16.3.11

Nomenclatura científica

Agora também em Angola

      «Em latim, o seu nome científico quer dizer Titã de Angola, a que se juntou o apelido Adamastor, numa referência à figura mitológica de Os Lusíadas, que representava os perigos que os portugueses enfrentaram nas viagens de descoberta pela costa africana. O Angolatitan adamastor, o primeiro dinossauro encontrado em Angola, e até agora único, é hoje descrito numa revista científica brasileira como sendo de um género e uma espécie novos para a ciência» («Primeiro dinossauro de Angola recebe o apelido Adamastor», Teresa Firmino, Público, 16.03.2011, p. 14).
      Em latim, e do mais lídimo e pulcro, senhora jornalista. A nomenclatura científica lá está a entrar na compreensão de todos, depois de tantas cincadas e tantas críticas.

[Post 4573]

16 comentários:

Anónimo disse...

Já não sei exactamente quem, mas quase de certeza Botelho de Amaral, desaprovou a construção «como sendo» em casos como o do texto em apreço, decalcada certamente do franciú. Pelo menos os clássicos não lhe sentiram a falta, e, se se omitir o verbo, nada se perde, excepto uma francia, «alfaia, certo, mui escusada», como diria D. Francisco Manuel. Fica a nótula para quem a queira aproveitar...
— Montexto

Anónimo disse...

«francesia», claro, s.f.f.
- Mont.

Venâncio disse...

Por ordem cronológica:

«mas vesivelmente gostam os olhos d'aquelle spectaculo como sendo verdadeiro» (Francisco de Holanda, A pintura antiga).

«e como os gentios tinhão odio aos christãos, disse-lhe o amo que, como sendo elle gentio ella era christã, que tornasse logo atraz» (Luís Fróis, Historia de Japam).

«Pois, como sendo tao avantajado poeta, o não tendes visto?» (Francisco Manuel de Melo, Apólogos dialogais).

«D. Paula tornou aos seus bailes de outro tempo, às suas eternas valsas que faziam pasmar a toda a gente, às mazurcas, que ela metia à cara das sobrinha como sendo a mais graciosa cousa do mundo» (Machado de Assis, Dona Paula).

«E logo uma idéia sulcou-me o espírito, com um brilho de visitação celeste.. Levar à Titi um desses galhos, o mais penugento, o mais espinhoso, como sendo a relíquia fecunda em milagres (Eça de Queirós, A relíquia).

Mais clássicos ainda, Montexto? Ou que tal curar-se duma certa hipocondria gaulesa?

C. Kupo disse...

Concordo. Quem primeiro me chamou a atenção para isso foi uma professora no começo da faculdade, quando avaliava nossas redações (no melhor estilo escolar). Desde então, não consigo deixar de percebê-lo; e evito-o.

Anónimo disse...

1
Caro Kupo, queira dizer-me por gentileza com que concorda, e o que não deixa de perceber, e evita. Peço desculpa, mas não percebi.

2
Caro Venâncio, eu já disse que tenho forcejado por atingir a ataraxia, vou avançando, mas de vez em quando acontece-me alguma que me faz boquiabrir, como agora, e regrido.
Primeiro: pelo visto ainda não reparou, mas eu não tenho nenhuma hipocondria gaulesa (nem espanhola, nem britânica, nem germânica, nem escandinava, nem eslava, nem nipónica, nem chinesa, etc.): leio e tenho de ler até mais em francês do que em português. A «hipocondria» que eu tenha é aos que não escrevem a sua própria língua segundo a índole, o vocabulário e a gramática dessa língua, e a mareiam escusadamente. Segundo: o «sendo» no «como sendo» francesado (de «comme étant»), é uma coisa, e o «como sendo» português lídimo é outra. — O primeiro pode suprimir-se, como suprimia quem conhece ou conhecia a sua língua, pois não faz falta nenhuma: suprima o dos exemplos de Machado e Eça, e as frases só ficam a ganhar. Esse é o giro afrancesado, já exprobrado por Botelho de Amaral no seu dicionário de dificuldades, e não será por acaso que surge em autores do final do séc. XIX. — O segundo não se pode suprimir, só substituir por outra forma do verbo, querendo. Estão neste caso todos os outros passos que citou, de antes do séc. XIX, e até de antes do séc. XVIII, e verdadeiramente exemplares e clássicos.
Mas quando o meu caro Venâncio se deixa encandear com estes cambiantes, suposto que um nadinha acatassolados, eu só digo, como outrora o bom Sá, «perigoso imigo corre, se Deus nos não vale aqui».
— Montexto

Paulo Araujo disse...

Montexto, gostei do 'encandear', Gil Vicente, 1536. No meu Nordeste usa-se muito.

C. Kupo disse...

Concordo com o seu primeiro comento, que era o único visível aqui quando escrevi o meu. Concordo com a desnecessidade de "como sendo" em construções daquelas. E evito o seu uso.

Venâncio disse...

Caro Montexto,

Eu sabia estar a fazer alguma batota nos exemplos 2 e 3 (Fróis e Melo). «Como sendo» significa aí «por ser», sendo «como» uma conjunção.

Julgo que a questão é um pouco outra. Eu também prefiro evitar uma locução que faz, na nossa erudita cabeça, eco de uma francesa. Mas, caramba, Machado de Assis e Eça de Queirós são os nossos maiores prosadores, e isso deveria garantir-nos certo conforto.

A hipocondria transforma a escrita e a expressão num campo de minas. Nós (você e, creio, eu) aguentamos, porque temos algum jogo de anca. Mas há espíritos que nunca mais se endireitam do trauma.

Anónimo disse...

1
Muito bem, caro Kupo. Fico esclarecido, respiro fundo e muito folgo de que ainda haja professoras que ensinem tais pontos de linguagem.

2
Caro Venâncio, também o exemplo de Francisco de Holanda está no mesmo caso dos de Melo e Fróis, ainda que possa parecer menos evidente. Com efeito, aquele «sendo» não pode eclipsar-se, e só pode alternar-se com «como se fosse».
Machado e Eça são enooooormes; a minha vida divide-se em dois períodos: antes e depois da leitura dos Maias aos 16 anos. Mas nada disto entende com questões de linguagem. Todo o escritor, mormente do séc. XVIII em diante, escorrega aqui e ali, haja vista o próprio Camilo e, pasme-se, o mesmíssimo Castilho, mas muitíssimo pouco, o menos possível. Imite-se o que está bem, refugue-se o que o está menos, quando se atentar nele, venha lá de onde vier, e use-o quem o usar, nem que seja o próprio Camões ou Sousa ou Vieira ou Bernardes (já aqui vimos um deslize deste) ou Melo ou Garrett, para ir aos máximos nesta matéria. Oportunidade de errarmos por ignorância e inadvertência não nos hão-de faltar... Pelo menos a mim.
— Montexto

Paulo Araujo disse...

Gostaria de ter a erudição dos que estão comentando o 'como sendo' em Machado e Eça. Não chego nem perto, mas, por isso mesmo, usarei apenas meu ouvido de leigo para opinar. Se eu tirar o 'como' de Machado, a frase perde em eufonia e o sentido fica dúbio: a coisa mais graciosa passa a ser canhestramente a sobrinha e não a(s) mazurca(s); Machado não escorregaria nessa. Já em Eça, se o 'como sendo'
for substituído por uma vírgula, o galho espinhoso continuará, do mesmo jeito, definido como a relíquia fecunda; mas Eça teve suas razões para por o 'como sendo'.
Certamente estou errado, e, construindo este oximoro, gostaria de receber a merecida crítica a um possível (ou provável) absurdo que tenha manifestado.
E, pelo amor de Deus, só usei palavras da nossa língua, tenham vindo de onde vieram.

C. Kupo disse...

Seu absurdo, penso eu, é sugerir a retirada do "como" no passo machadiano, quando o que ali, e no passo queirosiano, o que está a sobrar é tão-somente o "sendo", nada mais. Nada de remover comos nem incluir vírgulas.

Anónimo disse...

Sem ambages: está erradíssimo, caro Paulo Araújo, e a complicar o que é simples. As frases ficam perfeitamente claras e escorreitas sem «sendo»:
• «D. Paula tornou aos seus bailes de outro tempo, às suas eternas valsas que faziam pasmar [“a”, também não está aqui a fazer nada] toda a gente, às mazurcas, que ela metia à cara das sobrinha(s) como a mais graciosa cousa do mundo» (Machado de Assis, «Dona Paula»).
• «E logo uma idéia me sulcou [e não «sulcou-me», porque o advérbio «logo» atrai o pronome; mas estas «atracções» não atraíam, e ainda mal, o nosso cônsul na Havana] o espírito, com um brilho de visitação celeste.. Levar à Titi um desses galhos, o mais penugento, o mais espinhoso, como a relíquia fecunda em milagres (Eça de Queirós, A Relíquia).
Enfim, chovendo no molhado, eu apresento-lhe Eça e Machado como dois dos maiores estilistas da língua portuguesa, mas nunca lhos apresentaria como sendo dois dos maiores estilistas da língua portuguesa.
Sobre isto espero que fiquemos conversados.
— Montexto

Anónimo disse...

Já agora pontuem-se correctamente os seguintes passos:
. «e, como os gentios tinhão odio aos christãos, disse-lhe o amo que, como, sendo elle gentio, ella era christã, que tornasse logo atraz» (Luís Fróis, Historia de Japam).
. «Pois, como, sendo tao avantajado poeta, o não tendes visto?» (Francisco Manuel de Melo, Apólogos dialogais).
- Mont.

Paulo Araujo disse...

Errei quanto a Machado, pensei certo e escrevi torto; de Machado, quis dizer, tirar o 'sendo'. Em Eça, basta manter a vírgula após 'espinhoso'.
Feita a correção em Machado, continuo com a minha opinião. Continuo errado?

Anónimo disse...

Tem razão, Kupo. O seu comento não estava visível quando enviei o meu último.
— Mont.

Anónimo disse...

Caro Paulo, se ainda não está esclarecido, eu desisto. Como dizia o outro, nem mais um soldado para o Ultramar.
— Mont.