem sobre o tempo (na dupla acepção, distinguida — e nós com inveja (ou não, porque nos damos bem com a ambiguidade) — pelos bifes com os vocábulos time e weather), seria muito bom que contribuísse para a abolição de facto da designação «centígrado».

[Post 4664]

5.4.11

Invencionice lexical

Não precisamos!

      Como temos andado por aqui a comentar escritas herméticas de académicos e palavras inventadas (e algumas desnecessárias), fica bem citar um excerto da crónica de hoje de Vital Moreira no Público: «Por isso, só uma assumida norma de equilíbrio, contenção e self-restraint é que pode resguardar o Presidente da República de suscetivismos reativos ou de excessos emocionais nos seus juízos políticos. Por definição, o “poder moderador” tem de primar pela moderação. O mote da “magistratura ativa” que Cavaco Silva escolheu para este seu segundo mandato não pode subverter o perfil presidencial que a letra da Constituição e a prática constitucional de décadas consolidaram. Cavaco Silva devia escolher outros meios para se destacar na nossa história constitucional» («O poder moderador», Vital Moreira, Público, 5.04.2010, p. 37).
      «Susceptivismos»! (Esqueçam o AO90.) «Susceptibilidade» é demasiado vulgar, corriqueiro. Basta ver que alguns estudantes a usam.

[Post 4655]

4.4.11

«Estrato socioprofissional»

Já vimos isto

      Olá, o que é que aqui temos?! Um professor universitário a escrever «extractos socioprofissionais»?! Como podem estas luminárias fumegantes ensinar os alunos se não sabem para si próprios? Mas não venho aqui apenas por isto. Uma pergunta: será que os tradutores pensam que não se pode verter esta construção de outra forma? «One used to be a stoner...» «Um costumava ser pedreiro…»


[Post 4652]

22.2.11

«Ser um moço de corda»

Antes surdo

      «Aos moços de fretes também se chamava moço de esquina ou ainda moço de corda, aludindo com isso que estaria ligado por uma corda, qual títere fantoche, ao patrão. E é precisamente desta última asserção, enquanto alguém ligado por uma corda invisível ao patrão, que a expressão “ser um moço de corda” tira o seu actual significado de pau-mandado» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 21.02.2011).
      O que fica transcrito é sensivelmente metade da crónica — e não é preciso ler duas vezes para perceber que podia estar quase tudo assinalado a vermelho. Desconcordâncias, má redacção, repetições, erro crassíssimo («asserção»!)... E também me sobra a suspeita de que a explicação para a expressão não é a referida. Não se deverá antes ao facto de antigamente os galegos estarem aí pelas esquinas da cidade com cordas ao ombro à espera de alguém os contratar para qualquer trabalho que requeresse força bruta?

[Post 4477]


20.2.11

«Recolha porta-a-porta»

Para tudo ficar igual

      «Retirar até 2013 todos os ecopontos, à excepção dos vidrões, da via pública. É este o objectivo da Câmara Municipal de Lisboa, que, para isso, alargará progressivamente a toda a cidade a recolha selectiva de resíduos porta a porta (embalagens e papel/cartão)» («Lisboa alarga recolha porta a porta para tirar ecopontos da rua até 2013», Inês Banha, Diário de Notícias, 20.02.2011, p. 32).
      Não é locução. A jornalista devia ter escrito «recolha porta-a-porta», como já aqui explicámos.

[Post 4468]


21.1.11

Como se escreve nos jornais

Lendário


      «“Enquanto houver um ponto de conecção e entendimento, acho que é possível fazermos coisas juntos”, constata, referindo-se aos dois DJs. “Todas as pessoas que vêm aqui são pessoas com as quais tenho algo em comum e com quem fico contente só por poder juntar estas pessoas”» («‘Homem-Tigre e seus amigos nos Coliseus», Alexandre Elias, Diário de Notícias, 20.01.2011, p. 53).
      O Homem-Tigre é que falou — mas os erros são todos do jornalista. (Claro que a segunda frase não saiu nada escorreita.) Ou serão de algum revisor? Ele há erros e erros, aquele, «conecção», é de cair para o lado.

[Post 4344]

10.1.11

Ortografia: «mau-estar»

Uma jornalista...

      «O clima de mau-estar intensificou-se e “eles estiveram a discutir durante a madrugada de sexta-feira”» («Corpo do cronista já pode ser levantado pela família», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 10.01.2011, p. 50).
      Um dia ainda será norma, ou já é — porque «os falantes têm sempre razão».

[Post 4304]

30.12.10

«Boa noite», saudação

Dorme bem, Leo


      «— Boa-noite, Leo — disse a minha mãe» (O Primeiro Verão das Nossas Vidas, Pat Conroy. Tradução de Natália Fortunato. Lisboa: Porto Editora, 2010, p. 107).
      Pensava que esta monomania do hífen já tinha passado em relação às saudações. Estas nunca levam hífen. Como substantivo, sim. Eis um exemplo: «— Deixa-me dar-te as boas-noites, Leo — disse a minha mãe.»

[Post 4254]

26.12.10

«Aparte/à parte»

É pôr de parte


      «Ainda assim, não podendo falar de consensos absolutamente consensuais (aparte Kanye West), assinalamos concentrações estéticas» («Melhores do ano. Música», Mário Lopes, «Ípsilon»/Público, 24.12.2010, p. 3).
      Erros assim comezinhos são os mais comuns. Só é, ou devia ser, incomum ser um jornalista a dá-lo. À parte é uma locução adverbial e significa excepto, sem falar em, em particular, de lado, isoladamente. Aparte é um substantivo e significa o que um actor diz simulando falar consigo; frase isolada para interromper alguém; observação marginal em discurso.

[Post 4234]

14.12.10

Redundância

Tenho ouvido


      «Nós tínhamos conseguido», disse o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, à Antena 1, «dentro do âmbito do orçamento do próprio ministério, uma quantia de 5 milhões de euros, que foi disponibilizada por um despacho das Finanças, de finais de Setembro, para adquirir material.» Sim, é verdade, é na oralidade, é um improviso, mas, mesmo assim, serve para mostrar como actualmente se abusa do advérbio dentro. Neste caso, avulta a redundância, mas nem sempre é esse o problema. Não é raro ouvir-se, na mesmíssima Antena 1, jornalistas dizerem algo como «dentro da União Europeia». Já não chegam as preposições.

[Post 4191]

11.12.10

Como se escreve nos jornais

Outra vez não!


      A Fundação José Saramago realizou ontem na Biblioteca Municipal do Palácio Galveias uma sessão comemorativa dos 12 anos da atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago. Até aqui, tudo normal. E quem esteve presente? O Diário de Notícias conta: «A iniciativa da Fundação José Saramago contará com a presença da mulher do escritor e presidenta da instituição, bem como de vários amigos que o autor convidou então para estarem presentes na entrega do Nobel em Estocolmo. A sessão terá início pelas 18.30, na Biblioteca Municipal do Palácio Galveias» («Fundação evoca prémio a Saramago», Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 45).
      Um escritor quer que lhe escrevam o nome com minúsculas, e a imprensa escreve. O presidente de uma fundação, por acaso mulher, quer que a designem por «presidenta», e a imprensa, genuflecta, obedece. Aonde é que isto vai parar? Onde estão o discernimento, o critério, a independência?

[Post 4185]

7.12.10

Como se fala na televisão

Coitados de nós


      Um dos convidados de ontem do programa Prós e Contras foi o escritor José Luís Peixoto. Uma das frases que lhe ouvi: «Eu tive oportunidade de publicar recentemente um romance em que acabei por, ao escrevê-lo, por me debruçar sobre a questão da emigração portuguesa, nesse caso, especificamente, para França, e ter oportunidade de perceber que se tratam de pessoas que construíram dois países, de certa forma, com o que fizeram.» Fátima Campos Ferreira quis ainda saber se o escritor achava que somos um povo resignado. «Eu penso que nos querem resignar», respondeu, violentando a gramática, o autor do Livro. Esgotada a gramática e a inspiração com este convidado, Fátima Campos Ferreira virou-se para Salvador Mendes de Almeida, e perguntou: «O que é que denota hoje, que sinais vê na sociedade?»
      Não me perguntem mais nada, pois fui-me deitar com esta frase (salvo seja).

[Post 4166]

5.12.10

«Ponto da situação»

Não percebo


      «Para já», disse José Manuel Rosendo, nas notícias das 3 da tarde de ontem na Antena 1, «vamos em directo para o aeroporto de Lisboa, onde está o repórter Miguel Videira. Vamos fazer um ponto de situação.» Estou farto de ouvir isto. Vejamos, caro José Manuel Rosendo: não se estava a referir a uma situação concreta, a que se vivia no aeroporto de Lisboa, relacionada com a greve dos controladores espanhóis? Então, é ponto da situação.

[Post 4160]

2.12.10

Selecção vocabular

Com mil milhões de macacos!


      «Para lá do seu significado comercial para a editora Casterman e para a Moulinsart, detentora dos direitos da obra de Hergé, esta tradução para hindi vem reiterar a vocação universal, a intemporalidade e a popularidade todo-terreno de Tintin, e dos valores que ele corporiza e transmite» («Tintin em hindi, com mil milhões de macacos!», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 1.12.2010, p. 29).
      Todo-o-terreno, adjectivo, neste caso, sim, é usado e está dicionarizado. Mesmo sem este erro, seria uma forma bem infeliz de dizer. Assim, ainda pior.

[Post 4152]

1.12.10

Expressão

Só eles é que falam


      Macário Correia quer que os algarvios se revoltem contra as portagens. De caminho, escoicinha a língua: «Só eles é que falam para a comunicação social e só eles é que dão opinião. A opinião das populações e dos autarcas não conta. Não são ouvidos, não são achados. É um acto de desconsideração.» Há outro burocrata, muito mais interessante, porque ficcional, que também deturpa os provérbios e expressões. É Sipiágin, do romance Solo Virgem, de Turgueniev, que dizia, por exemplo, «a cavalo dente não se olha o dado».

[Post 4149]

28.11.10

Centímetro cúbico

Consulta II


      «O piloto português Miguel Oliveira foi este domingo segundo classificado no Europeu de motociclismo em 125 cc, atrás do espanhol Maverick Viñales, que se sagrou campeão no circuito de Albacete, Espanha» («Miguel Oliveira vice-campeão europeu em 125 cc», Diário de Notícias, 26.10.2010).
      E este não é um erro tão grave como «grau centígrado»? O símbolo de centímetro cúbico não é, afinal, cm³? Que diz o meu leitor Fernando Ferreira?

[Post 4138]

«Alguém/ninguém»

Até ele


      «Era o fidalgo a única pessoa que exercia influência em Bento de Araújo, e tamanha que pudera arrancar-lhe alguns mil cruzados a juros, sob juramento de não dizer a alguém que lhos devia» (Novelas do Minho, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação do texto e nota preliminar pela Dr.ª Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971, p. 213).
      Cá está o grande Camilo a dormitar. Sempre a elogiar a forma como o bom povo falava, e a trocar ninguém por alguém. Acontece aos melhores...

[Post 4135]

27.11.10

«Por sua alta recreação», de novo

Pois, pois


      Na emissão de ontem do Lado B, José Diogo Quintela explicou a sua saída do jornal A Bola: «Escrevi um texto, o director d’A Bola, por sua auto-recreação, decidiu cortá-lo, sem me consultar, publicá-lo truncado dessa maneira, e eu pronto, disse: “Então, se você faz as minhas crónicas melhor que eu, assim editando, faça”.»
      É um erro que já passou por aqui e por aqui. Na verdade, é por sua alta recreação que se diz. Assim, se o que escreve não precisa de ser editado, pelo menos não dispensa o anónimo esforço da revisão.
      Não houve ali uma chispazinha que fosse de graça ou génio, e vê-lo fez as vezes de cozimento de papoilas, mas calo-me, porque é uma mera opinião e ninguém quer saber disso. Claro que já foi mais perigoso, olá se foi!, ousar beliscar a unanimidade em volta destes quatro felinos.

[Post 4132]