25.1.11

Como se escreve nos jornais

Das osgas


      «As histórias repetem-se e não são exclusivas de Portugal. Não falta quem garanta que ficou careca a partir do dia em que uma osga esteve na sua cabeça; e quem afirme ter ficado cheio de dores no corpo por ter comido por um utensílio de cozinha onde uma osga caiu acidentalmente. Há ainda relatos mais dramáticos que dão conta da morte de indivíduos envenenados por esta espécie. O curioso é que os especialistas encontraram versões iguais em outros países, onde predomina a cultura árabe, como o Paquistão e o Egipto, levando a admitir que as crenças sejam um legado cultural. O próprio nome aponta nesse sentido. É que osga em árabe pronuncia-se wazaghah» («Herança árabe até no nome», Roberto Dores, Diário de Notícias, 16.01.2011, p. 45).
      «Osga em árabe pronuncia-se wazaghah»? Na peça principal, fala-se de uma campanha da Universidade de Évora para salvar as osgas, coordenada pelo biólogo Luís Ceríaco. Foi a uma comunicação deste académico que o jornalista foi copiar mal a informação. Cito o que interessa ao caso: «To strengthen this idea, one of the Arabic expressions for geckos is Bors or Wazaghah (Lane 1863), being the latter a word phonetically similar to the common Portuguese word of gecko “Osga”. Thus, we can assume that the folklore about the gecko, as its own common name, in Portugal, is most likely another cultural inheritance from Arabic origin.» No resumo desta comunicação, lêem-se estas pérolas: «Esta história, tal como a de que a urina de osga em alimentos matou alguém, são contadas desde o Norte de Portugal até ao Paquistão. Sendo a expressão árabe para osga extremamente semelhante à portuguesa (Wazaghah = Osga), e sabendo que em países que não tiveram sobre domínio árabe, este medos não existem, é provável que estas ideias sobre as osgas, sejam um vestígio da cultura islâmica em Portugal.»

[Post 4355]

10 comentários:

Anónimo disse...

O biólogo que fizesse ao contrário: escrevesse logo na sua língua (se é que ainda a considera tal, do que me permito duvidar), e depois tirassem a coisa em bife, que assim com toda a certeza já não saía erro nem lapso algum.
- Montexto

Paulo Araujo disse...

..."e sabendo que em países que não [es]tiveram sobre domínio árabe,"...; não está faltando uma troca de verbo, além de um 'vermelho' nesse "sobre"?
Mas minha curiosidade nesse post (em imaginário itálico) vai além da sintaxe; sou nordestino e convivi com lagartixas por toda minha infância, e lá nas minhas terras considera-se (ora, vejam!) que o simpático animal traz sorte. Ainda mais curioso (para mim) é saber que essa denominação (osga) é típica do Nordeste brasileiro, como apontam os dicionários, e somente hoje tomo conhecimento do termo; vivendo e aprendendo, como diz o ditado. Quanto à etimologia, a origem árabe é contestada, tanto por José Pedro Machado, quanto por Antenor Nascentes.

Helder Guégués disse...

Neste caso, caro Paulo Araujo, faltam muitos vermelhos; por isso falei de «pérolas», deixando aos leitores as conclusões.

Paulo Araujo disse...

Lendo com mais cuidado,as 'pérolas' vão surgindo:
"...é provável que estas ideias sobre as osgas, sejam um vestígio...".
Usar de vírgulas nem sempre é fácil, mas nesse caso...

Luis Ceríaco disse...

Caros senhores,

Desde já agradeço (e peço desculpa) pelos erros de português do resumo do meu artigo. Dispensava no entanto a observação sobre a minha preferência linguística e a atitude jocosa relativamente às "pérolas"...
Quando há prazos apertados para entrega de trabalhos, por vezes, há pequenas gralhas que passam.
Relativamente à hipótese por mim apontada (sobre a origem árabe do folclore e do próprio étimo, osga), peço-vos que leiam o artigo mais uma vez e explorem a bibliografia que usei para basear essa ideia.
Poderia ser apenas coincidência que o nome, foneticamente, fosse semelhante. Mas quando as histórias e folclore são exactamente iguais, a hipótese têm que se considerar como mais do que uma coincidência.
Para mais, sobre etimologia, encontrei recentemente alguns artigos que comprovam a hipótese: Osga é mesmo um arabismo. Não os citei no artigo pois, infelizmente, não os conhecia na altura.
Não sendo eu um especialista em "letras", deixo o link dos artigos dos especialista:

http://cvc.instituto-camoes.pt/bdc/lingua/boletimfilologia/23/boletim23_pag277_279.pdf

e

http://www.fflch.usp.br/dlo/tiraz/2004/Corriente_Frederico04.pdf

Quanto à questão do espanto sobre as Osgas e as Lagartixas, quero apenas esclarecer que Osgas são animais membros da família Gekkonidae, pequenos répteis com um particular tipo de patas, que lhes permite "pegar-se às paredes". Já as lagartixas, pertencem à família Lacertidae, e podemos considerá-las como lagartos mais pequenos. Se ler o artigo, verá que refiro que o folclore relativo a osgas varia bastante entre culturas. Aliás, dos únicos locais onde a aversão é maior é mesmo em Países árabes e em Portugal... lá está a malvada coincidência.

Peço-lhes que continuem o bom e eficaz trabalho de correcção ortográfica e gramatical, mas talvez seja melhor pensarem duas vezes antes de atacar noutros temas...

Helder Guégués disse...

Caro Luís Ceríaco,
Reli os comentários aqui deixados por leitores do blogue e não vejo que tenham atacado, como afirma, noutros temas. A etimologia não é disciplina alheia ao objecto deste blogue.

Anónimo disse...

Continuemos pois «o bom e eficaz trabalho de correcção ortográfica e gramatical», como nos pede o Sr. Luís Ceríaco: «Peço-lhes que continuem o bom e eficaz trabalho de correcção ortográfica e gramatical», escreve ele, e, quanto a nós, escreve bem, - gramaticalmente falando, que é o que maiormente aqui nos importa.

Mas, se «peço-lhes que continuem» está bem - e está, repetimos, - já «peço-vos que leiam o artigo» parece que o estará menos...
- Montexto

Anónimo disse...

Haverá sempre gente a contestar teorias etimológicas e a preocupar-se apenas com pormenores, recusando-se a ler o que pode ter algum valor. Não lhes fica nada bem.

Anónimo disse...

Se nos fica bem ou mal, é algo sobre o qual haverá sempre várias e desvairadas opiniões, e não temos a pretensão de concitar a unanimidade, nem sequer a maioria.

Ousamos todavia obtemperar que talvez não seja de todo o ponto descabido reparar em questões de linguagem num blogue precisamente «sobre a língua portuguesa, com ocasionais reflexões e incursões noutras áreas, porque afinal a língua cobre toda a realidade. Com marcado sentido pedagógico, sem abdicar do necessário humor».

Mas nem sequer nesta opinião aspiramos ao consenso.

- Montexto

C. Kupo disse...

Precisamente. Não significa que, por estarmos a dissecar somente a etimologia, não tenhamos tirado qualquer outro proveito do texto. Não: apenas que não é nosso desejo comentar textos, mas questões linguísticas que eles suscitam.
Mas já agora eu, que me vinha mantendo alheio ao debate, venho cá dizer que o texto me valeu pela curiosidade de saber sobre as crendices envolvendo osgas e seu alcance territorial.