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13.4.11

«Implantação/implementação»

Não aprendem

      Isso de tudo ter limites não se aplica à estupidez, acho eu. Todos ou quase todos os jornais têm uma secção ou mesmo um suplemento dedicado ao todo-poderoso sector do imobiliário. O meu também tem, claro. Ultimamente, os jornalistas trocam, confundem — agarrem-se bem! — «implantação» com «implementação». Um exemplo real: «A X anunciou o arranque da comercialização do Y em Cascais. O empreendimento é composto por 12 edifícios de apartamentos integrados numa área de implementação de 20 000 m2.» Ora, meus caros colegas e grandes melgas, a área de implantação de um edifício corresponde à área do solo (compreendido no lote) que é ocupada pelo volume total desse edifício. O que sobra, se sobrar, de espaço ao ar livre que não seja ocupado por esse volume denomina-se logradouro. Não me parece é que, como em tantos outros casos, os dicionários expliquem isto muito bem.

[Post 4684]

8.4.11

Ternura/tenrura

Ei-las

      «A lavagem dos cérebros existe. Há um trio de iguarias com fama de serem melhores quando são congeladas: os polvos, as framboesas e as ervilhas. Como em todos os exercícios de propaganda, há um elemento de verdade. O polvo, de facto, ganha acrescida ternura se for congelado» («Eis as ervilhas», Miguel Esteves Cardoso, Público, 8.04.2011, p. 41).
      Em espanhol, um bife é tierno, «tenro», como uma pessoa é tierna, «terna». Azar o deles. Nós, inventivos e inteligentes, do mesmo étimo latino formámos duas palavras divergentes: «terno» e «tenro». E assim temos ternura e tenrura. As ervilhas que ontem cozeram no Café das Patrícias, nas Azenhas do Mar, por grandes afectos que tenham provocado nos comensais, só se podiam distinguir de outras, congeladas ou não, pela tenrura.

[Post 4668]

9.3.11

«Ave/pássaro»

Devia ser medonho, sim

      Cá está a confusão entre pássaro e ave: «Reza a lenda que um dia surgiu nos céus de Aguiar da Beira um pássaro gigantesco parecido com uma cegonha mas infinitamente mais medonho. O povo ficou aterrorizado com tal criatura, e mais aterrorizado ficou quando o pássaro resolveu escolher a torre da igreja matriz para aí fazer o seu ninho. Conta-se que foi tal o susto, que até o pároco fugiu da igreja e se recusou a lá voltar. Os anos foram passando e a população continuava a viver com o credo na boca por causa do enorme pássaro a que deram o nome de cabicanca por causa da grande bica que tinha, ou seja, o grande bico» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 9.03.2011).
      Não é fácil imaginar um «pássaro» do tamanho de uma cegonha, a não ser por mutação genética...
      A lenda diz ainda que foi um almocreve, Martinho Afonso, o Escorropicha, que deu um tiro na cabicanca. Tiro com uma funda, talvez... municiado com copos de três. E a propósito de Escorropicha, lembrei-me disto.

[Post 4545]

«Evocar/invocar», outra vez

Isto não acaba

      Carla Bernardino, do Diário de Notícias, entrevistou Jel, um dos Homens da Luta. «Há quem evoque, contra a vossa participação, razões de carácter político. O Festival da Eurovisão não permite a candidatura de temas desta natureza. Teme que isto possa acabar mal?» («“Se não nos deixarem concorrer, apanhamos o avião e vamos”», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 9.03.2011, p. 56). Perguntou mal. É o confusionismo endémico. E, neste caso, não é falta de escolinha, como afirma Montexto, mas falta de uso do dicionário (ou, segundo outros, do cérebro).

[Post 4543]

7.3.11

«Posar/pousar»

Deixa-os pousar...

      «No centro histórico de Havana, velhas cubanas pousam para os turistas com os seus vestidos coloridos e um charuto junto à boca. Mas são poucas aquelas que os fumam verdadeiramente. E se o cenário é assim em Cuba, pior é no resto do mundo, onde a imagem de uma mulher a fumar charutos ainda é menos comum. Mas não por muito tempo, se os planos correrem bem à estatal Habanos S. A. que de olho no público feminino acaba de lançar os Julieta» («‘Julieta’, um charuto só para mulheres», Susana Salvador, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 32).
      Este é, para muitos, um caso menor, comezinho, desculpável, etc. Será, será. Contudo, se é assim tão insignificante, menos desculpa terão para tal deslize. Pousar, cara Susana Salvador, é diferente de posar. A não ser que objecte, à semelhança de certo professor universitário, que escreve assim para evitar o galicismo...

[Post 4534]

6.3.11

«Mandado/mandato»

N.º tal, mas ordem

      «Renato Seabra pode ser extraditado para Portugal? Embora penda já sobre o ex-manequim um mandato para deportação [n.º 88441941], tal só terá efeito quando for libertado» («Dúvidas jurídicas ensombram o futuro de Renato Seabra», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 69).
      Só não aprende quem não quer, e alguns jornalistas recusam-se a aprender. Julgam que aprenderão fazendo. Tudo o que outros já pensaram é-lhes irrelevante. Quantas vezes já aqui falei da confusão entre «mandato» e «mandado»? E mais: não deveria ser ordem de deportação?


[Post 4528]

19.2.11

Sob/sobre

Eloquente

      Na sua crónica de hoje no Diário de Notícias, J.-M. Nobre-Correia começa por afirmar que a presença da Igreja Católica deixou «marcas duráveis no analfabetismo dos indivíduos, primeiro, e no seu iletrismo, em seguida». Exemplos? Ah, isso agora... Mas continua: «Se há país onde o ascendente do clero sobre a sociedade é evidente é a Itália. E como se isso não bastasse, já lá vão trinta anos que a Itália vive sobre a alçada de uma televisão berlusconiana que foi adquirindo um estatuto hegemónico no plano sociocultural» («Esta trágica paixão criminal», J.-M. Nobre-Correia, Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 67).
      Caro J.-M. Nobre-Correia, não se diz, neste contexto, «sobre a alçada», mas sob, debaixo da alçada. E «alçada» aqui vale por esfera de acção.

[Post 4458]


15.2.11

Como se fala na rádio

Com olhos de ver

      Já aqui tínhamos visto que devemos usar a locução à vista desarmada em vez de a olho nu. Agora, temos algo de novo.
      Naufrágio de uma embarcação do Sanas — Associação Madeirense de Socorro no Mar. Um morto e um ferido. A repórter da Antena 1 Helma Vieira explicou tudo: «O segundo, felizmente, e pelo que foi visto, não posso confirmar a gravidade dos ferimentos, mas mexia, o corpo não apresentava grandes mazelas, pelo menos a olho visto, e neste momento encontra-se hospitalizado.» A repórter fez confusão com outra locução semelhante: a olhos vistos, isto é, de forma clara, evidente, manifesta. No contexto, talvez devesse ter dito «à primeira vista».

[Post 4438]

10.2.11

«Descrição/discrição»

Regresso ao básico

      «A confirmar-se, optaram por deixar cair o apelido Bardem, optando pelo segundo apelido do actor, cujo nome completo é Javier Ángel Encinas Bardem. Mantiveram, contudo, a tradição espanhola, de o último apelido ser o da mãe. […] A escolha da clínica [Cedars-Sinai] não foi feita ao acaso, já que é conhecida pela sua descrição, evitando que as informações mais íntimas cheguem às mãos da comunicação social» («Leo é o nome do filho de Penélope Cruz e Bardem», Márcia Gurgel, Diário de Notícias, 9.02.2011, p. 53).
      «Optaram optando»? Hum... E quando é que entra na cabeça dos jornalistas que têm de recorrer aos dicionários, já que, pelo visto, não atinam com a diferença entre «descrição» e «discrição»? E a pontuação também precisa de ser revista.

[Post 4420]


7.2.11

«Evocar/invocar», de novo

Sem formação?

      «Os tradutores estão sujeitos a normas estabelecidas nos códigos penais, prestam juramento, não podem faltar quando convocados, a não ser que evoquem motivos atendíveis. Isto é: não dominar suficientemente o Português ou não ter condições para o fazer, como, por exemplo, um outro trabalho que os impeça de prestar aquele serviço» («Tradutores e intérpretes sem receber desde Setembro», Clara Vasconcelos, Jornal de Notícias, 7.02.2011, p. 8).
      Cá está a confusão entre evocar e invocar. Os tradutores e intérpretes jurídicos, sei agora, ainda não têm uma associação, mas no próximo mês, com a criação da Associação Portuguesa de Tradutores e Intérpretes Jurídicos (APIJUR), isso vai mudar. Acrescenta a jornalista: «Ninguém sabe quantos existem. Eles são nomeados pelos tribunais e recrutados através de empresas que os indicam ou mesmo através de “candidaturas” que enviam para os tribunais. Não precisam de qualquer tipo de formação.»

[Post 4408]

13.1.11

Confusões

Confusões antigas


      Mandado e mandato: «Os mandatos de prisão foram levantados e ambos foram postos em liberdade» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 83). Toga e beca: «Os juízes vestiram as suas togas na sala de deliberações, um dos jurados atrasou-se alguns minutos e o guarda teve de ser substituído, depois de se queixar de dores de dentes» (idem, ibidem, p. 59).

[Post 4316]

12.1.11

«Evocar/invocar»

Culpem a polícia


      «Por fim, combinámos que eu informava a polícia sobre a recuperação da taça e dos relógios. Naturalmente, Tanata não me perguntou quem tinham sido os autores, assim como eu me abstive de lhe perguntar sobre Pocol e Wagner. Só a polícia colocou questões; eu pude evocar a minha obrigação profissional de guardar segredo para proteger os meus clientes» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 39).
      A polícia às vezes faz grandes estupidezes, e essa de «colocar as questões» é mais uma. Se isto já chegou aos livros revistos, é porque estamos mesmo perdidos. E o narrador, que é advogado, a «evocar a obrigação profissional de guardar segredo», também não é coisa inesperada — só errada. E palavrosa. Invocar, queriam o tradutor e a revisora escrever. E aqui o segredo pode transmutar-se em sigilo.

[Post 4313]

Doutor e licenciado

Nem na Floresta Negra


      «Claro que Fähner passou os seus exames com distinção, doutorou-se e conseguiu o primeiro emprego no hospital da comarca de Rottweil» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 14).
      Hoje lembrei-me deste excerto desta obra quando ouvi a entrevista de Fernando Nobre na Antena 1. Dizia o candidato presidencial a determinada altura que o pai queria que ele fosse professor de Cirurgia. Nem mais. Ora bem, o nosso Fähner na página 13 ainda era «estudante de medicina em Munique» (a história da vida da personagem, na verdade bem contada, está condensada em meia dúzia de páginas). Não sei o que está no original, reparem, mas algo me diz que o futuro assassino da mulher não se doutorou — licenciou-se. Algum leitor que conheça o original, Verbrechen, por favor, diga-me alguma coisa.
      Depois de tanta confusão, os dicionários tiveram de passar a registar o vocábulo doutor também como tratamento que, nas relações sociais, se dá a um bacharel ou licenciado. Os verdadeiros doutores, isto é, as pessoas habilitadas com o doutoramento, é que não devem apreciar muito. Entre tese e dissertação também há, como já aqui vimos duas vezes, confusões.

[Post 4311]

9.1.11

«Estudante/aluno»

Agora sim


      Todos temos mais ou menos a noção de que os vocábulos «aluno» e «estudante» não são intermutáveis em todas as circunstâncias. No entanto, ultimamente tenho visto grandes confusões. Exemplifiquemos com uma frase. Digam-me qual dos vocábulos usariam na seguinte frase: «Segundo o seu único ___________ sobrevivente, Luís Seixas, o Professor Brotas era um leitor compulsivo de obras sobre música.»
      Um pouco a propósito: parece que no Brasil se ensina em algumas escolas que «aluno» provém do latim a + lun, este adulteração de lumen,inis, «luz». Ou seja, «sem luz». Que disparate vergonhoso! Alumnis, em latim, significa criança de peito, e ter-se-á formado a partir do verbo alere, «alimentar». Mais tarde, sem surpresa nenhuma, passou a significar, em sentido figurado, pupilo.

[Post 4296]

7.1.11

«Ave/pássaro»

Aves raras


      «Algo semelhante estará na origem do sucedido no Arcansas e na Luisiana. […] A hipótese de envenenamento ou doença contagiosa está excluída no caso do Arcansas» («Milhares de pássaros caem do céu na Suécia e nos EUA», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 6.01.2011, p. 24).
      Cá estão dois topónimos aportuguesados. Não é complicado nem ridículo: faz-se quando se pode. (Em relação a Luisiana, porém, os jornalistas ainda não acertaram no género.) Não vamos, contudo, tratar de topónimos, mas do título da notícia. Na rádio, ouvi que se tratava de aves. Não é raro o falante médio confundir «ave» com «pássaro». Os jornalistas, porém, não são, por definição, falantes médios, mas também confundem. Os pássaros são aves pequenas. Ou seja, se todos os pássaros são aves, nem todas as aves são pássaros. Ave é o hiperónimo (o termo genérico) e pássaro é o hipónimo (o termo específico).

[Post 4287]

31.12.10

«Mandado/mandato»

Não entra


      «— Convinha ter um mandato de busca — pensou Bastokovitch, em voz alta. — Consegue-me arranjar uma coisa dessas?» (Profundo como o Mar, Jacquelyn Mitchard. Tradução de Mário Caeiro e Andrea Noronha de Andrade. 6.ª ed. Barcarena: Editorial Presença, 2002, p. 297).
      Bastokovitch, seu imbecil, não devias ter falado em voz alta. Não arranjo porque isso não existe. Serve um mandado de busca? («Não sem alguma razão», já antevejo alguém objectar, «como aliás todas as confusões e erros, sempre defensáveis durante pelo menos os tais cinco minutos de que falava Cândido de Figueiredo.»)

[Post 4256]

19.12.10

Ph.D. Dissertation

Ou não é?


      Na semana passada, um professor universitário falava do número de teses de mestrado feitas em Portugal. Hoje, isto: «defendi com êxito a minha dissertação de doutoramento», escreveu alguém. Traduziu daqui: «I successfully defended and passed my Ph.D. Dissertation.» Não interessa, no caso vertente, como é no mundo académico anglo-saxónico, ou talvez importe dizer somente isto: há diferenças de país para país e mesmo de universidade para universidade. Interessa é como é entre nós. Ora, já vimos aqui que a diferença, em Portugal, dimana da própria lei. Assim, é dissertação de mestrado e tese de doutoramento.

[Post 4201]

16.12.10

«Demais/de mais»

Agora é que é


      «Afinal não é ainda tarde demais para os ursos-polares. Esta é a boa notícia de hoje na Nature, que faz capa do tema a partir de um artigo de cientistas dos Estados Unidos e do Canadá. O seu estudo indica que, se as emissões de gases com efeito de estufa forem reduzidas nas próximas duas décadas, as grandes extensões de gelo do Pólo Norte, que são o habitat destes animais, têm grandes hipóteses de não desaparecer do mapa» («Ainda há tempo para salvar os ursos-polares», Filomena Naves, Diário de Notícias, 16.12.2010, p. 30).
      E como escreveriam, na frase acima, os meus leitores: demais ou de mais? Por demais explorada e mastigada, é ainda assim uma questão gramatical que importa rememorar.

[Post 4197]

8.12.10

Como se escreve nos jornais

Estamos bem arranjados


      Até um jornalista como Eurico de Barros confunde rebuliço com reboliço. «Foi uma surpresa total. Eu fui com uma pessoa amiga que é de lá e ele tinha-me passado fotografias e vídeos, e achei que ia encontrar um lugar cinzento, triste, destruído. E aquilo que vou encontrar é completamente diferente. Pristina é uma cidade pequena, mas em constante reboliço, com muita construção, imensa gente, muita gente jovem, muitas raparigas bonitas — não estava mesmo à espera disto! —, tudo me surpreendeu. Pensei que ia para um lugar com todos os motivos para ser triste e deprimente, mas que acabou por não o ser» («“Fiquei surpreendido com o que encontrei no Kosovo”», Eurico de Barros entrevista o autor e ilustrador português Ricardo Cabral, Diário de Notícias, 29.11.2010, p. 48).
      (Oportunidade para ver aqui a excelente obra de Ricardo Cabral.)

[Post 4171]

3.12.10

«Mandato/mandado»

Como se fosse difícil


      O Metro não tem dúvidas: «Há um mandato de detenção internacional para Julian Assange, fundador do WikiLeaks» («Controvérsia ainda para durar», I. C., Metro, 3.12.2010, p. 7).
      Como se vê, jornalistas e revisores continuam a confundir «mandado» e «mandato». Não direi todos, mas os melhores dicionários registam para o vocábulo «mandado» o significado de ordem, determinação superior, e por isso «mandado judicial», «mandado de captura», «mandado de prisão», etc. Para «mandato», e o étimo é o mesmo, sendo por isso palavras divergentes, os dicionários registam o significado de autorização conferida a alguém, delegação, procuração, e por isso «mandato eleitoral» «mandato parlamentar», etc.

[Post 4154]