19.3.11

«Se não/senão»

Os maiores e os menores

      Ora digam-me lá quem sabe escrever.
      «Quando o regimento mudou, e os deputados (da oposição, claro) adquiriram alguma iniciativa, Sócrates adoptou a regra de não responder às perguntas que não lhe convinham (dezenas, se não centenas delas). Quanto à populaça, como se sabe, nem se deu ao trabalho de revelar o estado do país, nem de explicar o que andava a fazer» («Agarrado ao poder?», Vasco Pulido Valente, Público, 19.03.2011, p. 48).
«Se a previsão não falhar, virão aí algumas dezenas, senão centenas de milhares de portugueses — os franceses de torna-viagem» (Os Apontamentos: Crónicas Políticas, José Saramago. Lisboa: Editorial Caminho, 1998, p. 24).
«Os totalmente convertidos que se baptizaram e fizeram cristãos, não só se contaram a milhares, senão a milhões» (Sermões, P. António Vieira. Lisboa: Lello & Irmão, 1959, p. 391).


[Post 4586]

25 comentários:

Anónimo disse...

Nada a apontar às frases de Vasco Pulido Valente e do P. António Vieira. Já o uso feito pelo Saramago é incorrecto.
RS

Anónimo disse...

That is the question.
Então lancemos mais uma acha para a fogueira, e fiquemos a ver quem se aquece e quem se queima com ela:
«Meus Senhores:
Chamado a fazer parte do corpo docente d'esta casa, por extrema benevolencia, a que sempre me confessarei grato, do Conselho da Faculdade de Letras, que me propôs ao Governo, da Direcção Geral da Instrucção Secundaria, Superior e Especial, que deu parecer favoravel á proposta, e do Exm.º Ministro do Interior, que se dignou nomear-me Professor extraordinario do grupo de Philologia classica, principío hoje a desempenhar-me das funcções do meu cargo, senão com aquella segurança que só póde resultar de profundo saber, que eu não tenho, ao menos com a esperança de acertar, e decidido ao trabalho: "plenus spei bonae atque animi".»
É o primeiro parágrafo «Da Importancia do Latim — Lição Inaugural na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no dia 6 de Novembro de 1911», de José Leite de Vasconcelos, mestre de mestres, incluída na Revista Lusitana, vol. XIV, pág.113, que podeis consultar na Biblioteca Digital Camões, em linha.
— Montexto

R.A. disse...

Parece-me, mas gostava de ler a opinião de quem sabe, que nas três frases o mais correto é usar "senão".
Em todas a palavra pode ser substituída por "quando não". Estou certo?

["senão: conj. 1. De outro modo; sem o que; aliás; quando não" - in Dic. Priberam]

Anónimo disse...

Ora aí está como se trata uma questão: «Nada a apontar às frases de Vasco Pulido Valente e do P. António Vieira. Já o uso feito pelo Saramago é incorrecto.»
E pronto, nem mais. Está tudo dito e explicado até à exaustão. Quem não percebeu, percebesse. Eu, por mim, fiquei esclarecidíssimo. Obrigadinho, RS, e Deus lhe pague.
— Montexto

C. Kupo disse...

Pois gostava de saber o raciocínio feito pelo RS para assim concluir.
De minha parte, diria que Saramago e Vieira estão corretos; e Vasco Pulido, errado.

Anónimo disse...

Todas estão hachuradas em amarelo, portanto erradas, segundo a convenção estabelecida pelo autor do blogue. Alguém podia ser mais claro e dizer, por caridade, qual a forma certa, em cada caso, para os pobres mortais ignorantes poderem aprender, em vez de ficarem a ironizar?

Venâncio disse...

Exactamente, R.A. Quando se não é substituível por quando não escreve-se assim mesmo: se não. Por isso VPV e o editor de Vieira procederam correctamente. Já o de Saramago pôs o pé na poça.

RS tem, pois, razão, Montexto. E agora sim: você ficou "esclarecidíssimo".

Sofia disse...

Por, nessas frases, estar subentendido o verbo, está correcto o VPV/Público («se não forem centenas delas», neste caso).

R.A. disse...

Só agora percebi, defeito meu!
Diz o Houaiss: «comparar com o uso da conj. se seguida do adv. não, equivalendo a ou, em or. em que há alternativa, incerteza (fala três línguas, se não quatro) caso em que a repetição do verbo fica subentendida (fala três línguas, se não [falar] quatro
Na frase de Valente separa-se (se não [forem] centenas), assim como na de Saramago (se não [vierem] centenas de milhares), enquanto na frase de Vieira junta-se (não só se contaram a milhares, senão [=mas sim] a milhões).
Estou sempre a aprender!
O Dic. Priberam desta vez não me ajudou.

Anónimo disse...

Se as três estão corretas, então, hachuras brancas nelas. E fim da arenga.

Venâncio disse...

Muito bem explicado, R.A.

Vi que me enganei no exame de Vieira.

Helder Guégués disse...

Caro anónimo das «hachuras»: o amarelo, desta vez, é de realce, não significa que esteja correcto ou incorrecto. Essa era, lembre-se, a pergunta.

Anónimo disse...

Como as coisas são fáceis e simples para os caros leitores! Duas penadas, e está tudo dito. Quem me dera ser assim: «o sancta simplicitas!»
• Vejamos um pouco o nosso querido Garrett: «— Latim e mais latim, solfas de clérigos, e de todas as suas crendices e pequices, quem teve a habilidade de m’as meter na cabeça SENÃO ele? Santo é: só o que me elle tem aturado! Mas é que eu tambem a outro não lh’o soffria. SENÃO fôra aquela bondade, aquela paciência de anjo do arcediago, parece-me que nem ler saberia» (O Arco de Sanct’Anna: chronica portuense — [1.ª ed.]. Lisboa: na Imprensa Nacional, 1845-1850, vol. II, ca. XXI, p. 32, na Biblioteca Nacional Digital, em linha).

*

• Agora I. Xavier Fernandes:
— «Escreve-se separadamente, “se não”, quando o sentido e a análise revelarem duas palavras distintas — pronome ou conjunção, a primeira, e advérbio de negação, a segunda. Exemplos: “quem ‘se não’ sente, não é filho de boa gente”; “por ‘se não’ queixar, foi considerado culpado” (casos de pronome e advérbio); “‘se não’ chover, irei passear”; “estuda, ‘se não’ (estudas), serás reprovado” (casos de conjunção e advérbio).
Em todos os outros casos, isto é, considerada a expressão como uma só palavra, devem escrever-se ligados os dois elementos, seja qual for a classificação gramatical que lhe seja dada. Exemplos: “não há formosa sem ‘senão’, nem feia sem perfeição” (caso de substantivo comum); “não se deve julgar o homem por uma só acção, ‘senão’ por muitas” (caso de conjunção adversativa); “nada tenho ‘senão’ trabalhos” (caso de preposição equivalente a ‘excepto, salvo”, etc.)»
— «De princípio, julgámo-las regionalismos popularizados, mas o seu uso em terras de província muito afastadas entre si levou-nos posteriormente a crer que as referidas expressões são conhecidas, SE Não em todo, pelo menos na maior parte do país»: «Questões de Língua Pátria — coisas que não estão nas gramáticas e outras contra o que elas contêm», Edição da «Revista Ocidente», Lisboa, 1947, vol. II, pp. 105 e 153.

*
Estais a «sentir» a coisa?
É e não é assim. To be continued...
— Montexto

Anónimo disse...

Agora as regras sobre o emprego de «senão» e «se não», resumidas por um colaborador do Ciberdúvidas de modo que subscrevo inteiramente, com a precisão que farei a seguir.
Explica-se nessa resposta do Ciberdúvidas, do meu conhecimento o lugar que melhor versa a questão:
«[Pergunta | Resposta]
As regras do "se não" e do "senão"
[Pergunta] Qual a diferença entre "se não" e "senão"?
Sandra Sousa :: :: Portugal
[Resposta] "Senão", uma só palavra, pode ser um substantivo ou um elemento de ligação (uma conjunção, um advérbio ou uma preposição).
"Se não" são duas palavras: “se” (conjunção condicional, pronome ou partícula apassivante), seguido do advérbio de negação “não”.
Vou apresentar exemplos de diversas situações em que ocorrem.
1. "Senão"
1.1. Como substantivo, significa mácula, defeito, leve falta: “Não há bela sem senão.”
1.2. Como elemento de ligação, pode ter os seguintes significados:
a. de outro modo, de contrário, de outra forma, quando não (na sequência de uma ordem, pedido, conselho, ameaça ou expressão de intenção): “Fala mais alto, senão não te oiço.”
b. mas, mas sim, porém: “Não dá quem tem, senão quem quer bem.”
c. a não ser, mais do que: “O que é a vida senão uma luta?”
d. à excepção de, excepto: “Ninguém falou senão o meu irmão.”
e. apenas, só: “Ela não é dona, senão sócia.”
f. na construção “não... senão”, que significa só, somente, apenas, unicamente (equivalente à construção francesa “ne...que”): “Ele não tinha senão uma atitude a tomar: proteger a mãe.”
g. na locução conjuncional “senão quando”, que significa de repente, quando subitamente, eis que: “Estávamos quase a dormir, eis senão quando se ouve um estrondo.”
h. na locução “senão que”, que significa "mas antes" ou "mas ao contrário": “Não há que falar, senão que agir.”
i. na construção “não só... senão”, significando "mas também": “Não só roubou, senão destruiu.”
2. "Se não"
2.1. Quando o “se” é uma conjunção condicional que introduz uma oração na negativa, o verbo pode vir expresso ou estar subentendido:
2.1.1. Com o verbo expresso: “Quando o leite está ao lume, se não estiveres a olhar, ele verte.”; “Só há jogo, se não chover.”; “Ele dirá tudo, se não o impedirem.”
2.1.2. Com o verbo subentendido: “Estavam lá dezenas de jovens, se não centenas.” Subentende-se aqui a mesma forma verbal da primeira oração (“estavam”).
Uma regra simples para se verificar esta situação (2.1.2.): neste caso é possível introduzir a expressão “é que” entre o “se” e o “não”: “Estavam lá dezenas de jovens, se é que não estavam centenas!”
2.2. Exemplo de “se” como pronome em frase negativa: “Quem se não sente de agravos, não é honrado.”; “Quem se não cansa sempre alcança.”
2.3. Exemplo de “se” como partícula apassivante: “Apesar de se não verem as gaivotas, já cheira a maresia.”
A finalizar, queria chamar ATENÇÃO para a situação 1.2. a. Aí a palavra “senão” pode ser substituída por “se não falares mais alto”, o que poderá levar à dúvida: se afinal está lá subentendido um verbo (o verbo falar), por que razão deverá ser “senão” em vez de “se não”, conforme a situação 2.1.?
Acontece que em 1.2.a. não se está a subentender a mesma forma verbal (pessoa, número, tempo) da oração anterior, como acontece em 2.1.2. Essa palavra “senão”, por si só, não forma oração, mesmo que elíptica (não há mais nenhum elemento; segue-se outra ideia: “não te oiço”). O mesmo não acontece em 2.1.2. em que está subentendida a mesma forma verbal, pessoa, tempo, modo e voz.
M.R.M.R. :: 12/02/2003».
Sigam o próximo capítulo.
— Mont.

Anónimo disse...

Agora a precisão:

• ao ponto 1.2 .i: «na construção “não só... senão”, significando “mas também”: “Não só roubou, senão destruiu.”
Nestes casos, seguindo-se a «senão» uma forma verbal, a «senão» ajuntar-se-á «que», e ficará: «Não só roubou, senão que destruiu», e não: «Não só roubou, senão destruiu».
Já se «senão» não for seguido de forma verbal, não precisa de «que»: «Não só roubou ouro, senão prata», ou: «Não só roubou ouro, senão também prata».
Exemplos destes são às miríades em Vieira.
• ao ponto 1.2.c: aquele «senão» e o primeiro «senão» do passo de Garrett, eu fá-los-ia preceder de vírgula.
Continua.
— Montexto

Anónimo disse...

Dito isto, parece que com «senão» e «se não», sobretudo nos clássicos, se passa algo parecido com o já aqui visto acerca de «demais» e «de mais».
Mas, seguindo as regras do colaborador do Ciberdúvidas, pôr-se-á alguma ordem na matéria, sem atentar contra nada essencial, e em proveito da perspicuidade.
E, assim sendo:
• o passo de Pulido Valente estará correcto;
• o passo de Saramago adoecerá de erro ou irregularidade;
• o passo de Vieira está correcto (nem é comparável aos outros dois, esses, sim, comparáveis entre si);
• o passo de Leite de Vasconcelos enfermará de erro ou irregularidade (perdoem-me os manes do grande filólogo, mas amicus Plato, sed magis amica veritas);
• no passo de Garrett, o 1.º «senão» está certo (talvez devesse ser precedido de vírgula);
• no passo de Garrett, o 2.º «senão» — «Senão fora aquela bondade, ..., parece-me que nem ler saberia» — está absolutamente errado, a todas as luzes. Erro tão palmar melhor fora levá-lo à conta de lapso de impressão... Quando o li na ed. da Porto Editora, surpreendeu-me tanto, que tive de o cotejar com a 1.ª ed. em linha, que realmente traz «senão»!

*

Mas quem costume conversar os clássicos reconhecerá decerto que pábulo para questiúnculas destas neles não falta, nem parece que atentassem muito em tais maravalhas, seguindo aquilo de D. Francisco Manuel a propósito de outro assunto: «Coisas tão miúdas não é bem que pejem o pensamento de um homem» (Carta de Guia).

*

Para acabar, a pergunta de Helder — quem sabe escrever? — a propósito de Pulido, Saramago e Vieira, e dilatada por mim a Leite de Vasconcelos, Garrett e até Xavier Fernandes, tenho-a por irónica, nem há mister de resposta: os textos dos citados respondem cabalmente por eles, e dispensam defensor.
— Montexto

Anónimo disse...

Tive a oportunidade de me debruçar sobre este assunto, e de resolver as muitas dúvidas que ele me suscitava, há alguns anos, daí que a minha resposta limitou-se a assinalar as duas frases que estavam correctas, e a única frase que estava incorrecta. A minha experiência nessa altura levou-me a concluir que, quem quiser resolver esta questão na sua cabeça, terá de se embrenhar a fundo e fazê-lo por esforço próprio, e que as explicações de terceiros raramente nos satisfazem. Fico satisfeito por verificar que alguns dos leitores deste blogue fizeram, individualmente, o trabalho de casa, e acabaram por concordar com as minhas respostas. Poderia ter posto aqui as minhas razões, mas elas seriam apenas minhas, resultado do meu esforço individual, e dificilmente serviriam para outros. Da mesma forma, os argumentos apresentados por Montexto serão bons para ele, mas não para os demais. O importante é que, cada um à sua maneira, todos cheguemos às mesmas conclusões. E se alguém se perder pelo caminho, cá estaremos para o ajudar a reencontrar o rumo certo.
Penso que o Helder também já não tem dúvidas sobre isto, e que poderia ter, desde o início, avermelhado a frase de Saramago, mas optou por não o fazer por motivos «pedagógicos».
RS

Anónimo disse...

EPÍLOGO
Reparai outra vez na regra «1.2. Como elemento de ligação, pode ter os seguintes significados:
a. de outro modo, de contrário, de outra forma, quando não (na sequência de uma ordem, pedido, conselho, ameaça ou expressão de intenção): “Fala mais alto, senão não te oiço.”»
E na nota: «A finalizar, queria chamar atenção para a situação 1.2. a. Aí a palavra “senão” pode ser substituída por “se não falares mais alto”, o que poderá levar à dúvida: se afinal está lá subentendido um verbo (o verbo falar), por que razão deverá ser “senão” em vez de “se não”, conforme a situação 2.1.?
Acontece que em 1.2.a. não se está a subentender a mesma forma verbal (pessoa, número, tempo) da oração anterior, como acontece em 2.1.2. Essa palavra “senão”, por si só, não forma oração, mesmo que elíptica (não há mais nenhum elemento; segue-se outra ideia: “não te oiço”). O mesmo não acontece em 2.1.2. em que está subentendida a mesma forma verbal, pessoa, tempo, modo e voz.»
E, com efeito, é assim que entendo, sempre escrevi e tenho lido. Por ex:
«— Bons amigos e vizinhos, juremos obedecer-lhe em tudo e por tudo. [...]
— Em tudo, em tudo! - clamou a multidão entusiasmado e sem saber o que clamava.
— Enquanto ele for por nós — continuou o dos escrúpulos — e tratar de nossa fazenda como cumprir...
— Está visto; pudera!
— E senão, não.
— E senão, não.
— Alto lá! — acudiu Rui Vaz» (Garrett, Arco, Porto Editora, 1990, cap. XXV, p. 165.

Agora vede a lição de D’Silvas Filho, Prontuário — Erros Corrigidos de Português, Texto Editores, 3.ª ed., p. 90.
«INCORRECTO: senão, vejamos. CORRECTO: se não, vejamos.»
E em nota (539): «Exemplos de “se” separado de “não”: se conseguires, muito bem; se não, és pateta! [...]»
Ora, segundo aquela regra e prática, para mim as únicas legítimas, correcto é exactamente o contrário. À vous de choisir.
— Montexto

Anónimo disse...

«clamou a multidão entusiasmada», leia-se na última cita de Garrett.

*
Quanto ao mais, «Je reste tout ébahi et tout pantois devant cette explication après coup» (Edmond About, Le Roi des montagnes). É preciso ter topete.
RS, mais uma vez grato pela sua achega. Foi preciosa. Sem ela ficava tudo às escuras. Muito penhorado me deixa. Parabéns, homem.
— Montexto

Anónimo disse...

Deixo aqui uma pequena chamada de atenção: quem mergulhar neste assunto acabará obrigatoriamente por tropeçar (sim, é mesma esta a expressão) com as «regras» do Sr. D'Silvas Filho. O meu conselho é simples: ignorem tudo o que encontrarem escrito por ele sobre esta questão. Grande parte da confusão instalada é por culpa deste indivíduo. Felizmente, a maioria das suas contribuições no Ciberdúvidas, relativas a este assunto, já foram apagadas. Mas os seus Prontuários continuam a fazer estragos.
RS
P.S. Não precisa de me agradecer agora, Montexto, porque sei que já lá chegou (sozinho, como deve ser).

Anónimo disse...

Deixo aqui uma pequena chamada de atenção: quem mergulhar neste assunto acabará obrigatoriamente por tropeçar (sim, é mesma esta a expressão) com as «regras» do Sr. D'Silvas Filho. O meu conselho é simples: ignorem tudo o que encontrarem escrito por ele sobre esta questão. Grande parte da confusão instalada é por culpa deste indivíduo. Felizmente, a maioria das suas contribuições no Ciberdúvidas, relativas a este assunto, já foram apagadas. Mas os seus Prontuários continuam a fazer estragos.
RS
P.S. Não precisa de me agradecer agora, Montexto, porque sei que já lá chegou (sozinho, como deve ser).

Anónimo disse...

P.S. — Acrescente-se ao comentário dos «passos»:
• o passo, ou melhor, o exemplo de Xavier Fernandes — «estuda, “se não” (estudas), serás reprovado» — também está errado, segundo a regra 1.2.a e nota final do colaborador do Ciberdúvidas, em que abundo. E, assim, deve escrever-se: «Estuda, senão serás reprovado», ou ainda melhor: «Estuda; senão, serás reprovado.»
— Mont.

Eduardo disse...

A meu ver:

«senão» - tem o valor de «só», «apenas», «quando não» [=ou até mesmo]

«se não» - condicional negativa, subentendendo-se o verbo da oração anterior.

Saramago não andou bem: «Virão dezenas, se não [se der o caso de virem] centenas de milhares...»

Não é o caso de Vieira, embora ambos os exemplos lidem com números. É claro que neste a construção é «não só... senão [=mas também/ou até mesmo]».

Quanto aos clássicos, nomeadamente Garrett, cautela e caldos de galinha... Reverencio o escritor, o guerreiro, o homem de cultura e política. No entanto, era ele quem queria enxertar «flartar» [de «flirt»] no português? Não era ele quem defendia que se devia escrever «ingano», «ingraçado», «infiar», etc.?

Como todos os grandes, tinha as suas idiossincrasias na escrita. Respeitem-se. Saramago não grafa(va) o diálogo de forma convencional, idem para a pontuação de forma geral. Será lícito invocá-lo daqui a 200 anos para explicar às criancinhas (e não só) as regras de pontuação do diálogo ou de utilização das vírgulas? Não me parece.

Mais ainda: Garrett foi citado a partir de documento autógrafo lavrado pelo punho do próprio, ou o texto foi já arado de estranha mão de editor/revisor?

Como dizia alguém, sou apenas um pigmeu aos ombros de gigantes como Garrett. Respeite-se criticamente o seu legado.

Anónimo disse...

É isso mesmo, caro Eduardo. Eu li o Arco na ed. da Porto Editora, e o tal erro é tão evidente que me vi obrigado a verificar na 1.ª ed., onde realmente consta tal qual. Claro que pode ser lapso de impressão, e em princípio assim o considero. Mas tudo isto já eu disse, homem. E não se assuste, que não é uma nuga destas que abate os créditos do divino Garrett, que estão muito lá em cima, junto dos primeiríssimos. Mas se até o bom Homero dormita, como reza a tradição... Acontece a todos, menos aos que não escrevem.
— Montexto

Eduardo disse...

«Homerus aliquando dormitat», é bem certo, caro Montexto. A minha intervenção sobre Garrett ia justamente nesse sentido.

O que eu "temia" era que se entendesse que eu queria abrir uma qualquer brecha na reputação do homem (daí um tom porventura excessivamente encomiástico) - intento baldado, que nem todos nós juntos (mesmo querendo) conseguiríamos.

Como disse Camilo: «Há selvagens que se entretêm a apedrejar o Sol, mas não consta que o Sol se amofine muito com isso.»