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10.1.11

Sobre «sob»

Sob pena de


      Ainda não ficou tudo dito sobre o doido das distopias: «O atirador identificou-se como Jared Lee Loughner, de 22 anos, está sob interrogatório» («Ataque a congressista acende debate sobre o ódio na política», Dulce Furtado, Público, 10.01.2011, p. 10).
      «Sob interrogatório»... Leiam o que João de Araújo Correia escreveu sobre esta preposição na obra A Língua Portuguesa: «Sabe-se, nesta enfermaria, que o celebérrimo sob, não obstante o instinto popular, que o sacode, não deixa de ser preposição portuguesa. Veio do Latim, sem passar pelo estômago do povo, mas, veio… Veio porque seria precisa esta preposição. Tanto, que bons escritores a empregaram. Mas, honra lhes seja, não abusaram dela. Foram, no seu manejo, tão cautelosos como elegantes. Quase se pode dizer que limitaram o sob à expressão abstracta, em frases como as seguintes: sob reserva, sob caução, sob custódia. Fora dessas frases, que se tornaram fixas, e à parte a discreta liberdade de algum estilista, o uso do sob é arriscado. Não abusemos dele, sob pena de o tornarmos ridículo» (Lisboa: Editorial Verbo, p. 75).

[Post 4305]

8.6.10

Sobre preposições

Não sobre, mas no


      «Então notei que ela — o simulacro — tinha rugas finas sobre o rosto. Pequenos pés-de-galinha, e não apenas quando sorria, uma vez que eu os estava a distinguir sem ela sorrir» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 47).
      Embora sobre também signifique «ao longo de; na superfície de», não é a preposição que esperamos ver no contexto. Se fosse uma teia de aranha, sim, poderia estar sobre o rosto. Rugas, pés-de-galinha, estarão no (em + o) rosto. Não me interessa saber como está no original.

[Post 3563]

6.11.09

Uso das preposições

Pára, pára, pára!

      «Depois de nos juntarmos aos dirigentes da nossa delegação, para concluir a nossa apreciação das eleições, que era globalmente positiva, fui para Ramallah, para me reunir com Abbas e com os seus principais conselheiros» (Palestina: Paz sim. Apartheid, não, Jimmy Carter. Tradução de Pedro Garcia Rosado e revisão de Luís Milheiro. Lisboa: Quidnovi, 2007, p. 156). Três vezes a preposição «para» na mesma frase? Quando leio uma frase destas, lembro-me sempre do revisor antibrasileiro. Nunca ele deixaria passar uma frase assim tão desasada. E a pontuação está incorrecta. Proponho: «Depois de nos juntarmos aos dirigentes da nossa delegação para concluir a nossa apreciação das eleições, que era globalmente positiva, fui a uma reunião com Abbas e com os seus principais conselheiros.» O leitor perspicaz já reparou: não se trata, no caso, de uma questão meramente (e já era muito) estilística, mas também gramatical. O segundo para está usado incorrectamente pela preposição a. Sim, convém fazer uma revisão do uso de preposições com os verbos ir e vir, e especificamente do uso de ir para vs. ir a. Esta indica menos permanência; aquela indica mais permanência. Por exemplo: daqui a uns minutos vou ao Mercado de Benfica. Não vou para o Mercado de Benfica, pois não tenho lá banca. Não estou a ver Jimmy Carter, que me parece um homem tão pusilânime, a ir para Ramallah…

[Post 2788]