17.3.11

Sentido figurado

«Carapaça» estava bem

      «“Isso não é bom”, comenta, em relação à piscina sem água, José Marques, do Instituto Tecnológico e Nuclear, em Sacavém, e da Faculdade de Ciências de Lisboa. “Se a piscina perdeu a água por causa de brechas, não vão conseguir reparar a fuga. A confirmar-se, a única solução é largar betão por cima desse combustível, por helicóptero ou outros meios, embora vá criar um problema para resolver no futuro”, explica. “Podem fazer um sarcófago para absorver e diminuir os níveis de radiação. É preciso pôr-lhe um material por cima que possa absorver as radiações. O betão é bom para isso, pode ser posto a certa distância e, quando secar, faz uma carapaça”» («Radiação aumenta na central e pode obrigar ao uso de sarcófago de betão», Teresa Firmino, Público, 17.03.2011, p. 2).
      Ainda pensei que este novo uso figurado do vocábulo «sarcófago» se devesse a algum cérebro português (embora, na verdade, «carapaça», que também foi usado, me pareça mais imediatamente perceptível), mas não: na imprensa anglo-saxónica, lê-se que vai ser construído «a concrete sarcophagus». Mas a jornalista, como seria de esperar, não resistiu e usou três vezes a palavra.

[Post 4575]

6 comentários:

Anónimo disse...

Conste que de cabeças portuguesas, em matéria de língua, já nem disparates originais saem. Qualquer erro, irregularidade, estranheza ou singularidade, hoje, procure-se-lhe a causa no ingrês. Só depois, não se encontrando aí por milagre, se buscará alhures.
— Montexto

Paulo Araujo disse...

Uma metáfora, em minha opinião, inadequada, desde a origem inglesa. A etimologia deveria desestimular a acepção.
Carapaça (atenção, Montexto, gauleses à vista!)está bem; mas, que tal o latinogênico 'couraça', por extensão de sentido?

C. Kupo disse...

O jornalista é como criança com brinquedo novo: mal o ganha e já sai a brincar com ele.

Venâncio disse...

«Sarcófago», neste contexto, vem-se usando na nossa imprensa desde o caso de Chernobil. Isto já cria alguma memória. Para mais, é tetricamente expressivo.

Paulo Araujo. disse...

Aqui também se usa, Venâncio. Mas, convenhamos, é quase canibalesco, necrofilamente tétrico.
Visto pelo aspecto etimológico, apenas. Já basta o tamanho da tragédia.

Bic Laranja disse...

É mais expressivo que sinistro. Deixemos a coisa a maturar uns três mil anos para espantar o demónio e ao depois ponha-se a múmia num museu.
Cumpts.