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6.5.11

Tradução

Meia tradução

      Para um trabalho, tive de pesquisar informação relacionada com a evolução do Homem. Abundam, é claro, as traduções. E vê-se logo que são traduções. O original fala de «Olduvai Gorge»? Na tradução fica «Olduvai Gorge»! «Em 1962, Louis Leakey, o decano dos caçadores de fósseis de hominídeos, encontrou os restos de um hominídeo que usava instrumentos quando escavava em Olduvai Gorge, na planície Serengeti, na Tanzânia, que identificou como a nova espécie Homo habilis («homem hábil»), com cerca de 1,8 milhões de anos» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 56).
      Não é garganta, ou desfiladeiro, ou abertura, ou aberteira, ou portela — é Gorge! (E não é planície do Serengeti?) O original fala em «Gorham’s Cave»? Na tradução fica (mas não li ainda na tradução citada) «Gorham Cave»!



[Post 4752]

25.4.11

Tradução do inglês

Escrever é cortar palavras

      Na última Puntycoma, Juan Luis Conde, a propósito da perda da sensibilidade no uso dos pronomes por influência da exposição à língua inglesa, aduz um exemplo interessante. Nos mapas urbanos com que os transeuntes topam nas ruas de Madrid (e de Lisboa, para o nosso caso), encontrarão uma localização marcada com um ponto vermelho (ou um círculo) e a legenda «Você está aqui». Conclui Juan Luis Conde: «De nuevo ese texto delata una erosión en la capacidad para percibir diferencias en la posición de las palabras, causada por seguidismo perruno de mapas urbanos originales en inglés, donde el pronombre precede inexcusablemente al verbo en las oraciones enunciativas. Pero, no, en castellano no es lo mismo “Usted está aquí” que “Está usted aquí”». Para o que nos interessa, a simples omissão do pronome resolvia a questão. Pior é a superabundância, nada consentânea com o génio da língua portuguesa, de pronomes possessivos nas traduções, numa cópia servil e impensada do inglês. Disso também se ocupa Juan Luis Conde e já foquei aqui no Assim Mesmo. Não é raro ter de eliminar centenas — leu bem, centenas — de pronomes possessivos nas traduções que revejo.


[Post 4725]


21.4.11

«Low tea»/«high tea»

E um pouco de Everclear

      Astronauta, cosmonauta, taiconauta... A próxima designação para o mesmo virá da Índia? O quê?! O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista o termo «taiconauta»?! Mas não venho aqui apenas por isto.
      Embora muitos ingleses não saibam distinguir low tea de high tea, nós sabemos. E como se vê traduzido? «It wasn’t an ordinary afternoon tea, it was a high tea.» «Não se tratava de uma merenda vulgar, era quase uma merenda-jantar» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 37). Sim, merenda-jantar: «Um paio apetitoso e rosado. Um empadão de carne. Manteiga em pratos de cristal. Uma leiteira azul cheia de leite. Mel. Uma compota caseira de morangos. Pastelinhos. Torta de frutas. Ovos. Chá, cacau e chocolate» (idem, ibidem). Hoje em dia, contudo, já poucos usam o termo «merenda».

[Post 4712]

«White as a sheet»

Há de tudo

      «She’s white as a sheet...» «Ela está branca como a cal…» Mas já uma vez vi a expressão traduzida por «branca como uma folha»... Ah, pois. E a expressão, variante daquela, «branco como a cal da parede» será mais encontrável no Alentejo, como se sugere pela sua inclusão na obra A Linguagem Popular do Baixo Alentejo e o Dialecto Barranquenhode Manuel Joaquim Delgado (Beja: Assembleia Distrital de Beja, 1983, p. 132)?
      «O Carvalho sabia pior do que isso: um amigo dele, o Pinheiro, não o magro, o outro, o picado das bexigas, que tinha estado escondido num curral de porcos seis horas. Ia morrendo. E quando via um porco punha-se branco como a cal» (Alves & Ca., Eça de Queirós. Lisboa: INCM, 1994, p. 114).

[Post 4711]

20.4.11

«Wrap sb (up) in cotton wool»

Mal sabido

      «Got to be wrapped in cotton wool and all that, sir», lia-se no original. Parecia mesmo um dos tais holismos de que já aqui falámos, e por isso o tradutor verteu assim: «Tem de ser tratado com paninhos quentes e tudo isso, senhor.» Mas não: wrap sb (up) in cotton wool é trazer ou andar com alguém nas palminhas, ou seja, apaparicar, tratar com meiguice, com muito carinho (como se lê na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira). Eça de Queirós usou muito a expressão. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas regista «trazer (alguém) nas palmas». Vai um exemplo de um coetâneo, D. João de Castro: «— Não sei lá de isso! — exclamou. — O caso é que o trazem nas palminhas, lá por Lisboa. Até querem (mas isto é segredo...) até querem fazel-o barão!» (Morte de Homem. Lisboa: Empreza da História de Portugal — Sociedade Editora, 1900, p. 7).
     Os paninhos quentes fazem parte de outra expressão: não estar com paninhos quentes, ou seja, não ter contemplações, não transigir. A lã enganou o tradutor.

[Post 4709]


18.4.11

Como se escreve nos jornais

Estamos bem, estamos

      «“Há ali muitas mulheres solteiras e sozinhas, rodeadas de homens atraentes. Eles exercitam, são giros e criminais, o que é também apelativo”, disse Yolanda [Dickinson], que publicou agora um livro sobre estas histórias, intitulado Taboo» («Ex-guarda relata noites de sexo na prisão», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 58).
      E porque não completamente em inglês? «They’re working out. They’re attractive...They’re criminals, so they have a cunning way of approaching you.»

[Post 4699]

17.4.11

Léxico: «eurovinheta»

Não é connosco

      Com a Directiva 2006/38/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 17 de Maio de 2006, relativa à aplicação de imposições aos veículos pesados de mercadorias pela utilização de certas infra-estruturas europeias, foi criada a chamada — em francês e em inglês — eurovignette. É ver aí pelos jornais a palavra adaptada: eurovinheta. Como era previsível, por vezes aparece com hífen, «euro-vinheta». Os espanhóis na Comissão Europeia afirmam que «euroviñeta», como se vai lendo na imprensa espanhola, é um decalque incorrecto, já que altera o significado habitual em espanhol (pequena gravura para ornato ou ilustração de um livro e cada um dos rectângulos em que se divide uma banda desenhada), e é desnecessário, pois que em espanhol há outras opções, como adhesivo ou pegatina. O caso análogo que encontram refere-se à inspecção periódica obrigatória (IPO), cujo comprovativo tem o nome de «distintivo». Propõem, por isso, eurodistintivo.
      Não temos o mesmo problema. Para já, e como já referi, na imprensa apenas se usa eurovinheta. Quanto a casos análogos, temos a vinheta dos passes sociais (acepção que o Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora esqueceu) e o selo inspecção periódica obrigatória (acepção esquecida de todos os dicionários).

[Post 4694]

13.4.11

Tradução: «to question»

É só pensar

      Senhora tradutora, já é a terceira vez que traduz o verbo to question por questionar, e o contexto é sempre o mesmo: a polícia a submeter a interrogatório um suspeito. «De acordo com as leis contra o crime de terrorismo, é-nos permitida a utilização de técnicas optimizadas quando questionamos suspeitos, e isso é perfeitamente adequado.» «Questioning suspects». Então não é interrogar que se diz?

[Post 4685]

7.4.11

Tradução: «chaps»

Safa!

      No original lê-se que a miúda tinha ido à festa «her hair in braids, chaps hugging her legs, a huge cowboy hat». Na tradução, ficou — homessa! — «chaps». Então não são os nossos safões, as meias calças largas, de pele, usadas sobretudo pelos pastores? E mais à frente a protagonista comprou bolbos de tulipas e de jacintos e agora vai abrir «trenches» para os plantar. Na tradução: «trincheiras»! É bem como escreveu Vasco Botelho de Amaral: «Os analfabetos continuam a fazer a língua, e os semianalfabetos continuam a desfazê-la» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 45).


[Post 4665]

6.4.11

Léxico: «esporão»

Galináceos e canídeos

      Estão a ver aquele dedinho rudimentar nas patas dos cães? Que nome se lhe dá? Pois é, ninguém ou quase ninguém sabe, pela sondagem que acabei de fazer aqui. Há quem lhe dê o nome de esporão, talvez por analogia com a saliência córnea no tarso de alguns machos galináceos, também chamada espora. Quanto a acepções do âmbito da zoologia, esta é mesmo a única que os dicionários registam. Cheguei a esta reflexão porque acabei de encontrar o termo inglês «dewclaw», referido a um cão, traduzido por «esporão».

[Post 4660]

Tradução

Jamais

      Outra forma irritante de traduzir. «What’s your best guess?» Canja: «Qual a sua melhor aposta?» Só uma pergunta: algum português fala desta maneira enviesada? Tenham mas é juízo.

[Post 4658]


2.4.11

Léxico: «tirolesa»

Deslizemos

      Corro o risco de alguém em Chimoio se rir, mas eu sou corajoso: até ontem, não conhecia a palavra «tirolesa» na acepção de técnica usada para transpor equipamentos ou pessoas entre um ponto e outro. Confesso. Apareceu-me aqui numa tradução do inglês para verter o termo zip line («a cable suspended above an incline to which a pulley and harness are attached for a rider», lê-se no Merriam-Webster). Não estava só nem mal acompanhado: nenhum dicionário regista o vocábulo nesta acepção. Para todos, «tirolesa» só pode ser uma de três coisas: feminino de «tirolês», canção do Tirol ou dança do Tirol. Não vou rejeitar esta forma tão expressiva de traduzir zip line.

[Post 4647]

30.3.11

«Ferida assanhada»

Todos juntos

      É sempre uma surpresa ver que há formas semelhantes de dizer as coisas em línguas diferentes, quase holismos. Seja isto: «There’s just one blister, but it’s very red and angry.» «É só uma bolha, mas é muito vermelha e assanhada.» Não está em todos os dicionários recentes, mas lá o encontramos no venerando Morais: «“Ferida assanhada”, feita peyor, mais dorida.» E no Grande Dicionário de Sinônimos e Antônimos de Osmar Barbosa (Rio de Janeiro: Ediouro, 2000, p. 70) também está registado no verbete «assanhado»: «Inflamado, agravado, exacerbado: Ferida assanhadaOs diccionarios estam cada vez peyores...


[Post 4634]

Sobre «pallbearer», de novo

Assim será

      Decerto que ainda se lembram de aqui ter referido como traduzir o inglês pallbearer. Pois hoje surgiu-me traduzida como «carregador de caixão». É como diz Francisco Agarez: só uma locução.
      «Não se trata de gente POBRE ou MISERÁVEL, nem de carregadores de caixão de defunto...» (A Linguagem dos Esportes de Massa e a Gíria no Futebol, Luiz Cesar Saraiva Feijó. Rio de Janeiro: UERJ, 1994, p. 105). «A mãe do falecido, emocionada, convida-o para carregar o caixão (informação cultural: o pallbearer do título original é isso, carregador de caixão)» (Veja, 45-48, Abril de 1996, p. 51).

[Post 4633]


26.3.11

Tradução: «hey»

Heu!

      «‘Hey!’ said Jack, ‘why didn’t you speak English before? I’m English!» (The Circus of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 127). «— Eh! — exclamou. — Porque não falaste, [sic] inglês quando te encontrei? Eu sou inglês!» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 120).
      Quantos tradutores portugueses saberão que «hei» é apenas forma verbal? Não muitos, a avaliar pela forma como vertem a interjeição inglesa hey. Não é improvável que o étimo de «hey» e de «eh» seja o mesmo, o latino eho. Se os tradutores se dessem ao trabalho de ler as obras revistas, por vezes aprendiam algo. Enfim, que se enxergassem. (A propósito, o verbete deste verbo precisa de uma profunda reformulação no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Não têm de quê.) Ainda na semana passada, li isto: «“Hey, Charlie,” Alex says, “this is my mom.”» Tradução? «— Hei, Charlie — diz o Alex —, esta é a minha mãe.»


[Post 4618]

Tradução: «pocket money»

Dinheiro para despesas

      «— Disseram-me que deveria ter dinheiro para despesas — insistiu Gustavo. — O meu tio deu-mo. É meu» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 35). «‘They said I could have pocket money,’ said Gussy, obstinately. ‘My uncle gave it to me. It is mine’» (The Circus of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 32).
      Já aqui tínhamos visto como se deve traduzir as expressões pocket money e argent de poche. Por essa altura, tive de demonstrar a um editor que traduzir argent de poche por «dinheiro de bolso» era servilismo que se devia evitar. Valha a verdade que verter como aqui se fez não me parece muito claro.


[Post 4615]

23.3.11

Tradução: «mudroom»

Levantados da lama

      «Átrio e vestíbulo são nobilíssimos termos de arquitectura romana, mas deixaram de servir casas ricas. Estas agora não se contentam com menos do que ter um hall — que é a mesma coisa que átrio, e até pode ser menos, porque a expressão francesa les halles vem de idêntica origem e significa pouco mais ou menos o mesmo que a nossa Praça da Figueira. No entanto, o dono da casa que tem hall mostra-nos o hall com tanto orgulho, e aspira com tanta fôrça o h do hall, que até faz vento e a gente espirra e se constipa» («Esquisitices da nossa fala», in Língua e Má Língua. Lisboa: Livraria Bertrand, 1944, p. 214).
      Mais uma vez aqui foco esta questão, pois há sempre novos tradutores a chegar. Serve ainda de pretexto para referir que ontem vi a palavra «mudroom» traduzida por «vestíbulo». Grande coisa, dizem? É que já a vira traduzida, num livro brasileiro, por «sala de lama»...


[Post 4601]

22.3.11

Tradução: «prime rib»

Entrecôte e purée?

      Sempre me fez espécie que, numa tradução para português, se usasse um termo ou uma expressão de uma terceira língua. Tenho aqui um exemplo à minha frente. Numa festa, o jantar foi, diz o original inglês, «prime rib and mashed potatoes». Tradução: «jantar de entrecôte e puré de batata». Ficamos com o puré (o purée nacionalizado, bem sei). Mas entrecôte... Então não existe na língua portuguesa um termo ou expressão equivalente? Aqui vejo que «bife alto» traduz bem a locução; ali, para Brasileiros, assegura-se que é «capa de filé». A minha pergunta é: a palavra «entrecosto» não traduz bem o conceito anglo-saxónico? Ou «costeleta»?

[Post 4600]

21.3.11

Tradução: «gangway»

Todos a bordo

      «— Anda por aí — informou Filipe. — Creio que em breve estaremos a navegar. Repara, estão a retirar as pontes. Vamos já partir!» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 21). «Os garotos riram-se ao ver um rapaz alto e desengonçado subir a prancha» (idem, ibidem, p. 42).
      Tanto num caso como no outro, no original foi empregada a mesma palavra: gangway. Aliás, até já vi este termo ser traduzido de outra forma: escada do costado (como se lê em A História do Mundo em 10 Capítulos e ½, Julian Barnes. Tradução de José Vieira de Lima. Lisboa: Quetzal, 1990). Agora a questão é: são sinónimas estas três formas, ponte, prancha e escada do costado, de traduzir o vocábulo inglês? Paulo Araujo, o nosso homem da Marinha, poderá dar uma achega. E podemos complicar se indagarmos da forma de traduzir as expressões inglesas quarter ladder ou stern ladder.

[Post 4594]

20.3.11

Tradução: «accent»

Pronúncia peculiar

      «— Agradeço-lhe sinceramente, minha senhora — disse com um acento estrangeiro» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 19). «Passaram dois homens, que falavam com o peculiar sotaque dos naturais daquela região. Um deles era o que tinha informado Filipe acerca dos texugos. Cumprimentou-o, acenando com um braço» (idem, ibidem, p. 77). No primeiro caso, lemos no original «foreign accent»; no segundo, «broad accent of the countryside».
      Já tenho lido e ouvido a prevenção de que se não deve traduzir o inglês accent por «acento». Contudo, se é apenas para evitar que pareça má tradução, não é de seguir. Accent é «acento» e é «sotaque», e «acento» é «sotaque».

[Post 4588]