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10.5.11

Regência de «ajudar»

Qual coroinha

      «O LIP, Laboratório de Instrumentação e Física de Partículas, criado para ajudar à participação portuguesa no CERN, organização europeia de investigação nuclear, assinalou ontem, em Coimbra, os seus 25 anos» («LIP criado há 25 para relançar ciência», Diário de Notícias, 10.05.2011, p. 32).
      Ajuda-se à participação como se ajuda à missa? Duvido. O verbo «ajudar» tem dupla regência: ajudar a («ajudar alguém a» + infinitivo) e ajudar em («ajudar em alguma coisa»: «ajudar em» + substantivo).
      «Pouco e pouco, obtive que ella viesse á igreja de quatro em quatro semanas, e n’essas occasiões já ella sabia que o seu filho era o menino que me ajudava á missa» (Novelas do Minho, Vol. 1, Camilo Castelo Branco. Lisboa: A. M. Pereira, 1922, p. 112).

[Post 4765]


8.5.11

Regência de «induzir»

Como os partos

      A frase é inventada, mas talvez todos os dias seja escrito algo semelhante pelos jornalistas económicos: «Analistas consultados pelo nosso jornal afirmam que a necessidade de consolidação fiscal nas grandes economias ocidentais, incluindo EUA, Reino Unido e França, vai induzir a um crescimento reduzido da economia.» Ora, na frase o verbo induzir não é bitransitivo, como é nestoutra: «Os remorsos, e a vergonha do vil officio que exercitava o induziram a tentar uma empresa gloriosa, cujo feliz resultado lhe servisse de rehabilitação moral» (História de Portugal, Livro II, Alexandre Herculano. Lisboa: em casa da Viúva Bertrand e Filhos, 1853, p. 399). Na frase do nosso jornalista, induzir é causar, provocar, originar.
      Outra vez: «Analistas consultados pelo nosso jornal afirmam que a necessidade de consolidação fiscal nas grandes economias ocidentais, incluindo EUA, Reino Unido e França, vai induzir um crescimento reduzido da economia.»

[Post 4762]

7.4.11

Verbo «aspirar»: regência

Snif, snif

      A propósito da expressão ouro sobre azul: «Dada a importância e a conhecida grandiosidade e fausto da corte francesa, não é de admirar que a bandeira da casa real de França tenha inspirado uma expressão conotada com o que de mais magnífico e sublime se pode aspirar ou ambicionar» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 6.04.2011).
      No sentido de desejar, pretender, almejar, aspirar é transitivo indirecto, e preposicionado. Só no sentido de respirar, sorver é que não leva preposição. Vamos ao velho Morais. Vejamos... Pode ser o verbete «aspirante». Na mística, aspirante, lê-se, é «o que aspira a unir-se a Deus». (Não resisto a transcrever o que se lê neste dicionário acerca dos ortógrafos aspirantes: os que querem se escrevão com h, sinal de aspiração, as vogáes que entre nós não são aspiradas, e só por conservar a etimologia, como homem, humor, honra, &c.») «Toda a gente aspira a cargos importantes (dentro ou fora do país), a “montes” alentejanos, a casas na Lapa ou em Cascais, com vontade de ir a ministro» (Dicionário de Paixões, João de Melo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1994, p. 209).
      Há quem — todos os que não aspiram a fazer-se entender cabalmente nem prezam a língua — se exprima dessa forma descuidada. Não devia ser esse o desiderato de uma jornalista.


[Post 4663]

23.3.11

Regência verbal

Por exemplo

      «I like and admire my brother, but...», lia-se no original. O tradutor verteu assim: «Gosto e admiro o meu irmão, mas...» Mas está errado. Os dois verbos não têm a mesma regência, e só está bem um complemento comum quando a tenham. A frase compõe-se assim: «Gosto do meu irmão e admiro-o, mas...» Falhas destas até em grandes escritores se encontram. Mas, lá está, são falhas, não são de imitar.


[Post 4602]

11.3.11

Regência do verbo «presidir»

Presidir 

      «Apesar de ter nascido em Weehawken, na Nova Jérsia, EUA, os pais de Owen Jacob Laster eram imigrantes da Polónia e da Ucrânia. […] Pouco depois acabaria por “herdar” muitos dos seus escritores e em 1989 presidia todas as operações literárias da empresa, a nível mundial» («Dos mais poderosos agentes literários da sua geração», Diário de Notícias, 11.03.2011, p. 47).
      No sentido de dirigir como presidente, alguns autores clássicos usaram-no assim, sem preposição. A regência mais usada, porém, é a que recorre à preposição: «Este reconhecimento fe-lo nas mãos de Guido, ou anteriormente á partida do legado, nos fins de novembro de 1143 para presidir ao synodo de Gerona, ou depois d’isso, supondo que elle veiu a Portugal antes de regressar para Roma» (História de Portugal I, Alexandre Herculano, 3.ª ed. Lisboa: Bertrand e Filhos, 1863, p. 341). No excerto do artigo do Diário de Notícias, contudo, a acepção que se infere é a de orientar, nortear, superintender (semelhante, sim, mas não igual) e esta pede preposição: Presidia a todas as operações literárias da empresa.

[Post 4549]

3.3.11

Regência de «sobrepor»

Enfatuamentos

      A edição de ontem do programa Histórias Assim Mesmo, de Mafalda Lopes da Costa, foi dedicada à história da cortiçada da Lua de Proença-a-Nova. Um excerto: «Da escolha de Cortiçada [antiga designação de Proença-a-Nova] para designar a povoação, surge como óbvio que terá tido tudo a ver com a grande riqueza corticeira da região, mas o que por Proença-a-Nova se conta é toda uma outra história. Segundo a lenda, em tempos muito remotos, a população da vila ter-se-á enfatuado de tal forma com a Lua, que, querendo alcançá-la, construíram uma gigantesca torre, sobrepondo cortiço sobre cortiço.»
      Já aqui (e aqui) vimos a construção «todo um». E é claro que a regência do verbo sobrepor está errada: sobrepõe-se isto àquilo, não sobre aquilo.


[Post 4511]

1.3.11

Regência verbal: «avocar»

Casos de polícia

      «O processo foi avocado ao Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) em 2003, tutelado pelo procurador Vítor Magalhães» («PJ não tem pistas novas para saber onde está Rui Pedro», Rute Coelho e Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 28.02.2011, p. 2).
      Creio que, desta vez, nem Francisco Fernandes, no seu Dicionário de Verbos e Regimes (São Paulo: Editora Globo), nos pode valer. A acepção não pede a preposição por neste caso? «O processo foi avocado pelo, etc.»?

[Post 4503]

14.2.11

Regência de «procurar»

Procure-se

      «A arqueóloga marinha Kelly Gleason liderou a expedição que durante dois anos procurou por vestígios de baleeiros numa zona marítima protegida» («Descoberto baleeiro do capitão de ‘Moby Dick’», Elisabete Silva, Diário de Notícias, 14.02.2011, p. 32).
      No Ciberdúvidas, Edite Prada escreve a propósito do verbo procurar assim preposicionado: «O verbo procurar é um verbo transitivo, construindo-se predominantemente sem qualquer preposição. Pode, no entanto, ocorrer com a preposição por, quando o obje(c)to procurado, muitas vezes uma pessoa, tem um valor afe(c)tivo para o sujeito: “Procurei por ti o dia inteiro”; “Procurou por ela o dia inteiro”.» Não é só isto. Francisco Fernandes explica-o melhor: «Procurar por — perguntar por, pedir notícias de, indagar do estado de saúde de: “Não se particularize por nenhuma: fale, e procure por todas.” (F. M. de Melo, C. de guia, 139). “Procurei por ele.” (Constâncio)» (Dicionário de Verbos e Regimes. São Paulo: Editora Globo, 36.ª ed., 1989, p. 478).
      Em suma: a jornalista errou e a consultora quase acertou.

[Post 4434]

12.2.11

Regência verbal: «apelar»

Mas muito comum

      Luís Soares, no noticiário das 6 da tarde na Antena 1: «Há instantes, chegou-nos também a reacção do chefe da Liga Árabe, que apela a um consenso nacional.» 
      A regência do verbo apelar é feita com duas preposições, e nenhuma delas a: apelar de e apelar para. No Dicionário de Verbos e Regimes de Francisco Fernandes, lê-se esta nota ao verbo «apelar»: «Apelar a alguém ou a alguma coisa é regência condenada pelos mestres» (p. 83). As abonações com frases de Camões, Vieira, Herculano, Camilo, entre outros, são claras.
      Pensava que a Liga Árabe tinha um secretário-geral (o egípcio Amr Moussa) e não um chefe. (Bem, é verdade que o jornalista resistiu e não usou o vocábulo «líder».)

[Post 4428]

8.2.11

Regência de «desagradar»

Cada cabeça

      «O novo Acordo Ortográfico deverá chegar às televisões privadas até ao final deste ano. Situação que desagrada o director de Informação da TVI, Júlio Magalhães» («“Isto também é serviço público”, diz director de Informação da RTP», Márcia Gurgel, Diário de Notícias, 8.02.2011, p. 50).
      Desagradar (como agradar), no sentido de causar reacção desfavorável, é habitualmente transitivo indirecto, construído com a preposição a: desagradar a. Há mesmo autores que afirmam que é a única regência admissível para este verbo.

[Post 4414]

4.2.11

Regência verbal

Disposto em forma de cruz


      «Foi isso, e só isso, que aconteceu: assaltos de gente armada contra gente armada. Os assaltos foram gorados, em todos ficaram mortos mais assaltantes que assaltados. Aqueles homens passaram pelas lojas de dezenas de comerciantes brancos indefesos e não os molestaram, terão cruzado mais civis portugueses como o meu pai e nada lhes fizeram» («Os heróis do 4 de Fevereiro», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 4.02.2011, p. 64).
      No sentido de deparar, encontrar-se a regência não é cruzar(-se) com?

[Post 4394]

24.1.11

Regência do verbo «atender»

Vejamos


      «Atendendo o desinteresse dos jornais portugueses pela ebulição de um país do Magrebe, adianto sugestões para que satisfaçam os desejos da plebe e, ao mesmo tempo, encaixem uma notícia sobre a Tunísia. Título: “Filha de Djaló e Luciana Abreu não se chama Bizerta”; texto: “O bebé do ano, a filha do sportinguista e da ex-Floribella não vai chamar-se Bizerta, nome de cidade da Tunísia. Por coincidência, o presidente da Tunísia acaba de fugir do país...”» («Sugestões para fugir à distracção», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 16.01.2011, p. 72).
      Parafraseando, «levando em conta o desinteresse dos jornais portugueses, etc.». Qual a regência do verbo atender neste sentido? No Ciberdúvidas, Edite Prada afirma isto: «O verbo atender pode ser transitivo oblíquo, sendo seguido da preposição a — atender a — com sentido de considerar, levar em conta, prestar apoio, etc., ou pode ser transitivo directo, no sentido de acolher, receber, etc.» Não é o que concluo da leitura de Francisco Fernandes (Dicionário de Verbos e Regimes. São Paulo: Editora Globo, 36.ª ed., 1989, pp. 106-7). Montexto, pode dizer-nos o que registam a Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e Mário Barreto nos Fatos da Língua Portuguesa, esses tesouros inexauríveis?

[Post 4353]

22.1.11

Sobre «imolar-se»

E outros amolam-se


      Vítor Rodrigues Oliveira, no noticiário das 3 da tarde na Antena 1: «Mais duas pessoas imolaram-se em fogo no Norte de África. Uma pessoa no Centro de Marrocos e outra no Saara Ocidental, onde se reivindica a separação do Estado marroquino.» Como quem diz «afogado em leite». Para os Romanos, imolar-se (immolāre) era sacrificar-se a qualquer divindade. O sentido moderno e o que se infere do texto é o de pôr termo à vida, como expiação ou protesto. Podemos imolar-nos pelo fogo, ou seja, podemos sacrificar-nos por meio do fogo, recorrendo ao fogo.

[Post 4347]

30.11.10

«Pensar»

Camilo e o penso


      Já aqui fizemos o jogo. Então, digam-me lá: qual das duas frases acham que Camilo escreveu — a 1 ou a 2?
      1. «Ele pensava isto pouco mais ou menos; mas não respondeu assim.»
      2. «Ele pensava nisto pouco mais ou menos; mas não respondeu assim.»
      Claro que quem tiver à mão o 2.º volume das Novelas do Minho de Camilo Castelo Branco (estou a usar a edição com fixação do texto e nota preliminar pelo Prof. Dr. Jacinto do Prado Coelho. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971) saberá a resposta.

[Post 4145]

1.10.10

Regência: «desfrutar»

Camilo diz como é


      «Deixava uma avultada esmola a uma criada, por nome Eugénia, com a condição de recolher-se a um convento, como criada, onde desfrutaria, e só aí, os rendimentos dessa esmola, que por sua morte seria aplicada em missas por alma dela» (Mistérios de Lisboa, Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, p. 302).
      Embora modernamente se aceite a preposição, tratando-se de um verbo transitivo directo, também prefiro usá-lo sem preposição.

[Post 3926]

23.9.10

Regência: «desinteressar-se»

Mais devagar


      Acabo de ler que alguém, chegado a Coimbra, «depressa se desinteressou pelo Direito». Isto de tomar a regência de um verbo pela de seu antónimo é um erro muito mais comum do que, à primeira vista, se possa crer. E mais comum na escrita que na oralidade. Interessamo-nos por uma coisa e desinteressamo-nos dela. A tendência (tendência, não regra geral) dos verbos iniciados pelo prefixo de negação des- é reger a preposição de. Outra vez: «depressa se desinteressou do Direito».

[Post 3901]

20.8.10

Regência verbal

Caem e recaem


      «Se a paixão recai por modalidades náuticas, como vela ou canoagem, então existe um investimento que pode incluir material e inscrição num clube para a prática destes desportos» («Praticar desporto no meio da natureza», Catarina Vasques Rito, Diário de Notícias, 19.08.2010, p. 44).
      Não sei em que país vivem estes jornalistas que trocam ou não apanham no ar as regências verbais e nominais. Diz-se recair em ou recair sobre.

[Post 3800]

4.7.09

«Coibir de»

Não te coíbas de escrever

      «Mais pragmático e directo, na cerimónia, foi o director nacional da PSP, superintendente chefe Oliveira Pereira, que nem se coibiu em sair do palanque para ajudar na organização do desfile» («PSP apresentou novos ‘agentes voadores’», Licínio Lima, Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 18). Licínio Lima queria escrever superintendente-chefe. À semelhança, já aqui o vimos recentemente, de comandante-chefe, economista-chefe, enfermeiro-chefe, escuteiro-chefe, inspector-chefe, patologista-chefe… O que me levou a escrever, contudo, foi aquele «coibiu em». Na verdade, a regência do verbo não é essa, mas coibir de. Não é preciso reinventar, transgredindo, a língua todos os dias, basta estudar e ler.

20.7.07

Regência do verbo «atender»

Realmente

      «01h25 — Ambulância chamada ao clube Tiger Tiger, em Haymarket, para atender a uma pessoa doente. Os tripulantes vêem fumo sair de um Mercedes estacionado próximo» («Cronologia da investigação», Susana Moreira Marques, Público, 30.06.2007, p. 16). Na escrita jornalística, não é muito vulgar esta regência, correctíssima, do verbo atender — no sentido de prestar apoio, cuidar de —, em que surge como transitivo indirecto.