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5.5.11

Léxico: «utility»

Chefe da oposição

      Então o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista tarseiro (não confundir com traseiro) e esqueceu-se de siamangue? O primeiro designa um género de mamíferos lémures de tarsos muito compridos, e o segundo é também conhecido como gibão-siamango (Symphalangus syndactylus).
      Não venho aqui apenas por isto, mas para lamentar que Pedro Passos Coelho, na entrevista de ontem, tenha usado o anglicismo utilities assim sem mais nem menos. Utilities são empresas de fornecimento de electricidade, gás e água, por norma consideradas empresas de utilidade pública e pouco sensíveis aos ciclos económicos. Só os economistas é que deviam falar assim — mas apenas quando falam para outros economistas.

[Post 4746]

18.4.11

Sobre «workshop»

Uârkchopes

      Outra coisa irritante: escrever-se, a torto e a direito, workshop. Não há edição de jornal que não traga pelo menos um workshop. E como o País tem muito que ensinar e que aprender, é todos os dias. Agora, porém, vai-se insinuando, ainda a medo, claro, um termo português: oficina. «Prática de primeira hora é a programação de oficinas dirigidas aos mais novos (desde bebés até aos 11 anos), que decorrerão na Fábrica das Artes, frente ao Jardim das Oliveiras [no Centro Cultural de Belém]» («Oficinas, concertos narrados e mais», Bernardo Mariano, Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 51). Diz rigorosamente o mesmo, reparem, e é nosso, não precisa nem de aspas nem de itálico. E toda a gente percebe. Entretanto, deixemos que discutam e queiram saber o género do anglicismo.

[Post 4703]

17.4.11

Tradução: «unbundling»

Desnecessário

      «A REN está interessada em ficar com o transporte e o armazenamento de combustíveis em Portugal, caso o Estado português decida fazer o unbundling e retirar essa parte ao controlo da Galp.» O anglicismo anda por aí em quase todos os jornais — e nem sempre explicado nem marcado como estrangeirismo, como agora é moda. Fazer o unbundling é fazer a separação, separar, neste caso as redes de transporte de energia e as empresas de energia (as «energéticas», como certos comentadores dizem e escrevem).


[Post 4696]


12.4.11

Anglicismo

Estamos apresentados

      «O termo “cicerone”, enquanto guia, virá de este introduzir ao mundo latino o pensamento dos Gregos e ainda também pelo facto de no fim da vida Cícero ter escrito uma série de obras sobre eloquência e a arte da oratória, livros esses que serviram de autênticos guias para os políticos da Roma antiga» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 12.04.2011).
      «Introduzir ao mundo», cara Mafalda Lopes da Costa? Está mesmo a ver-se que em português decente é impossível expressar a mesma ideia do anglicismo semântico.
      A propósito de anglicismo: hoje o revisor antibrasileiro telefonou-me porque queria saber se há forma de evitar o anglicismo «não governamental». Hã?! Como disse? «A expressão mostra a confusão que vai nessas cabecinhas entre Estado e governo.» Sabiam disto?   

[Post 4681]


21.3.11

Tradução: «er»

Em português, sff

      «‘Er — who won at deck tennis?’ he said feebly» (The Ship of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 75). Hoje em dia, não é raro os tradutores deixarem por traduzir — como se interjeccionássemos assim! — esta interjeição inglesa que expressa hesitação. Há quarenta anos, não era assim: «— Aa... quem ganhou o ténis? — perguntou ele com voz sem timbre» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 70). Aa¹ não está dicionarizada como interjeição, ao contrário, por exemplo, de ahn, que também serve para revelar hesitação.

[Post 4593]


¹ Mas temos o substantivo (!) aa, que designa uma espécie de lava máfica (ferromagnesiana e de cor escura), de superfície áspera, desigual, com fragmentos irregulares, vocábulo porventura só conhecido de geólogos e cruzadistas.

18.3.11

Tradução

Em 1969

      «‘Yes,’ said Mrs Cunnigham. ‘I’m getting it ready in a minute or two. Go and join others in the garden. You can pick a few daffodils, if you like — we want some in the hall’» (The Circus of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 9). «— É — respondeu a Sr.ª Cunningham. — Vou prepará-lo dentro de momentos. Vai ter com os outros ao jardim. Se quiseres podes colher alguns narcisos... faz falta um ramo no vestíbulo» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 15).
      Há quarenta anos, os tradutores ainda sabiam que não precisavam do vocábulo «hall» para nada, nem da abreviatura «Mrs».

[Post 4582]



18.2.11

Estrangeirismos

Caladinho

      Natália Carvalho, da Antena 1, foi ouvir o eurodeputado Paulo Rangel, esse grande orador: «Ainda em Dezembro ouvimos falar de 40 ou 50 medidas para o crescimento, e a verdade é que ninguém tem o seguimento, o follow-up do que aconteceu.»
      Isto não é incomum (mas é extraordinário): o falante usa uma palavra portuguesa, mas logo de seguida recorre a um anglicismo (os galicismos são coisa do passado) para dizer o mesmo. Salvo melhor opinião, isto é completamente tonto. Se fosse ao contrário, ainda se entendia. O melhor (ou o pior, de outra perspectiva) foi que o eurodeputado pronunciou malissimamente a palavra inglesa. Não saiu, como devia, \ˈfä-lō-ˌəp\, mas com o u a soar ó. Horror! Poderão objectar-me: foi um lapso. Poderá ter sido, mas isso só prova que não deveria falar numa língua que não domina. Oiça.

[Post 4457]

«Flash-mob», de novo

Obrigadinho

      Hoje, Luís Naves já explica o anglicismo flash-mob: «As manifestações usaram a ironia, incluíram flash-mob (mobilizações instantâneas através de telemóvel) e, em Gent, até uma acção de nudez colectiva, apesar do frio intenso» («Batatas fritas pela unidade belga», Luís Naves, Diário de Notícias, 18.02.2011, p. 27). Muito bem, já que não quer abrir mão do anglicismo. Possível tradução: olhe, essa: mobilização instantânea.

[Post 4452]

16.2.11

«Flash-mob»

Está mal

      «A data será passada em festa, com música, bancas de batatas fritas e flash-mob. A ideia é protestar contra o excesso de nacionalismo e contra os oito meses de mediações falhadas» («Revolta das batatas fritas contesta políticos belgas», Luís Naves, Diário de Notícias, 16.02.2011, p. 28).
      Como já uma vez explicaram, neste mesmo jornal, o anglicismo, os jornalistas sentem-se desobrigados de repetir. «São», escreveram, «aglomerações instantâneas de pessoas que combinaram previamente (geralmente por e-mail ou SMS) uma acção inesperada num local público.»

[Post 4445]

6.2.11

Sobre «overdose»

Ainda não


      «Um grupo de 13 pessoas pertencentes ao grupo 10:23 Portugal juntou-se ontem nos jardins do Príncipe Real, em Lisboa, para tomarem em simultâneo uma overdose de medicamentos homeopáticos (produtos feitos à base de plantas)» («‘Overdose’ de medicamentos sem efeitos registados», Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 27).
      Eu até pensava que no Diário de Notícias não se usava o anglicismo «overdose». Quanto aos dicionários, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista apenas «sobredosagem» e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa só regista «sobredose».

[Post 4404]

28.1.11

Tradução

Inglesamentos evolutivos


      Outra personagem aguardou os amigos defronte do «Hollywood Teatro» — Hollywood Theatre no original inglês. Vasco Botelho de Amaral iria persignar-se. Ouçamo-lo: «Mas fiquemos nisto: bar, como aportuguesamento do inglês bar, explica-se por evolução. Pergunto agora: “Victória Bar”, “Cristal Bar”, “Concha Bar”, e maravilhas assim explicam-se também por evolução? Respondam os “evolucionistas”, porque eu acho melhor não responder. Considero suficiente a comparação destas denominações com a construção que algum maníaco se lembrasse de aplicar, generalizando o inglesamento. Passaríamos a ter um Recreios Coliseu, uma Geral Abastecimentos Intendência, um Nacional S. Carlos Teatro, uma Municipal Lisboa Câmara, um Gil Vicente Liceu, e, por fim, evolutivamente, um Rilhafoles Hospital» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 15).

[Post 4370]

9.1.11

Anglicismo

A língua também foi vítima


      Um dos Capitães de Abril, Vítor Alves, morreu hoje †. Demos a palavra a Jorge Correia, da Antena 1: «Vítor Alves foi um dos coordenadores dos textos políticos escritos antes do 25 de Abril e que deram suporte à Revolução de 1974.»

[Post 4299]

27.12.10

Anglicismo

Será que os meus pais, etc.


      «O espírito natalício do Boxing Day parece ter servido de inspiração para as equipas de Manchester, que ontem averbaram preciosos triunfos, isolando-se nos dois lugares cimeiros da tabela da Liga inglesa. Na tradicional jornada disputada no dia a seguir ao Natal, os red devils receberam o Sunderland com uma vitória por 2-0» («Rivais de Manchester celebram Boxing Day com triunfos», P. P., Diário de Notícias, 27.12.2010, p. 36).
      P. P., como a Quercus, também nos julga Ingleses. Recomenda-se o exame Vieira: «Será que os meus pais vão perceber o que escrevi?»

[Post 4241]

10.12.10

Anglicismos

Para acabar


      «Facto é que, mesmo reduzindo o prize money, de 150 mil para 100 mil euros, a prova portuense bateu recordes em termos de pedidos de inscrição, tendo listas de espera em vários países» («Dezoito milhões de euros em cavalos», Sérgio Pires, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 36).
      Para terminar, o jornalista tinha de usar a expressão inglesa prize money. Deve ser na esperança de Athina Onassis ler o artigo... Se tivesse escrito prémio monetário, o marido dela, o cavaleiro Álvaro Miranda, que é brasileiro, traduzia para ela entender, e o jornalista não nos mandava para cima com mais inglesias desnecessárias. Vamos lá ver, agora mais a sério: se é mais ou menos compreensível que a organização use esses termos, mesmo em programas escritos em português, já não se passa o mesmo com o jornalista. São públicos diferentes.

[Post 4181]

Anglicismos

Olha, olha


      «Nos últimos dias, os pavilhões do salão de exposições nortenho ganharam a forma de um hipódromo em grande escala de modo a acolherem a maior prova hípica indoor que se realiza em Portugal: ao todo, foram transportados 60 camiões TIR de areia, 12 toneladas de palha e feno e 300 boxes para receberem os mais de 250 cavalos, avaliados em 18 milhões de euros, que vão participar na prova portuense, que este ano desceu um patamar em termos de prestígio competitivo como resultado da crise» («Dezoito milhões de euros em cavalos», Sérgio Pires, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 36).
      Eu sei que se costuma dizer e escrever — mas usar o termo indoor parece-me subserviência no último grau, e até apetece dizer umas vernaculidades aliviadoras acerca disso. Então agora imaginem que eu traduzia «indoor training ring» por «picadeiro indoor». Qual é que era o homem sério que não deixaria escapar, pelo menos, um frouxo de riso? Boxes também já é um caso perdido. Os Ingleses, desimaginativos, têm caixas para os cavalos. Nós só cavalos de brincar enfiamos em caixas, quanto aos outros, é, e há muito tempo, em baias.

[Post 4180]

7.12.10

Anglicismos

Tudo inglês, por favor


      Houve no passado fim-de-semana uma iniciativa comercial em Lisboa chamada Stockmarket, realizada na antiga FIL, onde se juntaram 120 marcas com descontos até 80 %. Tinha de ter, já estão a ver, nome inglês, ou não atrairia clientes modernos, cosmopolitas. A jornalista Maria João Caetano escreveu um artigo («Contornar a crise e comprar as prendas de Natal no Stockmarket», 3.12.2010, p. 48) no Diário de Notícias sobre o acontecimento. Começa por nos dizer que o espaço ia ter uma área de lounge. E mais, o mercado (prosaicamente, é isto, meus senhores) seria, «segundo os especialistas», «uma shopping party (festa de compras)». A ideia era escoar os stocks, pois claro. Além dos stands, escrevia a jornalista, podiam os papás estar descansados: havia um playground. Ficámos também a saber que a responsável queria «uma espécie de roadshow, para levar as pechinchas a todo o País».
      Isto é uma traição ao idioma pátrio. Não sei como é que um jornalista consegue escrever assim.

[Post 4169]

31.10.10

Sobre «low cost»

O futuro é hoje

      «Apesar de ter gostos refinados e vestir roupa de estilistas conhecidos, a mulher do político do momento ousou aparecer numa convenção histórica com um vestido low cost» («Samantha Cameron dá vestido icónico para leilão», Márcia Gurgel, Diário de Notícias, 31.10.2010, p. 69).
      Este sim, é um modismo completamente tolo. Porque não o guardam, ao menos, para o campo da aviação? Neste artigo, porém, havia bem pior. Leiam: «Primeira dama [sic] inglesa doou famosa peça da Marks & Spencer de 75 euros.» A teoria deve ser a de que nas repúblicas a primeira-dama é a mulher do presidente; nas monarquias, é a mulher do primeiro-ministro. (Em 2003, um brasileiro quis saber: «Tendo Lula a Presidência do Brasil, teremos novamente uma Primeira Dama. A dúvida é a seguinte: e se a Roseana Sarney tivesse concorrido e ganhasse, teríamos um Primeiro Cavaleiro?» O consultor do Ciberdúvidas Francisco Costa foi cauteloso — ou não disse nada de relevante, segundo outras opiniões: «Não há nenhuma designação para o equivalente masculino de “primeira-dama” mas, quando a necessidade surgir, possivelmente aparecerá alguma. Só o futuro pode responder a esta pergunta.»)

[Post 4028]

22.9.10

«Replicar», de novo

Vamos ver


      Não se trata propriamente de um uso espraiado, mas, depois de já aqui o termos visto num artigo do Diário de Notícias, ei-lo no Público: «O secretário de Estado dos Transportes, Carlos Correia da Fonseca, defendeu mesmo, na apresentação do projecto, que esta “solução inovadora” deve ser replicada pelo país» («Autarquia da Amadora e imobiliária vão fazer do Dolce Vita Tejo um interface de transportes», Inês Boaventura, Público, 22.09.2010, p. 27).
      Talvez valha mais a pena dizer duas coisas de interface. Primeira: neste momento, é consensual que o género de «interface» é feminino. Segunda: há muito que é assumida, decerto que devido aos elementos latinos por que é formada, como palavra portuguesa. Logo, é dispensável o itálico.

[Post 3896]

20.8.10

«To order»

Bela encomenda


      O jornalista Jorge Fiel está de férias nos Estados Unidos, motivo mais do que suficiente para confundir um pouco as línguas: «Nos States, o simples acto de encomendar um vulgar cheeseburger fora das cadeias globais pode ser o passaporte para uma aventura em que caímos na contingência de optar entre o cheddar, jack, swiss, blue ou american cheese» («Os militantes dos Assuntos Pendentes», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 19.08.2010, p. 7). Antes, já se tinha baralhado nas línguas: «Ao terceiro dia, não resisti à tentação de aplicar um chuto de colesterol directo na veia e, de castigo, fui submetido a um interrogatório pelo Cliff, que não se ficou quando lhe encomendei ovos com bacon.»
      Logo que chegar a Lisboa, recomeça a pedir em vez de encomendar. Pelo menos é o meu desejo, mas já sei que há tradutores que fazem isto a vida inteira, decerto por não terem tempo de ler depois de revistos os livros que traduzem.

[Post 3801]

19.8.10

Sobre «resignação»

Não me resigno


      «“Quando um bispo chega aos 75 anos, segundo o direito canónico, deve pedir a resignação. A partir daí inicia-se um processo de substituição organizado pela Nunciatura Apostólica”, explica Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal» («Oito bispos diocesanos vão apresentar a sua resignação», Público, 16.08.2010, p. 6).
      Bem, o certo é que a versão em português do Código de Direito Canónico não usa o termo «resignação», mas «renúncia». Recordo ao Sr. P. Manuel Morujão o Cânone 401 § 1: «O Bispo diocesano, que tiver completado setenta e cinco anos de idade, é solicitado a apresentar a renúncia do ofício ao Sumo Pontífice, que, ponderando todas as circunstâncias, tomará providências.» Se estivermos a falar em inglês, então sim, dizemos que o bispo «is requested to present his resignation». No caso, vale mais recordar a versão latina do código, o Codex iuris canonici, que diz que o bispo «rogatur ut renuntiationem». É um refrigério ler em latim, tanto mais que a versão portuguesa está mal pontuada.

[Post 3796]