19.3.10

Aportuguesamentos

Falta de memória


      «Em Battersea, encontrei a cratera feita pelo V-2. O final de uma fila de casas geminadas desaparecido, uma vedação de tábuas à volta do enorme buraco. Deve ter sido súbito. O foguete a cair silenciosamente do céu enquanto as duas caminhavam, de mãos dadas, em direcção a casa, vindas da escola. Apenas o flache, o barulho e depois o oblívio» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 271).
      Ferreira Fernando tinha razão, e eu reconheci-o na altura: V-2 é do género feminino. Vergeltungswaffe 2 (arma de retaliação 2). O aportuguesamento de flash é assustador — pelo menos até nos habituarmos. Flache. Há propostas do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa que só tiveram eco em meia dúzia de pessoas. Parece-me ser o caso de flache. Mas é de saudar. Quanto ao uso de palavras aportuguesadas nesta obra, é, não apenas abundante, mas incongruente. Se se lê sempre uísque (e há editoras, já aqui o escrevi uma vez, que distribuem a revisores e tradutores algumas regras, e entre elas a proibição de usar o vocábulo «uísque») e coquetel, ora se lê Cornwall ora Cornualha. Se se lê Reiquiavique, também se lê Bahamas. Se se lê búnquer, também se pode ler bunker. Se... Depois de se ter tomado a decisão de escrever búnquer (na página 276), como é que menos de vinte páginas à frente (na página 293) se escreve, e com referência ao mesmo espaço, bunker? Não compreendo.
      Quanto a fila de casas geminadas,aqui vimos que não é a melhor tradução. E também já falámos de oblívio.

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3 comentários:

Ana disse...

Segui a sua ligação para as "terraced houses" e, sem querer dar aqui lições de tradução, diria que terraced houses (ou row houses) são casas em banda. Já as casas geminadas seriam semidetached houses. Há muitos anos que faço traduções de arquitectura (para além de ter trabalhado mais de 15 anos com arquitectos)e estas conclusões tirei-as, não porque eles (os arquitectos) soubessem inglês, mas porque entre o que me diziam e as imagens encontradas na Internet a coisa batia certa (e confirmada pelos ditos profissionais).
Quanto ao flache (e já agora ao novo acordo ortográfico) a única coisa que me apetece dizer é: é feio; assim com é feio projeto, ação, objeto, etc.. E não sei se me vou habituar...

R.A. disse...

Ana,
é tudo uma questão de hábito!
Antes de nós, houve outros a quem deve ter custado, e até acharam feio, escrever "farmácia" sem ph. Olhe, por exemplo, como escrevia o Eça n'Os Maias: «Este inutil pardieiro (como lhe chamava Villaça Junior, agora por morte de seu pae administrador dos Maias) só veio a servir, nos fins de 1870, para lá se arrecadarem as mobilias e as louças provenientes do palacete de familia em Bemfica, morada quasi historica, que, depois de andar annos em praça, fôra então comprada por um commendador brazileiro
Diga lá: qual é mais feio? o modo como ele escrevia, o modo como se passou a escrever em 1945 ou como escreverá depois adotar o AO90?
Repare: o Acordo já tem 10 anos!!!

Paulo Araujo disse...

Bons tempos em que não se julgava necessário usar tanta acentuação...