25.1.11

«Já são meio-dia e meia»?

No relógio da praça


      A minha filha está aqui a ver um DVD com a história do Pinóquio. O velho Gepeto está a afeiçoar uma tábua para construir qualquer objecto e começa a estranhar a demora de Pinóquio. «Hum... Já são meio-dia e meia...» Ora, mas nós dizemos «deu meio-dia». Isto é, diz-se na província, com o relógio da praça a soar. Os mais avisados, escreveu Augusto Moreno, consideram que estas são orações impessoais.

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18 comentários:

Anónimo disse...

Mário Barreto tratou do caso «ex professo». E também lhe calhou ter de cantar a palinódia. Acontece a todos: «hodie mihi, cras tibi».
- Montexto

rui tavares disse...

Ainda há a curiosa expressão "é meia-hora" como equivalente de "meio dia e meia hora". Rara e só a ouvi utilizada em dois extremos da lusofonia: no Rio Grande do Sul e no Entre Douro e Minho.

C. Kupo disse...

Não deveria o velho Gepeto ter dito que "já é meio-dia e meia"?

C. Kupo disse...

De feito (ha!), caro Rui Tavares, aqui no Rio Grande do Sul usa-se muito, muito mesmo, "meia-hora" nesse sentido, e também vale para "meia-noite e meia hora".

C. Kupo disse...

Quanto ao Mário Barreto, solicito ao caro Montexto que discorra mais detidamente sobre o que disse o mestre, para que eu entenda onde estava o erro.

Paulo Araujo disse...

Talvez alguém julgue indiferente dizer qualquer das expressões; no entanto, meio dia mais meia hora são meio-dia e meia [hora], portanto dois sujeitos levando o verbo para o plural. Salvo melhor interpretação de quem sabe mais do que eu.

Anónimo disse...

1
Helder,
E se a pequena se tivesse referido às 12 horas ou às 12 horas e meia? Como dizemos nós, ou como se diz na província?

2
Paulo Araujo,
Então será errado dizer «é meio-dia e meia (hora)»?

- Montexto

Paulo Araujo disse...

Prezado Montexto; acho que sim, embora seja a forma mais falada (nunca a vi escrita); erra-se muito aqui, também, quando se diz 'é meio-dia e meio', querendo se referir às 12:30h, quando, em realidade, meio-dia e meio são as 18:00h. E desculpem-me o cacófato camoniano '-ma mais'.

C. Kupo disse...

Mas, Paulo, se assim fosse, deveríamos dizer "são uma hora e dez minutos" ou, simplificando, "são uma e dez". Sempre aprendi que usaríamos o plural somente quando se tratasse de 2 ou mais. Agora terei de sair à cata de elucidação.

C. Kupo disse...

No sítio Ciberdúvidas, resposta 18366, Carlos Rocha diz: "Na expressão das horas, o verbo ser concorda com o termo que se segue: «São dez horas» (plural), mas «é meio-dia» (singular). No caso de «meio-dia e meia hora», compreendo que a presença de «meia hora» ligada pela conjunção e a «meio-dia» (estrutura de coordenação) possa desencadear a concordância com um sujeito complexo (meio-dia + meia hora); logo, usar-se-ia o plural («são meio-dia e meia hora»). No entanto, não me repugna nada que se diga «é meio-dia e meia hora», fazendo o verbo concordar apenas com meio-dia. Note-se, contudo, que as gramáticas consultadas não são claras a este respeito. Por exemplo, Celso Cunha e Lindley Cintra (Nova Gramática do Português, 1984, pág. 503), por um lado, e Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa, 2002, pág. 558), por outro, apenas confirmam que ser concorda com a designação das horas que se lhe segue, mas dando só exemplos de tal designação no plural."
Ou seja: as gramáticas em geral fogem das questões mais espinhosas. =)

Anónimo disse...

Não, eu refiro-me à questão meramente gramatical da concordância do verbo «ser» no singular («é») com «meio-dia e meia (hora)» («portanto dois sujeitos», como o Paulo considerou).
Ou seja, se se pode dizer:
.ou só: são meio-dia e meia hora (como disse a filha de Helder, e parece que também o Paulo no seu comentário),
. ou só: é meio-dia e meia hora,
. ou de ambas as formas (sempre gramaticalmente falando no aspecto da concordância).

Quanto àquele cacófato, real ou suposto, não se apoquente: louvemo-me no parecer de Mário Barreto e Agostinho de Campos, cf. comentário neste blogue a «Acordo Ortográfico», 25.01.2001.
- Mont.

Anónimo disse...

Louvemo-nos, digo.
- Mont.

Anónimo disse...

Caro Kupo, não lhe repugna nada - e com razão - que se diga «é meio-dia e meia hora», apesar do «sujeito complexo», porque, quando o verbo precede o sujeito, ainda que este seja «complexo», pode concordar, ou só com o elemento do sujeito «complexo» que se lhe segue imediatamente, ou com todos os componentes desse sujeito. Já se o sujeito «complexo» preceder o verbo, este concorda sempre com todos.
Assim, pode dizer-se:
. ou: entrou o professor e o aluno,
. ou: entraram o professor e o aluno,
. mas, em princípio, só: o professor e o aluno entraram.

Qualquer gramática honrada explica ou devia explicar isto. E, se não explica, lá está o «grande, exímio e inolvidável» Epifânio a explicá-lo.
- Montexto

Anónimo disse...

OS VERBOS «DAR», «SOAR», «BATER», APLICADOS A HORAS

Ouçamos então «os menos avisados», segundo Augusto Moreno, entre os quais se contam os brasileiros Silva Ramos e Cândido Lago, o suíço Wilhelm Meyer-Lübke e o colombiano Rufino José Cuervo, todos conjurados por Mário Barreto em «Através da Gramática e do Dicionário», 1986, cap. LXVI, «O verbo “dar” aplicado às horas». E ao mesmo tempo satisfaçamos a curiosidade do caro Kupo. (Tardei, e cuido que me julgam mal, como disse o bom Sá; mas só agora pude vagar a este exercício de copista de trecho mais estirado...)
(1)
Esta questão, diz o mestre, «me dá ocasião a que, em público me penitenceie dum erro cometido numa das minhas primeiras e mais juvenis composições gramaticais. Pesa-me de haver condenado, em arredadas eras, a frase “deram onze horas” e foi o nosso Júlio ribeiro, o qual na sua “Gram. portuguesa”, § 532, diz o seguinte, quem me fez escorregar na ladeira do seu engano:
“O verbo ‘dar’, empregado [notai: «empregado», e não «empregue», como sem falha escreveria qualquer tecla moderna, inclusive as da glote] na sentença “Já deu dez horas” e em outras idênticas, conservando-se transitivo, assume o carácter de verdadeiro verbo impessoal e não pode ter sujeito claro.”
Há muito tempo que o meu parecer variou radicalmente, e quem primeiro me advertiu do meu lapso, e fez a correcção privadamente sem sanha ou cólera, foi o sr. dr. Silva Ramos, e depois dele o falecido professor Cândido Lago, que naquela quadra escrevia no jornal “Correio da Manhã”, impugnou a arguição injusta fulminada à referida frase. Demito de mim qualquer responsabilidade que daquele deslize do verdor dos meus anos possa provir-me, e isto declaro porque, no seu «Método prático de análise lógica”, recentemente publicado, o meu colega Antenor Nascentes que professa a sua língua no Colégio de Pedro II, e o meu não menos distinto camarada no magistério, sr. Carlos Góis, lente no Ginásio Oficial de Minas e autor da “sintaxe de regência”, saída a público em 1924, fazem-me a mercê de citar o meu nome conjuntamente com os de ilustres professores que desaprovam a frase “deram onze horas”. É honradora a companhia, mas infelizmente a consciência proíbe-me de aceitá-la. De qualquer modo, o meu apoio vale bem pouco pró ou contra.
- Mont.

Anónimo disse...

(Cont. 2)
O que se colhe da leitura dos mestres da língua é que, no presente caso, os verbos “dar”, “soar” e “bater” podem empregar-se:
1.º Como transitivos e com a palavra “relógio” como sujeito: “O relógio dá uma hora.” (Castilho, “O Outono”, p. 91). [Seguem-se exemplos vários de Rebelo da Silva e Camilo.]
2.º Toma-se como sujeito o número que designa a hora, com o que o verbo “dar” passa a significar “soar” (intransitivo): “Porque antes de darem as duas, começou a Sé a festejar com repique o levantamento do interdito.” (Fr. Luís de Sousa, “Hist. de S. Dom.”, part. III, 1. III, cap. XXVI). [Seguem-se vários exemplos de Vieira (ex: deram três quartos para as onze), Castilho (ex: deram as onze ao entramos na poisada), A. R. Saraiva, Mendes Leal (ex. Que horas deram?), Rebelo da Silva (ex: Davam nove horas na igreja do Loreto), Andrade Corvo (ex: Quando deram nove horas no relógio da Sé), Pinheiro Chagas (ex. Acabavam de dar onze horas no relógio de madre-pérola), Garrett, do qual, além de outros, este: «Mas dão sete, mas dão oito, mas são quase nove horas… e as janelas de Aninhas não se movem» («O Arco de Sant’Ana», vol. I, cap. IX, p. 104).]
A mesma coisa com “bater” e “soar”. [Seguem-se vários exemplos de Herculano (ex: Não tardou que no sino do coro batessem as badaladas), A. R. Saraiva (ex: Bateram quatro da manhã em três torres a um tempo), Rebelo da Silva (ex: Entremos nos paços da Ribeira. Vão bater dez horas da manhã), Camilo (ex: Soaram onze horas no relógio paroquial).
Estes são os factos da língua. Contra os textos citados e muitos outros que se lhes podem ajuntar não valem sentenças condenatórias. Eu de mim sei dizer que à vista deles reformei o meu juízo, e com Alexandre Herculano (“Opúsculos”, t. II, p. 60), podemos repetir todos os que buscamos a verdade e não a vaidade. “Dez anos não passam debalde para a inteligência humana, e eu não me envergonho de corrigir e mudar as minhas opiniões, porque não me envergonho de raciocinar e aprender.”
- Mont.

Anónimo disse...

(Cont. 3, e último - espero eu)
Em espanhol encontram-se exemplos antigos como os seguintes em que o sujeito que a princípio se expressava (“da el reloj las tres”) foi omitido porque se deixava entender por si mesmo: “Desta manera anduvimos hasta que dió las onze.” (“Lazarillo de Tormes”, p. 168, ed. e notas de Julio Cejador, Madrid, 1914). – “Señor, hasta que dió las dos estuve aqui.” (Ibid., p. 189). – “Dará las dos y ansi no puedo alargarme.” (Sta. Teresa, “Cart.”, 3, 72).
Oiçamos o que diz Meyer-Lübke (t. III, § 99): “Era tanto mais fácil, neste caso, não se nomear o autor da acção quanto as mais das vezes, ao indicar-se a hora que bate, enunciamos apenas uma impressão recebida; quanto a saber qual é a causa de tal impressão, isso carece de importância. Mas pode-se depois ir mais longe e dizer também em espanhol “dan las três”, tal e qual como em italiano “suonano le tre”, que igualmente deve provir de mais antiga expressão: “l’orologio suona le tre”.”
O grande filólogo hispano-americano Rufino José Cuervo, verdadeiro linguista, que conhecia a fundo e cientificamente o castelhano de todas as épocas da Espanha e da América, diz assim nas suas “Notas” à Gramática de Bello: “…há ido oscureciéndose el sujeto y predominando el acusativo hasta venir á ser el objeto principal del concepto, ó sea el sujeto psicológico; de ahí que por la tendencia natural á restalecer la armonía entre la fórmula psicológica y la expressión gramatical, se diga ‘dieron las cuatro, …’”
É assim que hoje se diz em castelhano, convertendo o acusativo em sujeito. Demos também disto alguns exemplos, e sejam todos do insigne D. Juan Valera, um dos clássicos espanhóis modernos que se lêem e continuarão a ler-se com mais proveito e agrado [seguem-se exemplos, de que traslado três]: “No bien dieron las diez y media entraron casi á la vez todos los convidados.” (“Juanita la Larga”, p. 346). – “De este modo siguieron hablando ambas hermanas hasta que sonaron las diez”. (“Pasarse de listo”, p. 451). - “Las dos habían sonado largo rato hacía en el reloj de la iglesia.” (Ibid., p. 346).»
- Mont.

C. Kupo disse...

Muito agradecido fico pelo esforço de nos trazer, à custa dos próprios dedos, tão longa explicação.

Anónimo disse...

A quanto obriga o amor da língua, caro Kupo! Para reter o mais possível a barbarização total. Mas é uma questão de tempo. Perfeitamente cônscio de que tudo isto não passa de «language's labour's lost», ou, para não ferir os castos ouvidos de quem desadora sons alienígenas (felizmente ainda vai havendo disso), canseiras de linguagem baldadas. Vivam as causas perdidas!
- Montexto