12.1.11

Doutor e licenciado

Nem na Floresta Negra


      «Claro que Fähner passou os seus exames com distinção, doutorou-se e conseguiu o primeiro emprego no hospital da comarca de Rottweil» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 14).
      Hoje lembrei-me deste excerto desta obra quando ouvi a entrevista de Fernando Nobre na Antena 1. Dizia o candidato presidencial a determinada altura que o pai queria que ele fosse professor de Cirurgia. Nem mais. Ora bem, o nosso Fähner na página 13 ainda era «estudante de medicina em Munique» (a história da vida da personagem, na verdade bem contada, está condensada em meia dúzia de páginas). Não sei o que está no original, reparem, mas algo me diz que o futuro assassino da mulher não se doutorou — licenciou-se. Algum leitor que conheça o original, Verbrechen, por favor, diga-me alguma coisa.
      Depois de tanta confusão, os dicionários tiveram de passar a registar o vocábulo doutor também como tratamento que, nas relações sociais, se dá a um bacharel ou licenciado. Os verdadeiros doutores, isto é, as pessoas habilitadas com o doutoramento, é que não devem apreciar muito. Entre tese e dissertação também há, como já aqui vimos duas vezes, confusões.

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12 comentários:

C. Kupo disse...

Concordo que o populacho tende a chamar "doutor" qualquer pessoa com mais dinheiro, bem vestida, em melhores condições sociais, etc., banalizando o termo a um tal ponto que os doutores sintam seu doutorado quase vazio de sentido.

Contudo, não acho certo dizer que os "verdadeiros doutores" são somente aqueles com doutorado, como se tem feito crer ultimamente (quase sempre por interesse e esforço deles mesmos).

Há que se ter em mente, sempre, que o título de "doutor" é conferido aos médicos e bacharéis em Direito, historicamente e séculos antes da criação de qualquer curso de doutoramento, pelo que não seria justo olvidarmos essa prática.

Anónimo disse...

As formas de tratamento em português! Um emaranhado de variantes de uma exuberância tropical, em perpétua refinação e encarecimento. Lindley Cintra consagrou-lhe um livrinho, que apenas enceta o tema.
Mas eu nunca me hei-de esquecer da resposta do Condestável, na sua crónica, a um viandante cansado, que o tratou por senhor agradecendo-lhe tê-lo deixado cavalgar a sua montada, seguindo Nun'Álvares a pé: «Não me chameis senhor, ca o não sou.»
(Ca = pois - para o caso de só frequentardes gramáticas e dicionários modernos. Hoje tudo é possível...)
- Montexto

Helder Guégués disse...

Alguns de nós até sabemos latim e grego, caro Montexto, veja lá. Ca, conjunção antiga, vem do latim quia. E quem frequenta este blogue já aqui viu uma referência a isso.

C. Kupo disse...

Ora, está no Houaiss, moderníssimo: "ca conj. (sXIII cf. IVPM) porque, uma vez que ¤ etim lat. quia 'porque', tornado qua; f.hist. sXIV

Anónimo disse...

Então sabeis mais do que eu, o que por si só está muito longe de significar que alguém saiba muito.
Mas muito é o que eu folgo, inclusive de que o «Houaiss» vá lembrando essas velharias, e sobretudo com gente que sabe mais do que eu é que me quero.
Talvez nem tudo esteja perdido...
- Mont.

Jorge da Mata disse...

Montexto já deve ter deparado, na sua leitura diuturna dos inexauríveis clássicos, com o provérbio que diz que alguém foi buscar lã e saiu tosquiado. Foi o que aconteceu aqui.

Anónimo disse...

Aqui discrepo do caro Jorge: quem sabia sabia, e quem não sabia ficou a saber.
É só o que é preciso, ou talvez nem isso: o conhecimento também está sobrevalorizado.
- Mont.

Jorge da Mata disse...

Sobrevalorizado? Por quem? Por Montexto, por mim e pelos muitos que aqui vêm diariamente. Está a dizê-lo no fórum errado.

Anónimo disse...

Por mim também, caro Jorge, por mim também, e por quase toda a gente que conheço. A coisa é tão evidente que eu diria que nem precida de ser provada. Mas em tudo há mais de uma opinião, e esta regra não é nisto que conhecerá a sua excepção...
- Mont.

C. Kupo disse...

Se serve de contributo para a discussão de vocês, eu cá não conhecia o vocábulo em questão (nem acho que isso seja qualquer demérito, visto tratar-se de coisa antiga e em desuso, mas principalmente porque é incabível exigir que todos saibam tudo, mais ainda antes dos 30). Apenas fui conferir se os dicionários modernos eram assim tão capengas como queria crer o Montexto, e constatei que não.
Gostei de conhecê-lo, mas não creio que o venha a usar uma única vez na vida. Mesmo quando brinco de floriar um texto ou outro, penso que esse vocábulo aí seria demais.

Anónimo disse...

E pensa bem, caro Kupo. E o que se pretendia era exactamente e só isso: que fosse verificar. Mais nada.
As pessoas ou se entendem por meias palavras («à demi-mot», como costumam dizer os Franceses), ou nunca chegam a entender-se, por mais que se expliquem. Por isso, melhor é seguir a velha regra: «para bom entendedor...», etc. E, se não entender ou fingir não entender, nada de insistir nem explicar. «Never explain, never complain»: moto de Disraeli, que faço também meu.
- Montexto

Paulo Araujo disse...

séc. XIII, Cantigas de Santa Maria, 385.43
15 [...] candeas / de çera, ca non de sevo.(Cunha, Voc. hist-cronol. do Português Medieval).