14.10.10

Pronúncia: «fénix»

Imagem tirada daqui

O ianque


      Nos últimos dias, ouvi na rádio, a propósito do resgate dos mineiros chilenos, a palavra «fénix» pronunciada das duas formas que já conhecemos — a normativa e a deturpada pela ignorância. Ontem, na Sic Notícias, no programa especial para acompanhamento em directo do salvamento, Mário Crespo, acompanhado de três convidados, José Manuel Moura, perito da Autoridade Nacional de Protecção Civil, Telmo Mourinho Baptista, bastonário da Ordem dos Psicólogos, e Fernando Barriga, professor catedrático de Geologia na Universidade de Lisboa, pronunciou o vocábulo como se fosse o inglês «phoenix». My word!

[Post 3970]

15 comentários:

Anónimo disse...

Perpetram o mesmo com o antropónimo «Félix», que pronunciam «Félicse».
«Quousque tandem, Marius Crespus (et al.), abutere patentia nostra?» (à maneira de Cícero).
- Montexto

Paulo Araujo disse...

Eu não atino qual seja a pronúncia deturpada, mas aqui pronunciamos com 'e' tônico fechado e 'cs' final. (pode ser ouvida no Aulete Digital). O mais curioso em torno dessa ave, é que, segundo o Aurélio,o Aulete, o Porto e o Michaelis, vivia muitos séculos; segundo o Priberam e o Sacconi, 500 anos e segundo o Houaiss, 300 anos. Bem, isso não devia ser muito importante desde que ela sempre ressurgisse das cinzas... Para o caso da cápsula chilena, vale a metáfora para a volta à vida dos mineiros e a acepção figurada de coisa muito rara, única no gênero, como está no Aurélio. Nem os elevadores do Burj Dubai percorrem 622 metros.

Anónimo disse...

Senhor Paulo Araújo, a pronúncia de «Fénix» e «Félix», como manda a lei, é «Fénis» e «Félis», assim como a de «cóccix» e «cálix» é «cóccis» e «cális». Mas não se preocupe com estas inânias, pronuncie como lhe apetecer: também aqui já chegou a balbúrdia, consagrada por dicionários que registam ambas as pronúncias, «com tranquilidade», como diz o outro, e há-de aparecer aí um filólogo, se não apareceu já, a justificar por a mais b a confusão, muito conforme ao temp que corre. Vem a caminho o dia em que será difícil distinguir entre norma e desvio. A vantagem desse feliz tempo é que então ninguém poderá errar.
- Montexto

R.A. disse...

Senhor Montexto,
Diga-nos: como devemos pronunciar "ónix"? ónis ou ónicse?

Podia indicar-nos, por gentileza, qual a lei a que se refere. Assim combateria a nossa desgraçada inanidade...

Anónimo disse...

A vossa desgraçada inanidade é irremediável.
- Montexto

Venâncio disse...

O que nem Montexto nem o próprio Helder dizem é qual é essa "outra" pronúncia. Pois trata-se da pronúncia inglesa fínics (com o segundo i breve). A tal pronúncia que Mário Crespo e outros usam, pois desconhecem o nosso nome para a tal ave.

Anónimo disse...

Com que então, portugueses e jornalistas «desconhecem o nosso nome para a tal ave»! Mas pelo visto não ignoram o nome inglês do pássaro. Que se há-de dizer disto? Que essa gente até podem estar de corpo presente em Portugal e nas redacções das folhas e nos estúdios de televisão, porém a cabecinha têm-na nos EUA ou Inglaterra, ou no último livro ou filme ou disco ou espectáculo ou periódico ou revista, mas sempre em inglês.
- Montexto

Anónimo disse...

Eu ainda espero pela lei que nos manda dizer /'fenis/.

É claro que pronunciar à inglesa é ridículo; mas daí a chamar "ignorância" a pronúnica /'feniks/... Isso, sim, parece-me ignorância. Às vezes penso que de nada adiantou a Linguística moderna; uns quantos continuam a viver no século XIX.

Anónimo disse...

Quem me dera! O maior defeito do século XIX foi ter gerado o séc. XX, de que só aparentemente nos safámos.
Mas, para que não fique eternamente «en attendant la loi», e parece ser pessoa que se interessa por questões de linguagem, prurido simpático a meus olhos, remeto-o para a resposta 24411 dada por Carlos Rocha no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa sobre «Ainda a pronúncia de "Fénix" e de "Félix", que me parece suficientemente esclarecedora da tradicionalidade e normatividade da pronúncia que termina em «is», e do voo recente do pássaro para «cse».
- Montexto

André disse...

Transcrevo, para que não tenham de andar internet fora, em busca da fénix perdida.

"Já aqui se disse que em Portugal não há consenso quanto à pronúncia de fénix. A pronúncia tradicional — e recomendada — é a que termina com o som que começa a palavra xaile. Deste modo, as cinco letras (ou os cinco grafemas) de fénix representam cinco sons: = [fɛniʃ].1 Contudo, há muitos falantes de português europeu (PE) que pronunciam com [ks] final, imitando a pronúncia do final das palavras tórax e clímax."

Note-se o "contudo".

Anónimo disse...

É. Lá eu só leio sobre "pronúncia tradicional", que, no meu entendimento, é bem diferente de "lei" da língua. Ademais, o próprio Montexto parece esquecer-se do que dizem ao fim da resposta: "Em suma, eu diria que o consulente segue a tradição quando diz "Félis" (isto é, Félix), mas opta por uma tendência mais recente ao pronunciar "fénics" (fênix), sem que se possa falar claramente de erro." Percebam: "sem que se possa falar claramente de erro."

Anónimo disse...

Tradicional - e - recomendada: que será preciso mais para se perseverar na pronúncia lídima? Tradição - isto é, costume - em questões de linguagem constitui a maior das leis. Vale o costume sem lei, não vale a lei sem costume: está nos clássicos.
Vamos sempre bater à basezinha, sem a qual não há consenso possível, e a língua é acima de tudo uma convenção tácita, constante e generalizada, quer dizer: uma tradição que faz lei.
O que, por outro lado, não deixará de ser razoável concluir é que também a pronúncia daquelas palavras terá engrossado ultimamente as chamadas «áreas críticas da língua portuguesa».
Consolemo-nos, porém: não é por casos como este que lhe vem o mal maior (que grassa sobretudo quando a vítima é a sintaxe).
- Montexto

Anónimo disse...

Fato: a pronúncia das palavras muda com o tempo. O que tu não aceitas é que ela mude enquanto estás vivo. Antes, pode; durante, não. E aquela declaração, assaz infeliz, sobre o século XX dá-me a ideia de que estou a perder tempo com gente atrasada.

Anónimo disse...

Não perca. Siga muito adiantado a sua via e vida em paz e às moscas.
- Montexto.

Cláudio Henrique Ribeiro de Sá disse...

Interessante! Tenho 35 anos, sou professor há 13 e, outro dia, por curiosidade, fui ver um antigo acordo da língua portuguesa mais velho que minha mãe e "descobri" que fênix se pronuncia "fênis". Bom, pronunciava-se! Ninguém fala assim hoje em dia, e se alguém o fizer, será alvo de chacota, apesar de legalmente estar certo. A língua é dinâmica e o desvio mais comum torna-se regra. Assim deixamos de falar latim para falarmos português (do Brasil, diga-se de passagem). Acho que as regras visam garantir o alcance e o efeito da língua e não restringir sua capacidade evolutiva. Troquemos ideias e experiências e não insultos!!! Abraço a todos!