16.2.11

Como se escreve nos jornais

Mexerufada

      «A receita da Coca-Cola foi ontem revelada por um programa de rádio norte-americano e nela podemos encontrar ingredientes que, curiosamente, poderiam fazer parte de qualquer prato da culinária nacional. Além destes, o sabor (até agora) secreto, chamado de “7X”, leva óleos de laranja, limão e noz moscada, além do óleo de néroli, produzido a partir das flores de laranjeira Bergamota» («O segredo da ‘Coca-Cola’ vazou na Internet», Bruno Abreu, Diário de Notícias, 16.02.2011, p. 18).
      No artigo diz-se que John Pemberton foi o inventor da Coca-Cola, uma «bebida alcoólica intelectual e medicinal». (Há-de ser isto.) Na coluna da esquerda, lemos que Pemberton nasceu na Geórgia; na coluna da direita, lê-se duas vezes Jórgia. E mais: John Pemberton «sobreviveu à Guerra Civil Americana com uma adição à morfina». Quanto a «néroli»: é o nome comercial do óleo extraído de flores de laranjeira. Nem todos os dicionários acolhem o vocábulo.

[Post 4442]

26 comentários:

Anónimo disse...

O seu comentário a esta entrada lembrou-me de uma dúvida que tenho há algum tempo - será mais correcto dizer "adição" ou "dependência"? É que "adição" soa demasiado parecido a "addiction", parecendo mesmo ser uma das traduções literais tão em voga na nossa imprensa, mas como estamos numa área especializada, nunca quis tirar conclusões precipitadas.

Helder Guégués disse...

Procure no blogue, há várias entradas sobre essa questão.

C. Kupo disse...

Mas não era "adicção" que se dizia por aí? Passarão os portugueses a grafar "adição" com o AO90?
Quanto ao resto do texto, uma mixórdia de erros. Por que "laranjeira Bergamota"?

R.A. disse...

E por que haveriam os portugueses de dizer "adicção"?
A palavra não existe, logo não tem de se submeter ao AO90... que aliás não é sobre o dizer mas sobre o escrever.

[lá vem bengalada!]

Quanto a usar "adição" por "dependência" ou "vício" é como diz Helder: já se comentou isso no blogue. Poderá ver-se em http://letratura.blogspot.com/search?q=adi%C3%A7%C3%A3o

Anónimo disse...

«Georgia in his mind», diria o Ray Charles, «but so confusing», acrescentaria eu...
- Montexto

C. Kupo disse...

Ora, como não existe? Lá estão meus dois comentos à entrada de 07.02.2010, quando ainda escrevia como Anônimo. Cito exemplo de seu uso em Saramago. E, não me falhando a memória, penso que àquela época conferi no dicionário e lá estava. Então?

C. Kupo disse...

Sei bem que o AO90 trata de escrita, mas a fala influencia em algumas questões, mormente na das consoantes ditas mudas.
Além do mais, faço clara menção ao verbo GRAFAR na sequência, relacionando a fala com a escrita, e minha dúvida sobre se alguma coisa se alteraria ali com o Acordo.

Anónimo disse...

Só uma pequena alfinetada indolor, a bem da língua, precedida de um afago propedêutico.
«Por que haveriam os portugueses de dizer “adicção”?»
O afago: saúdo o emprego da forma «por que», com os elementos separados, ao jeito brasileiro, em interrogativas directas e indirectas, por a reputar mais clara, esclarecedora e desambiguadora.
A alfinetada: em português, como já aproveitei a ocasião de advertir neste blogue em 12.02.2011, «Interjeições», a conjugação perifrástica com o verbo «haver» por auxiliar e equivalente:
. ao condicional, constrói-se com o auxiliar no pretérito imperfeito (e não no condicional) e o verbo principal no infinitivo: «por que haviam os portugueses de dizer “adicção”?», – e não: «por que haveriam os portugueses de dizer “adicção”?»;
. ao futuro, constrói-se com o auxiliar no presente do indicativo (e não no futuro) e o verbo principal no infinitivo: «por que hão-de os portugueses de dizer “adicção”?», – e não: «por que haverão os portugueses de dizer “adicção”?»

É favor ler ou reler, por todos, o padre Vieira, e, para ir direitamente a um lugar repleto destas formas, o «Sermão da Sexagésima».
Tenho dito.
Ah! Só mais uma observação microscópica: a mim ensinaram-me que nesse passo era de regra grafar «Portugueses» com maiúscula. Mas agora dizem-me que há para aí livros escritos de cabo a rabo em minúsculas, inclusive no nome dos autores, que, apesar de assim minúsculos, arrecadam prémios a froixo, de modo que vacilo e reservo, prudente, o meu voto nesta questão momentosa…
- Montexto

Anónimo disse...

«por que hão-de os portugueses dizer», é que é; o segundo «de» está a mais.
- Mont.

R.A. disse...

Tem razão, desculpe! A palavra existe. Encontrei-a no dicionário de Faria (1855) e no Aulete digital: é o antónimo de "dicção". Portanto, o c não é mudo (pelo menos em Portugal) e por isso não cai no AO90. Contudo não encontrei a palavra "adicção", no Houaiss, no Priberam (http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx), na Infopédia (http://www.infopedia.pt/, no da Academia das Ciências de Lisboa, nem no da Sociedade da Língua Portuguesa.
Muito menos na aceção de vício ou dependência.

Paulo Araujo disse...

Houaiss, 2004:
"adicção s.f. (1566-1567 cf. DGóisM) ant. m.q. dicção ¤ etim a- + dicção; ver diz- ¤ par adição(s.f.)"
E a palavra é bastante antiga, a ponto de assim ter sido marcada. Tanto neste, como no Aulete, como sinônimos de dicção, não antônimos.

Paulo Araujo disse...

Complementando: no Aurélio aparece o bife, como se diz em Portugal:
"adicção[Adapt. do ingl. addiction.] Substantivo feminino. 1. Consumo de drogas, medicamentos ou substâncias psicoativas em virtude de dependência físico-química. [Var. menos us.: adição.]"

C. Kupo disse...

Ora, aí está o Aurélio para não me deixar mentir. Também estava lá o Saramago, e estão os 40 mil registros recuperado pelo Google. E, ainda que lá não estivesse, não seria caso de dizer que não existe só por não constar em dicionários; somos mais instruídos do que a malta para assim pensar.
Veja lá em qual você encontra "adultez". Eu não a achei no Houaiss, nem no Aurélio, nem no Aulete digital, nem no Priberam (são os poucos a que tenho acesso), mas a lia à exaustão quando trabalhei com revisão de textos num periódico acadêmico sobre envelhecimento. Estranhei a princípio; tencionei trocá-la por "adultícia", mas não mo deixaram: que o meio científico consagrara aquele empréstimo.
Diremos que não existe ou que é errado? Eu, não. Posso não gostar e julgar desnecessário (a questão da necessidade é sempre muito subjetiva, enfim).

R.A. disse...

Paulo Araújo,
Agradeço a correção. Li ant. por "antónimo" e afinal era "antigo".
Já dei uma bengalada a mim mesmo!
C. Kupo,
Se aceitarmos o que diz o Aurélio, que a palavra adicção existe na língua portuguesa, então julgo que em Portugal a devemos grafar mantendo o c por não ser mudo.
Mas eu acho que o Aurélio não tinha necessidade de a dicionarizar. É uma opinião como outra qualquer...

Anónimo disse...

Vejamos.
• Sim, caro Paulo, «adicção» não é antónimo de «dicção»; é, sim, forma antiga de «dicção»:
— Aulete Digital: «Adicção s. f. // (ant.) dição: “uma palavra ou adicção caldeia, e outra malabar e outra árabe.” (Góis, “Crôn. de D. Manuel”, I, cap. 98 [hoje já veio a pêlo duas vezes].) F. Dicção»;
— Dicionário Etimológico, de J. P. Machado: «Adicção2, s. Vj. dicção».
• «Adicção1, s. Do lat. addictione-, “adjudicação (por sentença do pretor); fixação de dia (para renda); condenação”»: Dicionário Etimológico, de J. P. Machado.
• «Adição1, s. Do lat. additione-, “acção de juntar” (do v. addere). Séc. XIV: “… nom chamou aquele altar pelo nome do senhor tetragramaton simplezmente e asolutamente sem outra adiçom mais chamouo…”, Corte Imperial, p. 126, (C.). O sentido aritmético em 1712, Bluteau»: Ibid.
E neste sentido também acto ou efeito de adir ou ajuntar, e aceitação de herança, como qualquer dicionário dirá, a começar pelo da Porto Editora.
• «Adição2, s. termo jurídico. Do lat. aditione-, “acto de apresentar uma petição, ou de se apresentar por herdeiro” (em Papiniano, Digesto, 50, 17, 77); primitivamente, “acção de ir até”, Séc XVI: “O guado do vento he nosso e recadarsea polla ordenaçam com decraraçam e adiçam que andara o gaado a que nam sair dono…”, Foral Novo da Guarda, de 1-VI-1510, Arq. Hist. De Portugal, I, p. 95»: Ibid.
• Quanto ao emprego de «adicção» por José Saramago, aludido por Kupo, e cuido que referido à adicção de alguém ao cinema, talvez se possa aventar o seguinte:
— ou Saramago usou a palavra no sentido moderno e já dicionarizado de dependência viciosa porventura por influência castelhana, a que foi muito atreito por motivos óbvios, e que polvilha os seus livros;
— ou deu à palavra o sentido mais propriamente derivado de «adicto», tomando-a de algum modo como que pelo respectivo substantivo. Pois «adicto» significa dedicado, inclinado (Porto Ed.), e votado, dedicado, etc: «Cujas relíquias veneramos, por lhe sermos especialmente adictos», Amador Arrais, X, 3, apud Dic. Etim., de J. P. Machado.
Em todo caso, não sinto falta da coisa no sentido forasteiro e bife. Refugue-se.
— Montexto

Paulo Araujo disse...

Não me referi a 'adicto', no sentido de dependente, viciado, porque este é tão comum aqui que quase todos os dicionários o registram.
Lembro apenas que, se bem pensarmos, adicto (e por extensão, adicção), neste sentido atual, não é tão bife assim, pois em latim quer dizer escravizado. Se adicto é bife do inglês, o inglês deve considerar 'addict' como 'caro, carnis' do latim? Há outros casos: a informática nos trouxe de volta o 'deletar', via bife, mas é latim do bom. Imagino o que pensavam os ingleses quando subjugados pelos normandos, por mais de 200 anos, foram bombardeados com tanto latim, via francês; seria 'viande', para eles? Hoje, o vocabulário inglês é quase 60% de origem remota latina, tornando-o uma língua estranhamente germânica.

Paulo Araujo disse...

Prezado C. Kupo,
Não encontrei adultez em qualquer dicionário, português ou brasileiro (e os tenho muitos), embora o termo seja comum no Google. Em 2009, uma tese de Doutoramento, como se diz aí, defendida no Instituto Universitário de Lisboa, está publicada na internet:
'Sociologia da Adultez',
de Filomena Sousa.
Adultícia e adultidade estão dicionarizadas. Existe até 'caduquez', uma das consequências da 'adultez' avançada. Portanto a morfologia aceita-a, sem problemas.

Anónimo disse...

Mas o sentido português de adicto que eu mencionei, supondo-o porventura implícito no exemplo de Saramago, e que está representado no passo de Frei Amador Arrais, não é de escravizado, nem de dependente e muito menos de viciado, mas de devotado, favorável, inclinado, afeiçoado, inclinado.
Sabe-se porém que o confusionismo imperante é de boa boca: aceita tudo, mistura tudo, adultera tudo. Basta-lhe uma qualquer e remota aproximação ou influxo para se lhe baralharem os quadros e conceitos. Distinções - discriminações - não são com ele.
- Mont.

Anónimo disse...

«Como hão-de eles agora justificar o apoio aos manifestantes anti-Ahmadinejad em Teerão depois de terem escrito o que escreveram sobre os manifestantes pacíficos que conduziram ao derrube da ditadura no Cairo?» (Pedro Correia, blogue Albergue Espanhol, hoje).
NB: como hão-de eles justificar (bem), e não: como haverão eles de justificar (mal).
Um bom exemplo da construção perifrástica acima aludida.
— Mont.

Anónimo disse...

Para o Albergue Espanhol, ide por aqui

Paulo Araujo disse...

Concordo com o Montexto; não conhecia em que acepção Saramago usou o termo adicto; concordo também com sua assertiva sobre o que chama de confusionismo; infelizmente, toda fala é polissêmica pela preguiça em buscar o termo novo ou um outro mais adequado para as inovações. Pauto-me sempre pela etimologia de 'corte' /ô/, que vai do galinheiro ao ambiente do rei.

Anónimo disse...

Se bem me lembro, corte de rei pronuncia-se «côrte», e corte de bestas, «córte»: vozes diferentes, com étimos também diferentes...
- Mont.

Paulo Araujo disse...

Salvo sua opinião, cohors, ortis é o étimo remoto de ambas, que perderam o 'h' no latim vulgar; a quadra de tênis, o ambiente real, a cortesia das pessoas educadas, o galinheiro, a pocilga, a tropa, o tribunal, tudo vem do mesmo étimo, mais pela semelhança da forma (quadrilátero) que por outras razões lógicas, seja corte /ô/, seja corte /ó/.

Anónimo disse...

Com efeito, assim também no já aqui citado I. Xavier Fernandes, «Questões de Língua Pátria», Ed. da Revista Ocidente, Lisboa, 1947, vol. II, pp. 65 e 77-78, incluídas nos capítulos «alotropismo, polimorfismo e sincretismo» e «homotropismo», da p. 38 a 83 (por coincidência vou na p. 37), mas distinguindo a pronúncia do «o» nas duas palavras:
«- "Corte" (acto ou efeito de cortar) - é nome pós-verbal, pois se derivou de "cortar" e este, por sua vez, do latim "curtare". (curral ou lugar onde se criam certos animais domésticos) - do latim "cors-cortis", variante reduzida de "cohors-cohortis", cerrado, pátio para gado, etc.
Além de "cors" e "cohrs", houve em latim também uma forma intermediária, "chors", empregada [e não "empregue", note-se, como se escreve para aí agora - com os pés] de preferência em poesia por conveniência métrica. O vocábulo é o mesmo que aparece também com o significado militar de "coorte", décima parte de uma legião entre os antigos Romanos. Note-se ainda que a "corte" (dos porcos, por exemplo) e a "côrte" (dos monarcas) são precisamente a mesma palavra, quanto à etimologia, é claro, embora as costumemos distinguir na pronúncia.»
Portanto, lá riba, onde digo «com étimos também diferentes», leia-se «com o mesmo étimo».
- Montexto

Paulo Araujo disse...

Max-Müller, o famoso sanscritista alemão, um dos pais da Gramática Comparativa, analisou muito bem o étimo de cohors, ortis, em sua Ciência da Linguagem (palestra VII, Sobre os Princípios da Etimologia), pronunciada em Londres, em 1864:
<< Outra palavra moderna, o inglês court, francês cours, italiano corte, leva-nos de volta ao mesmo local e ao mesmo passado distante. Foi nas mesmas colinas do Lácio que cohors ou cors foi primeiramente usada no sentido de ‘obstáculo’, ‘cercado’, ‘curral’. As cohortes, ou divisões do exército romano, eram chamadas pelo mesmo nome; uns tantos soldados constituindo um ‘cercado’, ou ‘curral’. É geralmente suposto que cors restringia-se no latim ao sentido de curral [de gado], e que cohors era sempre usado no sentido militar. Mas não é bem assim. Ovídio (Fasti, iv. 704) usou cohors no sentido de galinheiro: “...: abstulĕrat multas illa cohōrtis aves.”; e em inscrições, cors foi encontrada com o sentido de cohors. A diferença entre as duas palavras era apenas de pronúncia. Como nihil e nil, mihi e mi, nehemo e nemo, prehendo e prendo, assim também cohors declinou, na linguagem dos camponeses, para cors.
Assim, cors, cortis, do significado de ‘cercado’, ‘curral’, passou-se para o latim medieval curtis, e foi usado, como o germânico Hof, em fazendas e castelos construídos pelos colonos romanos nas províncias do império. Essas fazendas transformaram-se nos centros de vilas e cidades e nos modernos nomes como Vraucourt, Graincourt, Liencourt, Magnicourt, Aubignicourt, e se descobriram os antigos nomes Vari curtis, Grani curtis, Leonii curtis, Mani curtis, Albini curtis.
Finalmente, do significado de ‘lugar fortificado’, curtis ascendeu à dignidade de residência real e passou a sinônimo de palácio. Os dois nomes, que começaram no mesmo lugar, juntam-se novamente ao fim de suas longas carreiras.
Agora, se nos dissessem que uma palavra que em sânscrito significa curral de gado assumiu em grego o significado de palácio e ascendeu para derivações como cortês (polido, refinado), cortesia (inclinação do corpo num gesto respeitoso), cortejar (galantear), muita gente ficaria incrédula. É, por conseguinte, de grande utilidade ver com os próprios olhos que, nas línguas modernas, as palavras passam por um refinamento, e assim sentimo-nos menos céticos com o processo similar de atrição, na história das línguas mais antigas do mundo. >>

Anónimo disse...

É assim: coisas da vida das... palavras como das pessoas. Altibaixos estão sempre a suceder, é a roda da fortuna, e «mudança possui tudo» (Bernardim).
Também Diógenes de Sínope parece que foi moedeiro-falso numa primeira fase da vida, e depois tornou-se filósofo. E, como os antigos comparsas lhe exprobrassem o primeiro mester, tornou-lhes: «Eu já fui o que vós ainda sois, mas o que eu sou agora vós nunca o sereis.»
- Mont.