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18.4.11

«Sede de poder»

Corta!

      «Em geral», escreveu aqui uma vez Montexto, «na fala só a repetição torna a irregularidade ou o deslize realmente censurável.» Estamos de acordo. Nada disso, porém, se aplica ao programa Lugares Comuns (Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 18.04.2011), cujo guião é escrito antecipadamente e pode ser revisto e, ao que julgo, não sendo em directo, pode ser regravado. A emissão de hoje era sobre a expressão «jovem turco». Mafalda Lopes da Costa explicava então que é aquele que tem «sède de poder». Assim mesmo, /sède/local onde funciona um tribunal, uma administração ou um governo, local onde uma instituição tem a sua direcção ou administração... Não, não, não, cara Mafalda Lopes da Costa: /sêde/, desejo vivo, ardente, imoderado — de poder, de cultura, de vingança...

[Post 4700]

7.3.11

Pronúncia. Dissimilação

Afinal, é de mau gosto

      Comecemos por dizer, com Vasco Botelho de Amaral, que as disputas à volta da pronúncia são insensatas. E façamos como ele: falemos, mais uma vez, de pronúncia. No último Câmara Clara, com o tema «Gainsbourg e os outros franceses», uma das obras referidas foi Príncipes de Portugal, Suas Grandezas e Misérias, de Aquilino Ribeiro. Paula Moura Pinheiro, no que pode ter sido lapso, mas isso não interessa, pronunciou a palavra «príncipes» sem dissimilação. A pronúncia normal, como se sabe, é com dissimilação, tal como se faz com os vocábulos «vizinho», «ministro» e outros. Só refiro o caso porque ainda na semana que passou uma professora de Português me confessava que nunca tinha compreendido porque se havia de pronunciar dessa forma. Vou revelar-lhe um segredo, cara M.: não tem de pronunciar dessa forma. «Não quere isto dizer que os que pertençam a regiões, onde fique natural a manutenção dos ii, sejam obrigados à dissimilação. Apenas o que me parece especioso é, sob color de gôsto de sonoridade, cair-se no mau gôsto de ajanotar a fala quotidiana» (Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Edições Gama, 1945, p. 266).

[Post 4533]

6.3.11

«Herculano», pronúncia

Repita lá

      No programa Páginas de Português desta semana, que acabei de ouvir, alguém (um actor, decerto) leu a carta premiada do mês, na rubrica «Uma Carta É Uma Alegria da Terra». O texto referia Alexandre Herculano. «Olha o Hérculano...», ouviu-se. Leiam e digam-lhe, por caridade.

[Post 4532]


4.3.11

Como se fala na rádio

Ser uma messalina

      «De uma mulher devassa, promíscua, de má índole e intriguista diz-se que é uma messalina. A expressão deriva de uma figura histórica, a imperatriz romana Valéria Messalina Augusta, mulher do imperador Cláudio e mãe de Britanicus. […] E foi precisamente por conspiração e adultério que Messalina acabou por ser ela própria condenada à morte e executada após ter sido descoberto que tencionava matar o marido e colocar o amante no lugar do imperador» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 4.03.2011).
      Há aqui pábulo para muito mais, mas só dois reparos. Primeiro: se disse Britanicus em vez de Britânico, também deveria ter dito Claudius, Suetonius e Tacitus. Segundo: não deveria ter bem assente, antes de ler, qual a pronúncia de «Messalina»? É que, se ouvi bem (ouçam aqui), pronunciou-o de três formas diferentes.

[Post 4515]

3.3.11

Pronúncia

Lisboetês vulgar

      «Trauliteiros. Era a designação dada aos acompanhantes de Paiva Couceiro durante as incursões monárquicas no Norte no início da I República. De tal forma que ao período político entre 19 de Janeiro e 13 de Fevereiro de 1919, presidido precisamente por Paiva Couceiro, e com sede no Porto, a chamada Monarquia do Norte, foi também apelidada de Traulitânia» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 3.03.2011).
      E como pronunciou o numeral 13? Ora, /treuze/, pois claro, com ditongação do e. E quem fala assim muitas vezes também diz /númaro/. Apre.
      «Razão tinha o Afonso Lopes Vieira. Lisboa corrompe a linguagem. Mas, se há duas Lisboas, a culta e a ignara, deve-se a esta última a corrupção, nódoa que alastra pelo País fora, porque nós, os provincianos, só conhecemos a Lisboa inculta» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo, p. 101).

[Post 4514]

2.3.11

Acordo Ortográfico: o trema

Isso é o que vamos ver

      Na edição de ontem do programa Histórias Assim Mesmo (isto é comigo?), dedicado à história do topónimo São Lourenço de Mamporcão, Mafalda Lopes da Costa usou o vocábulo «sanguinário» e pronunciou o u. E bem, como bem teria pronunciado se não tivesse lido o u. Com a eliminação do trema, no Brasil, é muito provável que a médio/longo prazo se percam estas duplas pronúncias.


[Post 4510]

8.2.11

Pronúncia: «acerca de»

A cerca e as ovelhas

      José Sócrates estava hoje no Congresso das Exportações, em Santa Maria da Feira, e disse, fero e primo-ministerialmente patriótico: «Isto não é acerca de partidos, isto não é acerca de poder, isto é acerca do País.» E como pronunciou aquele triplo «acerca»? «A cerca». No Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicado pela Academia das Ciências de Lisboa em 1940, a locução prepositiva ainda aparecia com a grafia àcêrca. O Acordo Ortográfico de 1945, porém, suprimiu os acentos que distinguiam palavras homógrafas heterofónicas e referiu explicitamente aquela. Por isso, o Vocabulário Ortográfico Resumido da Língua Portuguesa, também da Academia das Ciências, datado de 1947, regista já, na página 8, «acerca», indicando, porém, a pronúncia: «(à...ê)». E o Acordo Ortográfico de 1990 continuou nesta via, mas deixou algumas excepções que estão a intrigar os professores (pelo menos os que frequentam qualquer curso sobre a nova norma ortográfica da língua portuguesa. E há cursos destes com uma carga horária de... 12 horas!), como por/pôr. Os falantes não se dão bem com acentos, mas a verdade é que a desambiguação de palavras homógrafas por meio dos acentos ajudava e muito. Pode/pôde, demos/dêmos, cantamos/cantámos, pelo/pêlo, pára/para... Entre excepções e usos opcionais, lá se vai a decantada unidade.

[Post 4411]

13.1.11

«Estadio»?

Isso não


      Hoje foi a vez de o candidato Defensor Moura ser entrevistado na Antena 1 por Maria Flor Pedroso. Nada de especialmente grave, excepto o que a deformação profissional impõe: pronunciou «estadio» em vez de «estádio». De resto, é o candidato com o discurso mais articulado, sem ter, todavia, o estro altissonante de outros.

[Post 4319]

10.1.11

Pronúncia: «tóxico»

Cs... cs... cs... cs...


      Manuel Alegre, sempre poeta e durante mais de três décadas deputado, está a ser entrevistado na Antena 1 por Maria Flor Pedroso e acaba de usar a palavra «tóxico» — pronunciando «tóchico». Vai perder mais alguns votos...

[Post 4301]

8.12.10

Pronúncia

Faz-me impressão


      Rui Pereira, ministro do Interior, perdão, da Administração Interna, estava hoje de manhã em Tomar, «no terreno», para avaliar os danos causados pelo minitornado. O repórter Paulo Brás, da Antena 1, acompanhou a visita e disse que o ministro acabara de fazer um «breve briefing com as autoridades». Rui Pereira quis manifestar o seu apreço pelo trabalho da Protecção Civil e da Câmara Municipal e garantiu que iria ser accionado o fundo de emergência municipal e que iria falar com o ministro da Economia para que o IAPMEI «acorresse a quaisquer necessidades». E como pronunciou o vocábulo «economia»? Pois claro, ¦ikunumía¦. Quem fala assim, por favor, levante o dedo.

[Post 4174]

28.11.10

Pronúncia: «líderes»

Os nossos queridos lídrs


      Na emissão de ontem do novo programa de informação da RTP2, Hoje, Cecília Carmo disse: «A promessa foi feita por José Luis Zapatero perante os líderes de 37 maiores grupos empresários [sic] espanhóis, entre eles vários bancos que se terão comprometido com o Governo a completar até dia 24 de Dezembro um processo de consolidação financeira.» Adivinharam: é a pronúncia do vocábulo líderes, que para a jornalista é /lídrs/. Aqui sim, o emudecimento é evidente e contrário ao português. O e da última sílaba da palavra líder é aberto — no singular e no plural.
      O Governo, dizia o primeiro-ministro espanhol, comprometeu-se a continuar a fazer as reformas estruturais. A seguir y algo más..., prometeu vagamente. Nas legendas: «A continuar e ainda mais...» Como é timbre dos políticos, fez mais promessas: «A levarllas a la práctica con la máxima celeridad posible.» Na legenda: «A implementá-las, etc.»

[Post 4140]

27.11.10

Pronúncia: «equidade»

Não grite


      No programa de debate político Contra-Análise, na RTPN, Paulo Rangel e Correia de Campos falavam ontem de cortes salariais. Paulo Rangel usou várias vezes a palavra «equidade», como é, em semelhantes matérias, da praxe, e sempre com o e esgoeladamente aberto: /èquidade/. Lembrei-me logo das prevenções de João Araújo Correia: «Que bem que tu recitas, minha licenciada! Mas, porque dizes èrrores? (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 28).

[Post 4129]

13.11.10

Pronúncia

Gosto disto


      «Com que então, traduziu o nosso Cervantes?!», disse a criatura, como quem diz que atrevimento o seu. Apetecia-me dizer-lhe que não é nosso, sobretudo com aquele e escancaradíssimo. Lembrei-me logo de João Araújo Correia: «De tal maneira gritam por aí as nossas velhas vogais, que é força ir à Espanha e até à França quem tiver saudades das que foram brandas. Cervantes, na Espanha, ainda é o Cervantes. Cá em Portugal, agora é o Cèrvantes. E o De Gaulle, cá em Portugal, é o Dè Gaulle» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 55).

[Post 4074]

12.11.10

Acordo Ortográfico

Último àqueto


      Podemos estar preocupados com o possível emudecimento da língua, já grandemente estropiada, mas João de Araújo (que não tinha este acordo ortográfico à perna, é bem certo) teria outra opinião: «Propus o outro dia, numa revistinha, que se acabasse com o ditado. Para ensinar a escrever, é suficiente a cópia e a redacção. O ditado, pela maneira como dita o professor, é pai de monstros. Faz de um rapaz, que se chama Edmundo, o Èdmundo. Torna-o repulsivo. O moço, vítima da grafia, vai mais tarde ao teatro, senta-se numa cadeira, conversa com os vizinhos nos intervalos e, para lhes provar que sabe as letras todas, não esquece o c de espectáculo, nem o de acto, nem o de acção. Pelos cotovelos, saem-lhes caranguejos chamados espèquetáculo, àqueto e àqueção» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 36).

[Post 4072]

1.11.10

Pronúncia: «Rousseff»


«Ruzefe», dizem eles


      Temos aqui um problema, mas desses que se resolvem da noite para o dia: alguns dos nossos jornalistas da rádio, como Alexandre David, da Antena 1, não pronunciam correctamente o apelido da nova presidente do Brasil, Dilma Rousseff. «Ruzefe», diz ele. Quem sabe se o apelido original, que o advogado búlgaro Pétar Russév, pai de Dilma, mudou para Rousseff, se pronunciava dessa forma. Na escrita, também temos um problema: na mesma edição de certos jornais, como no Público de hoje, ora se lê Rousseff ora Roussef.

[Post 4033]

14.10.10

Pronúncia: «fungi»

Não diga assim


      Rita Matos, no programa Este Tempo, da Antena 1, falou hoje sobre cogumelos. E usou a palavra «fungi» (plural do latino fungus), o reino (como se chegou à conclusão de que são tão diferentes das plantas como dos animais, criou-se um reino próprio — reino Fungi) a que pertencem os cogumelos. Primeiro, disse-a com pronúncia restaurada, com o g a soar como gutural. Depois, a desmentir o conhecimento que parecia ter revelado, tentou corrigir, pronunciando quase como se fosse uma palavra inglesa. Antes, tinha começado por lançar o que parecia um remoque ao bad english de Sócrates no discurso na Universidade de Columbia. Só que, como Rui Tavares disse em relação a Pacheco Pereira, em mau português. (Obrigado a Montexto pela referência.)

[Post 3971]

Pronúncia: «fénix»

Imagem tirada daqui

O ianque


      Nos últimos dias, ouvi na rádio, a propósito do resgate dos mineiros chilenos, a palavra «fénix» pronunciada das duas formas que já conhecemos — a normativa e a deturpada pela ignorância. Ontem, na Sic Notícias, no programa especial para acompanhamento em directo do salvamento, Mário Crespo, acompanhado de três convidados, José Manuel Moura, perito da Autoridade Nacional de Protecção Civil, Telmo Mourinho Baptista, bastonário da Ordem dos Psicólogos, e Fernando Barriga, professor catedrático de Geologia na Universidade de Lisboa, pronunciou o vocábulo como se fosse o inglês «phoenix». My word!

[Post 3970]

5.8.10

Pronúncia

O caso da Portugal Telecom


      Contou-me ontem o revisor antibrasileiro que há uns anos ouviu alguém na rádio insurgir-se contra quem pronuncia a palavra «telecom» como «telécome». Até aqui, nada de novo. O argumento, contudo, soa a algo novo. Como o presidente da Portugal Telecom, na altura Luís Todo Bom, era um dos que pronunciavam assim a palavra, o comentador (fosse lá quem fosse) ainda se indignava mais e dizia que, a ser assim, o nome do presidente se devia pronunciar «Todo Bóme». Demasiado simplório? Talvez não. Em 1997, escreveu José Neves Henriques sobre a mesma questão no Ciberdúvidas: «Não se diz “telécome”, do mesmo modo que ninguém diz “bómbóme”, de bombom, pronunciando o m [/bombõ/] final. Do mesmo modo procederemos perante Telecom. A última sílaba pronuncia-se como a preposição com. Embora provenha do truncamento (ou partição) de Telecomunicações/ção, é, para todos os efeitos de pronúncia, uma palavra normal e independente como qualquer outra.»

[Post 3762]

31.7.10

Pronúncia: «ícone»

Emblema e âncora e ícone


      Na inauguração do faraónico Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa, disse ontem José Sócrates: «O Museu do Côa vai ser uma âncora, naturalmente, e um emblema e um ícone para Foz Côa e para o Douro.» E como pronunciou o vocábulo «ícone»? Mal, como Paula Moura Pinheiro aqui. «I-cone»? Mas porquê?
      Mesmo quando se fala para o País, é às elites que os políticos se dirigem. Quem, da população de Foz Côa, saberá exactamente o que é aquela «âncora»? Talvez alguém faça, e bem, a analogia com o conceito, vindo directamente do inglês anchor store, de «loja-âncora», que, todavia, ainda não chegou aos dicionários.

[Post 3748]

Actualização no mesmo dia

      O sempre atento Paulo Araujo lembra-me, e bem, que esta lacuna é apenas dos dicionários publicados em Portugal, pois pelo menos três dicionários editados no Brasil registam o vocábulo loja-âncora:

No Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa:

Loja-âncora Substantivo feminino. 1. Prom. Vend. Estabelecimento de grande porte e bem conhecido, ger. uma loja de departamento, que serve como base comercial de um shopping center. [Tb. se diz apenas âncora. Pl.: lojas-âncoras e lojas-âncora.]

No Grande Dicionário Sacconi da Língua Portuguesa:

Loja-âncora s.f. (a) Loja importante e de grande porte de um shopping center, para o qual serve de base comercial, por atrair consumidores; carro-chefe de um centro comercial: a Livraria Cultura, loja-âncora do Shopping Villa-Lobos, transformou-se em ponto de encontro privilegiado de adultos e crianças da zona oeste da capital paulista. Pl.: lojas-âncoras ou lojas-âncora.

No Dicionário Aulete Digital:

Loja-âncora sf. 1. Loja de grande porte e bem conhecida que funciona como suporte comercial de um shopping center [Tb. se diz apenas âncora.] [Pl.: lojas-âncoras e lojas-âncora].

30.5.10

Pronúncia: «nogado»


A escorrer mel


      «O tocador de realejo e o seu macaco, libertados depois do pequeno-almoço das suas instalações frequentes na prisão, arranhavam incansavelmente Sous Les Ponts de Paris até que alguém lhes ofereceu um copo de vinho e um bocado de nogado de amendoim, respectivamente» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 83).
      Não se trata de um erro de tradução — ou, pelo menos, não é isso que me preocupa agora, embora quando um inglês pensa em nougat não veja o mesmo que eu quando penso em nogado. Quando leio ou ouço a palavra, vem-me sempre à mente os nogados, brilhantes da calda de mel em que eram mergulhados, que a minha tia Joana fazia, iguaizinhos aos da imagem (tirada daqui). Todos os dicionários registam «nogado», mas durante quase toda a vida ouvi /nógado/, talvez, considero agora, por influência do espanhol nuégado.

[Post 3517]