Mostrar mensagens com a etiqueta Aportuguesamento. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Aportuguesamento. Mostrar todas as mensagens

6.5.11

«Troika/tróica»

Ou «tróica», melhor

      «A troika chateia. Porque havemos nós de aturar esta palavra para falar de três anónimos mandões que não conhecemos nem escolhemos de parte nenhuma, quando tem tanta hora literária? Por exemplo, na genial primeira parte das Almas Mortas de Gogol, nomeando os três cavalos que puxam a carruagem do putredinoso Chichikov?» («Qual troika», Miguel Esteves Cardoso, Público, 6.05.2011, p. 45).
      Chateia mesmo. E, tanto quanto sei, nem sequer um jornal ou revista escreveu «tróica» (ou «troica», vá, que o Acordo Ortográfico de 1990 anda por aí). É nestas pequenas coisas que se nota a força da maioria — e dos maus conselhos. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, lê-se: «tróica ⇒troika». Está tudo dito.

[Post 4749]

30.3.11

Ortografia: «strogonoff»

Língua de molho

      Caro M. L.: é com minúscula: «strogonoff». Repare, porém, como todos os dicionários registam (o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz que vem do inglês; o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que é do francês) que o étimo é stroganoff. Ora, deviam registar que é strogonoff (ou strogonov), ou os leitores menos desatentos vão achar pouco congruente. Este último dicionário e o Dicionário Houaiss acolhem também o aportuguesamento: estrogonofe.

[Post 4631]


28.3.11

Ortografia: «cantábile»

Língua operática¹

      Vasco Graça Moura e João Botelho estrearam na semana passada uma ópera, Banksters, no São Carlos. Os excertos da ópera surpreenderam-me. Ópera em português! Disse a determinada altura João Botelho no programa Câmara Clara: «A língua portuguesa é cantábile.» Cantábile ou cantante, ou seja, próprio para canto. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista somente o substantivo «cantabile», movimento não tão lento como o adágio. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, embora registe «cantabile» como adjectivo, é referente ao andamento menos lento que o adágio. Para os responsáveis destes dois dicionários: se registam «adágio» e não «adagio» para o trecho musical lento, porque não optam pelo aportuguesamento «cantábile»?

[Post 4624]



¹ Estive tentado a escrever «operística», mas temi que o revisor antibrasileiro me lesse. Lembram-se do «clubístico»?

24.3.11

Léxico: «nhoque»

Falemos de massa

      Posso ter-me esquecido entretanto, mas creio que hoje foi a primeira vez que li num livro — não num dicionário — o vocábulo «nhoque». Estranho, eu sei. A começar por a nossa língua ter escassas dezenas de vocábulos começados por nh, nenhum de uso corrente. O mais usado (?) será, em Portugal, «nhanha», e nem todos os dicionários o registam.
      Mais uma vez, foi numa tradução que o vi. Num restaurante italiano, uma personagem come «a plate of gnocchi» (não havia entrecôte, aposto). Gnocchi, já sabem, a massa feita à base de batata e farinha de trigo, típica da cozinha italiana, dividida em pequenas porções arredondadas. No singular é gnocco, «tocchetto di pasta fatta con farina e patate, a forma di globo ovoidale e incavato, che si lessa e si condisce con burro o con sugo».

[Post 4603]

8.3.11

«Curgete»/courgette»

Eh lá!

      «No Grande Dicionário (da) Língua Portuguesa da Porto Editora, a única autoridade em que se deve confiar, há duas palavras que não constam: courgette e abobrinha. […] Para que não se pense que a Porto Editora é antifrancesa, registe-se já que inclui e define coup de foudre e coup de théâtre. Courgette é que não — e com razão. […] Cabe-nos escolher o nome para esta planta comestível. A minha conclusão, depois de muito pensar, é que devemos seguir o exemplo francês e dizermos e escrevermos “curjetes”» («Queridas gorjetas», Miguel Esteves Cardoso, Público, 8.03.2011, p. 39).
      Também eu, hoje de manhã, estive mais de uma hora a escrever um texto para o blogue, e no fim concluí que tinha enveredado por um caminho pouco promissor. Apaguei-o e só fiquei um pouco enxofrado até ao pequeno-almoço. Ah, mas estou a divagar... Caro Miguel, creio que todos os dicionários da língua portuguesa da Porto Editora («a única autoridade em que se deve confiar»?!) registam «curgete», pelo que podemos bem dispensar as courgettes.

[Post 4542]

24.2.11

«Guichet/guichê/guiché»

Senha 27

      «Seriam umas dez horas quando estranhei a ausência de acção. “Mas este processo não é aqui!”, respondeu-me a menina do guichet, abanando a cabeça enquanto me apontava no papel: era na 2.ª Secção do 3.º Juízo e não a [sic] 3.ª Secção do 2.º Juízo» («A cafrealização de Vara e outras histórias», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 24.02.2011, p. 7).
      Eu pensava que no Diário de Notícias se escrevia «guiché» (ou, cá está a dupla grafia, «guichê»). Isto para quem não quer usar um vocábulo bem português, como postigo ou portinhola. (Para certos falantes — no Alentejo? —, «portinhola» é sobretudo a braguilha.) No século XIX, abundavam na literatura as portinholas — das carruagens.

[Post 4486]


19.2.11

«Lord/lorde»

Esotérico

      «Paul Johnson enumera outros exemplos. O lorde trabalhista Clifford Allen, ex-director do jornal Daily Herald, afirmou-se “convencido” de que Hitler alimentava “um desejo genuíno de paz”. O arcebispo Temple, de York, elogiou o “grande contributo” do chanceler para “a paz e a segurança”. Lord Lothian, futuro embaixador britânico nos EUA, foi ao ponto de invocar o Tratado de Versalhes imposto aos alemães em 1919 para justificar as perseguições aos judeus» («A diferença entre um estadista e um político», Pedro Correia, «DN Gente»/Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 7).
      Deixe ver se percebo, caro Pedro Correia: se aparece isolado, é aportuguesado, «lorde»; se aparece junto de um nome próprio, é «lord». É isto? Critério tão estranho...

[Post 4463]

«Juancarlista/joão-carlista»

Menos mal

      «A monarquia no nosso país é atípica. Nós não nos identificamos propriamente com o regime monárquico. Identificamo-nos com Juan Carlos, sentimos que ele é um de nós. Ele cai e levanta-se, tropeça e pragueja. Somos juancarlistas, não monárquicos. Quando eu nasci, não havia rei, ensinavam-nos que eles eram bêbedos, corruptos, ladrões...» («“Há coisas grotescas na família real”», Joana Emídio Marques, «DN Gente»/Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 92).
      Ou, se quisermos dizê-lo em português (e devemos), como o leitor Franco e Silva já nos lembrou aqui uma vez, joão-carlistas.

[Post 4461]

1.1.11

Sobre «miso»

Lembrei-me agora


      みそ, estão a ver?, não consta (transliterado, sim) dos dicionários da língua portuguesa. Oh, que pena... Ia jurar que... Miso, a sopa tradicional japonesa. Com os dicionários a abrirem os braços a sushi (e porque não está já aportuguesado em «suxi», por exemplo? Deve ser por causa dos turistas...), não me parecia mal que estivesse já nos nossos dicionários. Até porque é mais semelhante ao português. Os Espanhóis têm o vocábulo «miso», mas é uma interjeição usada para chamar os bichanos. E nós, como os chamamos? E como mandamos parar um cavalo? Uô? (Se o cavalo for inglês, é melhor dizer-se whoa.)

[Post 4263]

25.12.10

Adaptação de estrangeirismos

Imagem tirada daqui

Paratonnerre


      A propósito da adaptação de estrangeirismos, e concretamente do galicismo abat-jour, de que o mesmíssimo Garrett também se ocupou, Vasco Botelho de Amaral mostrou, no seu Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, ter seguido a lição camiliana de aprender no «dicionário inédito do povo». Assim, certa vez, ouviu de um gaiato (palavra, infelizmente, pouco usada hoje em dia) «apara-raios». E eu também já a ouvi da boca de gente simples. «Ora», justifica Vasco Botelho de Amaral, «o gaiato que disse apara-raios desviou-se do falar geral e talvez incurável (que adoptou pára-raios), mas deu-me lição de aportuguesamento analógico admirável. Na verdade, se os pára-raios aparam os raios que atraem, que melhor aportuguesamento haveria do que este de apara-raios, com semelhança fonética e de esplêndida precisão descritiva do aparelho?» (Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 15).

[Post 4226]

22.11.10

Léxico: «sique»

Imagem tirada daqui

É ao contrário


      «Os oficiais ingleses do exército indiano do vice-rei também pertenciam à classe média, embora os seus sipaios fossem recrutados nas casas militares do império: os rajputes, os siques, os muçulmanos do Punjabe» (Uma Introdução à Vida de Churchill, John Keegan. Tradução de Jorge Palinhos e revisão de Paulo Salgado Moreira. Lisboa: Tinta-da-China, 2007, p. 46).
      Esperamos mais estas adaptações na imprensa, mas é ao contrário: «Ontem em Amritsar, cidade indiana do estado do Punjabe e centro da religião Sikh, o dia foi de grande festa. Afinal de contas celebrou-se o 541º aniversário de Nanak Dev, o fundador e primeiro guru da religião Sikh. Nas imediações do famoso Templo Dourado, completamente iluminado para as cerimónias, o clima foi de celebração e oração, onde nem sequer faltou o fogo-de-artifício. Estima-se que actualmente existam cerca de 26 milhões de fiéis Sikh» («Fiéis da religião Sikh celebram aniversário do primeiro guru», Metro, 22.11.2010, p. 1).

[Post 4106]

1.11.10

«À primeira face»

Alatinado


      «E para que lhe não desagrade à primeira face a leitura, parecendo-lhe ter falta, pareceu-me bem mostrar-lhe aqui a ordem de proceder nesta obra» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 69). Agora dizemos à primeira vista, mas aqui ainda era a tradução mais próxima da locução latina prima facie.

[Post 4030]

19.10.10

Nome de instituições

Então expliquem-me


      São nomes próprios, sim senhor, mas é tradição, e respeitável, traduzir a designação de estabelecimentos de ensino estrangeiros — se for possível. Assim, para mim e para milhões de falantes de português, José Sócrates discursou na Universidade de Columbia (ou mesmo Colúmbia), e não na Columbia University. É por isso com estranheza que vejo que J.-M. Nobre-Correia, que tem uma crónica sobre os meios de comunicação social no Diário de Notícias (que, de resto, gosto muito de ler), se diga professor na «Université Libre de Bruxelles». Então escrever que era na Universidade Livre de Bruxelas redundava em menos precisão ou desprestígio? Não percebo.

[Post 3984]

30.9.10

Abdalá e aiatola

Assim é que é


      «“A Rainha passará duas noites no hospital e deverá regressar à Jordânia ainda no decorrer desta semana”, indica o texto. A Rainha da Jordânia acompanhou o Rei Abdalá II na sua visita a Nova Iorque, onde efectuou uma intervenção nas Nações Unidas» («Rainha Rania da Jordânia foi operada», Diário de Notícias, 28.09.2010, p. 55).
      Deve ser dos poucos jornais portugueses que dão este ar aportuguesado ao nome do rei Abdullah II ibn Al Hussein. Muito mais ridículo era (ou faziam crer que era) aportuguesar ayatollah, e eis que actualmente já se vai vendo por todo o lado aiatola (que, ó descuido!, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa reconhece mas não regista). Tempos ominosos esses, em que se acreditava que o título era nome próprio.

[Post 3924]

22.9.10

«Tequila» e outras coisas

Para rir


      Ao ler no Público uma notícia relativa ao encontro entre o rei de Marrocos, Mohamed VI, e o primeiro-ministro espanhol em que debateram os vários conflitos que opuseram, neste Verão, as autoridades dos dois países, vi que, era inevitável, um dos pontos de discórdia foi a cidade autónoma de Melilla. Lembrei-me então de um erro muito comum: pronunciar a palavra espanhola tequila como se tivesse dois ll. Não tem. Este vocábulo não tem a letra, ou dígrafo, melhor dizendo, ll (elle, em espanhol), que faz parte do alfabeto espanhol desde 1803, mas a letra l. Em 1994, no X Congreso de la Asociación de Academias de la Lengua Española, convencionou-se que os dígrafos ll e ch (che, em espanhol) deixariam de figurar como letras independentes na ordenação alfabética de dicionários e bibliografias. Claro que não estou à espera de que estes falantes apressados de todas as línguas saibam isto. Como decerto gostam de informação mais ligeira, aqui vai: o nome da letra q é cu: «cu de queso». Última anedota: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «tequila» e «tequilha».

[Post 3897]

16.9.10

Léxico: «citoesponja»

Menos doloroso


      «E que, quando compararam os resultados do seu novo teste com o das endoscopias realizadas em paralelo nos participantes, constataram que a “citoesponja” detectava 90 por cento dos casos de esófago de Barrett» («Uma esponja para despistar o cancro», Ana Gerschenfeld, «P2»/Público, 13.09.2010, p. 3).
      É mera adaptação do inglês cytosponge. E está correcto, pois também temos citoesqueleto. Como também podia grafar-se citosponja, já que também temos citostático.

[Post 3885]

30.8.10

«Taliban», outra vez

Elogio da sensatez


      «Dezenas de taliban atacam duas bases no Leste do Afeganistão e sofrem 21 mortos» (Jorge Heitor, Público, 29.08.2010, p. 12).
      Já aqui (e aqui) falei desta aberração, e sei que há leitores do Público que mandam mensagens de correio electrónico e cartas à directora em que protestam contra este abastardamento. Pura perda de tempo. Itálico, já sabemos, é recurso que a generalidade dos jornais vai ignorando. Contudo, há sempre pior, como isto: «Ataque a bases da Nato mata 24 rebeldes talibã» (Jornal de Notícias, 29.08.2010, p. 57).


[Post 3832]

28.8.10

Aportuguesamento: «placar»

Entrou nos hábitos


      «O edifício ficou assim excluído de uma iniciativa que ontem concedeu a Times Square — a praça onde confluem algumas das maiores avenidas da cidade — uma aura azulada, proveniente das luzes de edifícios e placares» («Católicos celebram os cem anos do nascimento da ‘santa dos pobres’», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 27.08.2010, p. 29).
      Embora seja um estrangeirismo para o qual temos vocábulos correspondentes, entrou em força na nossa língua. Ultimamente, está a consolidar-se o aportuguesamento placar. Ao lado do verbo «placar», o mesmo que «aplacar», e do também francesismo «placar», o termo do râguebi. A língua aguenta. E nós também.

[Post 3825]

4.6.10

Aiatola/foxetrote/sprinte

Uma lição


      Não é daqueles tradutores adeptos de aportuguesamentos descabelados, como já aqui vimos, mas ainda assim não deixa de surpreender os que vai adoptando: «Inspirava-o, no entanto, um espírito não menos implacável do que do aiatola e era reclamado em nome de ideais não menos exaltados» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 15). «Havia noites em que cada verso de cada canção assumia um significado tão estranhamente momentoso que ele acabava a dançar sozinho o foxetrote arrastado, leve, repetitivo, banal e, contudo, maravilhosamente útil para criar ambiente que costumava dançar com raparigas do liceu de East Orange, contra as quais comprimia, através das calças, as suas primeiras erecções significativas» (idem, ibidem, p. 27). «Pensar no Dr. Fensterman a entregar ao seu pai um grande saco de papel atafulhado com todo aquele dinheiro pô-lo de novo a correr, a saltar, de brincadeira, imaginárias barreiras baixas (era há vários anos o campeão liceal de provas de barreiras baixas de Essex County e o segundo nos duzentos metros sprinte) até à Evergreen e volta» (idem, ibidem, p. 102).
      De resto, as traduções de Fernanda Pinto Rodrigues deviam ser lidas com muita atenção por tradutores, revisores e editores. Escrever-se-iam menos disparates.

[Post 3542]

25.5.10

«Sherpa»/«xerpa»

Povo do Leste


      «Quem são os guias responsáveis por levar pessoas como o Jordan a seguir os seus sonhos no Evereste? Os xerpas, mais conhecidos por sherpas (shyarpa), são uma etnia da região mais montanhosa do Nepal, nos Himalaias. Na língua xerpa, shyar significa ‘leste’ e pa significa ‘povo’ shyarpa ou xerpa. Tradicionalmente, vivem nas zonas montanhosas situadas na zona oriental do Nepal e ganham a vida não só como guias e carregadores, mas também como comerciantes, fazendeiros e agricultores. A história cultural sherpa tem mais de 500 anos» («Sherpas: senhores do Evereste há 500 anos», Tiago C. Esteves, Metro, 25.5.2010, p. 2).
      «Mais conhecidos por sherpas»! É simplesmente, e mais uma vez, a grafia da língua inglesa a impor-se-nos. Nas traduções, contudo, e já aqui o vimos, o aportuguesamento «xerpa» é há muito usado e está mesmo registado em alguns dicionários, como é o caso do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.  «Um jovem xerpa muito solícito precipitou-se ao nosso encontro e apresentou-se como o nosso sirdar» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 298).

[Post 3502]