3.2.11

Onomatopeias

Escutem


      Perguntaram-me, ontem, como se escreve a onomatopeia do som das ambulâncias e dos carros da polícia. Primeiro, deve dizer-se que as principais onomatopeias deviam estar registadas nos dicionários. Depois, bem, depois vê-se com duas grafias precisamente por não estar dicionarizada. No caderno de exercícios de um manual da Língua Portuguesa, Na Ponta da Língua, da Porto Editora, leio «tinóni», mas não vejo necessidade do acento agudo. «O Helder, que partilhava o quarto com o Luís, estava numa sala ao lado do átrio, a ver sites sobre a cidade e a região, e veio ter comigo quando ouviu os carros da polícia, que não paravam com o seu tinoni, tinoni, tinoni... Não era bem assim, mas estou a traduzir o som das ambulâncias galegas para português» (A Caminho de Santiago, Ana Saldanha. Lisboa: Editorial Caminho, 2010, 2.ª ed., pp. 71-72). Em espanhol, mas há-de ser apenas na meseta ibérica, diz-se nino-nino-nino. Talvez Fernando Venâncio saiba como dizem as criancinhas galegas.

[Post 4385]

2.2.11

Como se escreve nos jornais

Está pronunciado


      Já aqui tínhamos visto os bombeiros a confirmarem o óbito de duas vítimas de um acidente. Hoje, temos algo semelhante: «Segundo a acusação, o pessoal de emergência médica pronunciou Carlos Castro como morto às 19.18 e, de acordo com o director do serviço de saúde da cidade, as causas da morte do jornalista foram lesões no pescoço e na cabeça, que resultaram em homicídio, apresentando ainda lesões graves na cara e na parte genital feitas por um saca-rolhas» («Renato Seabra entrou algemado e clamou inocência», Ricardo Durães, Diário de Notícias, 2.02.2011, p. 50). Já temos sorte não ter sido uma empregada de limpeza mexicana a «pronunciar» o óbito. E reparem como as lesões no pescoço e na cabeça resultaram não apenas na morte do «malogrado cronista», como também se lê no Diário de Notícias, mas no homicídio. Não é feito para qualquer homicida.

[Post 4384]

Como se escreve nos jornais

Tão pobres


      «Foi debaixo de enorme expectativa e perante a presença de muitos meios de comunicação social portugueses e norte-americanos — jornalistas tiveram acesso em número ilimitado, mas só sete fotógrafos puderam entrar e o vídeo não foi permitido — que o acusado entrou no quarto 1313 do terceiro piso do Tribunal Criminal de Nova Iorque, localizado no número 60 da Centre Street, regressando de seguida ao Hospital Bellevue, onde se encontra desde 8 de Janeiro, primeiro sob custódia policial e depois detido, e ali deverá ficar até à próxima audiência no tribunal» («Renato Seabra entrou algemado e clamou inocência», Ricardo Durães, Diário de Notícias, 2.02.2011, p. 50).
      Em alguns tribunais portugueses, os processos, ainda artesanalmente cosidos, acumulam-se nas casas de banho. Nos Estados Unidos da América, as audiências decorrem em quartos... O jornalista pensava que só havia rooms nos hotéis, mas não...

[Post 4383]

1.2.11

Tradução

Buracos e tradução


      «Near the fiftteenth green», dizia, conciso, sem floreados, o original. O tradutor, porém, fez questão de «aprimorar»: «Em dada altura, devido ao facto de o Sr. Hart ter perdido uma bola num tracto de erva perto do décimo quinto buraco, ocorreu uma coisa bem curiosa.» «Tracto de erva», de qualquer modo, causa-me alguns engulhos. Tracto é pedaço de terreno; extensão; região; jeira. E, depois, e numa acepção mais usada, o tracto urinário, o tracto digestivo..., isto é, conjunto de canais, cordões, vias, feixes ou órgãos que pertencem a um mesmo sistema. Tracto ou tufo, é para arrasar cerce.

[Post 4382]

Verbo «haver»

Até os Cairotas entenderiam


      «Na sequência dos confrontos que começaram a 25 de Janeiro no Egipto e que já causaram mais de 125 mortos e milhares de feridos, o Governo português decidiu enviar um avião para retirar os cidadãos lusos do país e apelou ontem ao contacto destes. O primeiro voo parte hoje às 10h30 do Cairo com destino a Lisboa e irá transportar 70 portugueses. Contudo podem haver mais viagens, disse o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas» («Primeiro voo com cidadãos lusos abandona hoje o Cairo», Patrícia Susano Ferreira, Destak, 1.02.2011, p. 5).
      É aconselhável voltar, de vez em quando, a referir aqui estes erros, que conspurcam muitos jornais, revistas e mesmo, como já tivemos oportunidade de apontar mais de uma vez, livros. Até para não dar o sinal, errado, de que tudo está melhor. Pergunto-me o que há de tão complexo para que os jornalistas não percebam o que é a impessoalidade do verbo haver no sentido de existir.
      Quanto a «lusos» em vez de «portugueses», moda lançada e mantida pelos jornais gratuitos, é simplesmente execrável.

[Post 4381]