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10.5.11

Etimologia de «fóssil»

Talvez fodere

      «O vocábulo fóssil deriva do termo latino fodere, “desenterrar”, via fossile, que significa “desenterrado”» (O Dedo de Galileu, Peter Atkins. Tradução de Patrícia Marques da Fonseca e Jorge Lima. Revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 22). Julgava lembrar-me que effodere (ou refodere) é que é, em latim, desenterrar; fodere é apenas escavar; infodere é, pelo contrário, enterrar. Seja como for, não queria deixar de partilhar o conhecimento desta etimologia.


[Post 4768]

8.5.11

Sobre «calaça»

Vem do porco

      «“Calaceiro” vem de “calaça” e a palavra, de origem grega, designava muito especificamente as partes da carne do porco que não eram aproveitadas para o consumo. Como se imagina, deviam ser muito poucas, pois que do porco, como bem se sabe, tudo se aproveita, até os pezinhos. De qualquer forma, calaça eram pois estes restos do porco e terá assumido o significado de “preguiça”, “mandriice”, porque os mendigos, ao baterem à porta das casas, pediam por calaça, ou seja, pediam as sobras, os restos quer de carne quer de outros alimentos. E da parte pelo todo, surgiu o termo “calaceiro” como aquele que pede calaça, sinónimo de mandrião, preguiçoso, que não trabalha e vive da mendicidade, à custa dos outros» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 6.05.2011).
      Lá terá as suas fontes. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não contribui para a elucidação da questão. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista a acepção antiga «foro que consistia numa porção de carne», mas trata-se de óbvia má interpretação do que diz Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo no seu Elucidário. Para o honesto Morais, calaça era a «costela de porco, ou banda». Quanto a «calaceiro», dá-o como derivado, provavelmente, do espanhol calabacero. «Parece ser a costa, ou banda de um porco» registou Fr. Joaquim de Santa Rosa de Viterbo.

[Post 4761]

2.5.11

Sobre «savana»

Em maus lençóis

      E José Rodrigues dos Santos disse, no mesmo Telejornal, que o corpo de Bin Laden foi «despejado ao mar». É um grande escritor, conhecedor, como se vê, dos clássicos, que usaram a expressão despejar o inimigo para significar ir dando cabo deles. E também podia ter dito simplesmente que os Americanos se despejaram, o que significa desembaraçar-se de alguma coisa que estorva, incomoda. Mas isto agora não interessa.
      Para lá de Badajoz, os mais prudentes dão como incerta a etimologia do vocábulo «savana». Nós recebemo-lo do espanhol, sim, mas onde o foi buscar esta língua? Talvez, aventam alguns, a uma língua das Caraíbas. Há algo mais a dizer sobre «savana». Até falantes do espanhol confundem sabana, a nossa «savana», com sábana, o nosso «lençol» (proveniente do latim, e que no português antigo também se usava), pelo que não é muito surpreendente que Cândido de Figueiredo, no seu dicionário, tenha caído neste erro: «Assim se escreve e se lê geralmente, mas a pronúncia exacta é sávana.» E, em coerência com o aviso, dá-o como proveniente do espanhol sábana, «lençol». Mas isto foi no século XIX. Não afirmou Sá Nogueira que o Novo Dicionário, o melhor até então, era fraco nas etimologias?

 [Post 4740]

11.3.11

Sobre «charuto»

Etimólogo/tarólogo Dr. Caos

      Está aqui uma crioula imensa e velha e nua a fumar charuto. Está, salvo seja, é literatura. E a propósito, trago aqui Agostinho de Campos: «A primeira conclusão [de que em Portugal se chamou algum tempo cigarro ao charuto, como nas mais línguas europeias] deve estar certa e confirma-a a expressão castelhana puro, que neste caso é a abreviatura de cigarro puro (todo de tabaco), por oposição a cigarro de papel (enrolado em papel, e não em tabaco)» («Os belos charutos e as míseras “ilhas” do Pôrto», in Língua e Má Língua. Lisboa: Livraria Bertrand, 1944, pp. 31—32). Pois é, charuto parece que veio do tâmil através do inglês cheroot, e apenas no início do século XIX. Isto dizemos nós, que os Ingleses afirmam, numa humildade rara neles, que receberam a palavra do tâmil através do português no fim do século XVIII.

[Post 4551]


10.3.11

As ilhas do Porto. Etimologia

Outros ilhéus

      «As ilhas surgiram no Porto, no início do século XIX, e são uma tipologia específica de habitação operária, onde o espaço privado quase não se distingue do público. Espaços colectivos, fechados sobre si mesmos, com infra-estruturas deficientes, que tiveram a sua génese na necessidade de albergar a população carenciada e que persistem até aos nossos dias. Ninguém sabe ao certo quantas existem, mas um estudo de 2001 apontava para 1300» («‘Ilha’ quer receber tribos urbanas», Joana de Belém, Diário de Notícias, 6.03.2011, p. 27).
      Já aqui falei uma vez deste conceito. Volto ao assunto, agora pelas palavras de Agostinho de Campos: «¿E o sentido portuense da palavra ilha = “espécie de bêco cercado de pequenas habitações para gente de poucas posses”? Gonçalves Viana menciona-o sem o explicar, limitando-se a classificá-lo de significado particularíssimo.
      Particularíssimo, de-certo. Mas parece que também antiquíssimo, e de boa estirpe latina. Pompeius Festus, lexicógrafo venerável que viveu no século III, atribui a insula o sentido de casa isolada; Cícero, no De Senectude, emprega insula com a significação de casa (ou grupo de casas) de aluguer, e fala em insularum domini como quem diz donos ou senhorios de ilhas — de ilhas à moda do Pôrto, para habitação de gente pobre» («Os belos charutos e as míseras “ilhas” do Pôrto», in Língua e Má Língua. Lisboa: Livraria Bertrand, 1944, p. 34).

[Post 4548]

8.3.11

Léxico: «rebuçadeiro»

Embuçados e rebuçados

      «A receita dos rebuçados da Régua é um segredo bem guardado pelas rebuçadeiras da Régua há mais de um século. Todos sabem que são feitos com limão, mel e manteiga, mas o ingrediente que os torna únicos ninguém revela» («Criar os filhos a vender rebuçados», José António Cardoso, Diário de Notícias, 8.03.2011, p. 22).
      Não vejo a palavra em nenhum dicionário — o que levaria certa colaboradora do Ciberdúvidas (que na última emissão do programa Páginas de Português estribilhou a sua resposta à pergunta sobre como se deve escrever o antropónimo Vinicius/Vinícius com vários, inestéticos e desnecessários «o que é que acontece?») a escrever que, se «ainda não foi dicionarizada, portanto também não será 100% correcta, se quisermos ser completamente rigorosos». A propósito, já alguma vez reflectiram na etimologia do vocábulo «rebuçado»? O rebuçado é embrulhado, envolvido em plástico ou papel, ficando assim oculto, escondido, embuçado, rebuçado.

[Post 4538]

«Mandarim», de novo

Parçaria

      Andarim, beleguim, galopim, querubim, serafim... Lembram-se de aqui ter tratado da suposta origem portuguesa do vocábulo «mandarim»? Vejo agora que Agostinho de Campos também reflectiu sobre o assunto:

      «Mandarim foi considerado outrora, principalmente por estrangeiros, como derivado do nosso verbo mandar. Dalgado e Gonçalves Viana reduziram a pouco, mas talvez não ainda a nada, esta lenda etimológica. O segundo daqueles grandes filólogos, nas suas Apostilas (II, 104, ed. de 1906) diz que o vocábulo é Índico (em indostano mantri, “ministro”) e que a influência do português consistiu em mudar o final tri em dari, provàvelmente por influência do verbo mandar. A tese da derivação directa dêste nosso verbo parece-lhe insustentável, “porque não existe na nossa língua sufixo –im para derivar de infinitos de verbos substantivos de agente”. Esta razão não parece bastante, pois na língua podem surgir sufixos novos, ou ampliar-se o emprêgo dos antigos; e o –im existia para certos substantivos de agente, como querubim e serafim, derivados de plurais hebraicos, e beleguim, que Sousa deriva do arábico. Além dêstes lembra-nos andarim, que Morais tira do Suplemento de Bluteau, e dá como sinónimo de andarilho — “homem de pé que corre adiante dos coches por Estado” (por luxo ou representação, como hoje se diz). Êste vem indubitàvelmente do infinitivo andar. Averiguar-lhe a idade é caso para segundas leituras. Galopim, de galoper, ou galopar (conforme tenha vindo de França ou de Espanha) é, de-certo, muito moderno. Mas, directa ou indirectamente, mostra a formação, com –im, de substantivos de agente derivados do infinito.
      O sr. Pamplona filia mandarim no sânscrito mandalin, e o mesmo fazem vários Larousses que temos à mão. Dalgado, na sua Influência do vocabulário português nas línguas asiáticas, p. 102 (edição de 1913), cita como étimo o mesmo mantri e acrescenta: “A mudança de t em d e a dissolução da consoante composta tr podem ser devidas ou à influência de mandar, ou, antes, a alguma língua da Insulíndia.” E diz mais, em nota: “A nasalização do i final é regular, na transição das palavras orientais para o português. Cf. lascarim, mordexim, palanquim”. Acrescente-se Samorim, Cochim, chatim, etc., embora Barros e outros escrevessem o sufixo ij, em vez de im.
      De tudo isto se conclui que o patriotismo etimológico tem ainda margem para barafustar, alegando que, pelo menos, se formou uma parçaria do verbo português mandar com a palavra oriental, para, juntos, darem à luz o vocábulo mandarim» («Lusismos no francês», in Língua e Má Língua. Lisboa: Livraria Bertrand, 1944, pp. 14—15).


[Post 4537]

4.2.11

Sobre «etapa»

No estaleiro


      «O Podre levantou-se do banco do jardim no momento em que a avó e a Sissi se aproximavam, seguidas pelo pai, a mãe, a Eva e o Luís. Tinham ido todos dar uma volta para se prepararem para a etapa seguinte da viagem» (A Caminho de Santiago, Ana Saldanha. Lisboa: Editorial Caminho, 2010, 2.ª ed., p. 28).
      Fala Agostinho de Campos: «Uma das palavras mencionadas na conferência radiofónica de há dias é o inutilíssimo galicismo étape. Este vocábulo aparece-nos por aí, umas vezes escrito ou pronunciado à francesa (étape), outras vezes já semiaportuguesado sob as formas étapa e itapa. Qualquer delas é um mostrengo que lembra fora de todo o propósito o nosso verbo tapar.
      Esse termo francês é de origem germânica. Vem da palavra stapel, que no holandês ou no baixo-alemão significava armazém ou depósito e ainda hoje subsiste no alemão corrente e literário com o sentido de estaleiro. Veja-se por isto a quantidade de caminhadas (eles diriam: de itapas) que a palavra andou para chegar à estação actual (isto é, segundo eles, à itapa actual)» («O nacionalismo ainda não nos chegou à Língua», in Língua e Má Língua. Lisboa: Livraria Bertrand, 1944, pp. 55-56).

[Post 4392]

26.1.11

Sobre «consoar»

Isso era dantes


      E por falar em soar: até 1945, salvo erro, só as consoantes consoavam, e todo o tempo. Os homens apenas podiam consuar, e não somente na quadra própria, mas todas as noites (vejam acepções do substantivo respectivo). Naquela altura, ensinava-se que vinha de consum, do latim cum+sub+unum. Actualmente, está tudo amalgamado na mesma grafia, e a etimologia de «consoada» já é outra. Evoluções...

[Post 4361]

12.11.10

Etimologia: «Curaçau»

Hipóteses


      Merece ser subtraído ao esquecimento dos jornais este texto sobre a etimologia do topónimo Curaçau: «Existem várias hipóteses para explicar a origem do nome Curaçau (Curaçao, no original). E a culpa pode até ter sido dos portugueses. Uma das versões conta que um grupo de marinheiros doentes, com escorbuto, parou na ilha e aí se curou (provavelmente depois de ingerir a vitamina C dos frutos locais). Curaçau viria assim da palavra “curação”, de cura. Outra versão aponta para a hipótese de vir da palavra “coração”, por ser o centro da rota de escravos para Nova Amesterdão (actual Nova Iorque). Finalmente, pode ser o nome dos indígenas locais. Apesar de o neerlandês ser a língua falada em todas as ilhas das antigas Antilhas Holandesas, em pelo menos duas (Curaçau e Bonaire) fala-se no dia-a-dia o papiamento, uma mistura entre o português, o espanhol, línguas africanas, o neerlandês e o inglês. Diz-se que terá origem na língua dos escravos que vinham da África, havendo ainda a influência dos judeus portugueses. Estes chegaram às ilhas depois de Portugal ter reconquistado, no século XVII, parte do Brasil (Recife) aos holandeses. Os judeus teriam fugido para as ilhas temendo a perseguição dos católicos» («Vestígios de Portugal no nome e no idioma», Susana Salvador, Diário de Notícias, 17.10.2010, p. 43).
      (Eu escreveria que o papiamento é «uma mistura de português, espanhol, línguas africanas, neerlandês e inglês».)

[Post 4070]

2.11.10

Sobre «lusco-fusco»

Luz que foge


      «O sol não liga nenhuma à hora de nascer ou de se pôr. Como me explicou Sebastião Carvalho, numa carta, lusco-fusco vem do latim de “luz que foge”, pelo que nunca se pode aplicar ao amanhecer» («O bom tempo no mau», Miguel Esteves Cardoso, Público, 2.11.2010, p. 39).
      Fartei-me de rir com esta etimologia fantasista. Talvez o máximo que se possa dizer é que é de origem obscura, e nem o marquês de Pombal pode dizer o contrário. Uma coisa, porém, é certa: não falta quem, a começar pela minha mulher, esteja plenamente convicto de que lusco-fusco só designa o crepúsculo vespertino. Foge-lhes da compreensão um fenómeno que se chama extensão de sentido.

[Post 4038]

27.10.10

Sobre «Foão»

Impõe-se a pergunta


      Até onde foi a «modernização do texto»? Não chegou aqui: «Quando alguma pessoa se quer mudar de uma casa e rua para outra, ou quer ir para outra terra a viver, tangem uma bacia pela rua com um pregão que diz que ‘Foão se vai daquela rua, se há alguma pessoa a que[m] deva alguma coisa que venha a ele antes que se vá, para que não perca o seu.’» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 202). Na época em que Fr. Gaspar da Cruz escrevia, era assim que se dizia o que hoje em dia dizemos «Fulano». Autores coevos também grafavam «Fuão» e «Fulão». O étimo é, segundo Miguel Nimer (Influências Orientais na Língua Portuguesa. São Paulo: Edusp, 2.ª ed., 2005, p. 73) o árabe clássico fulān. (Como saberão, o Acordo Ortográfico de 1990 também veio meter aqui o bedelho, mandando grafar com minúscula inicial «fulano», «sicrano» e «beltrano», deixando, assim, de se distinguir entre substantivo comum e substituto de antropónimo, como na citação de Fr. Gaspar da Cruz.)

[Post 4013]

17.10.10

Tradução: «trenca»

Imagem tirada daqui

Também não temos esta


      Não ficam por aqui as diferenças entre as línguas espanhola e portuguesa no que toca ao nome das peças de vestuário. Como se chama a peça que vemos na imagem? Pois é: um sobretudo de ¾, talvez. Mas com capuz... Bem, os Espanhóis chamam-lhe trenca: «Abrigo corto, con capucha y con piezas alargadas a modo de botones, que se abrocha pasando cada una de ellas por sus respectivas presillas.» Há quem diga que vem do inglês trench, mas nessa língua dá-se-lhe a designação de duffel coat. (Esta designação provém do nome da cidade de Duffel, na província de Antuérpia, na Bélgica.) O que se sabe ao certo é que a peça só começou a ver-se na Península Ibérica depois da II Guerra Mundial. Daí a possível etimologia. De qualquer modo, também se lhe dá o nome de montgomery, do nome do general Montgomery, de quem não faltam fotografias vestido com tal peça de vestuário.

[Post 3978]

16.10.10

Léxico: «pantalonas»

Uma comédia


       Em espanhol, há não muito tempo, alguns nomes apenas se usavam no plural, careciam de singular: tijeras, gafas, pinzas, alicates, víveres, enseres, andas, etc. Ultimamente, porém, os substantivos que designam objectos constituídos por peças simétricas começaram a ser usados também no singular pinza, tijera, alicate, etc. Pantalón também está neste grupo. Se perguntarem a um espanhol medianamente culto qual o étimo de pantalón, logo dirá: o francês pantalon. E não erra, mas este vem, e assim a linhagem fica completa, do nome de uma personagem da Commedia dell’arte (o teatro popular improvisado de origem italiana): Pantalone, que vemos na imagem. Este tipo de calças era coisa nova na Europa de então. Pantalone em italiano, pantalon em francês, pants em inglês... Em português, os vocábulos pantalão, pantalonas, pantalonada têm o mesmo étimo.

[Post 3975]

10.9.10

Léxico: «desfaçado»

Dá jeito saber


      Aquele que usa de desfaçatez é um... é um... Então, não respondem? Desfaçado! A primeira abonação na língua dá-a o Dicionário Houaiss como tendo sido em 1536 e indica como étimo provável o espanhol antigo desfazado, «descarado», de faz, «face, cara, rosto». Pois é, mas, entre os estudiosos do espanhol, desfazado (actualmente, desfachatado) é tido como proveniente do vocábulo italiano sfacciato, que significa «desavergonhado, descarado, insolente». Ou seja, não se formou na língua. Sfacciato: «Privo di rispetto e di pudore: comportamento s.; eccessivamente indiscreto e impertinente: non essere sfacciato!», regista o Sabatini Coletti.

[Post 3862]

2.8.10

Sobre «churrullero»

Charlas etimológicas


      Quando pretendemos traduzir a palavra castelhana churrullero (e com ela qualifica Cervantes alguns poetas), não podemos lançar mão de outra que não «charlatão», como já li? Bem, até o DRAE faz corresponder os vocábulos, embora previna que se refere à acepção «o que fala muito e sem substância». Curiosamente, ambos foram, em determinada altura, italianismos por poucos compreendidos na língua castelhana. O DRAE também indica, não o oculto, que churrullero provém do italiano Cerriglio, que era o nome de uma estalagem em Nápoles. Passou para o castelhano como chorrillo, e daí churrullero ou chorrillero. No tempo de Cervantes, churrullero significava o soldado desertor que se dedicava à ladroagem e à má vida. Tudo visto e simplificando, churrullero é o soldado, e, por extensão, qualquer pessoa, que não cumpre com os seus compromissos. Charlatão também é, como comecei por afirmar, um italianismo: provém de ciarlatano, que ainda hoje existe (ao contrário do equivalente de churrullero). Na raiz da palavra estará ciarlare (agora, «parlare tanto, senza riflettere e di cose insignificanti»), «contar histórias». E na origem desta estará até o nome de Carlos Magno. Daqui virá a nossa charla, de bom sabor vetusto e clássico (usada, por exemplo, pelo P. Raul Machado para designar as suas palestras televisivas sobre a língua portuguesa, em 1957). Mas isso já é recuar muito. Como espero que não seja avançar muito propor, em vez de «charlatão», «relapso». Sugiram os leitores.

[Post 3752]

29.7.10

Sobre «bisonho»

Quase, quase


      Abram aí o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (2009) na página 240. Bisonho. «inexperiente; inábil; (soldado) não exercitado); principiante; acanhado; tímido». Vem do castelhano bisoño, «inexperiente», do italiano bisogno, necessidade».
      Actualmente, em termos de uso, prevalece a última acepção, «acanhado; tímido». Interessa-me agora, porém, a etimologia. Na época de Cervantes (1547—1616), era um dos muitos italianismos em castelhano. Era o termo, que designava de facto o soldado novo e inexperiente, com que os italianos se referiam, ironicamente, aos soldados espanhóis recém-chegados a Itália — o que mais tarde se chamou Itália, pois só no século XIX Massimo D’Azeglio (1798—1866), destacadíssimo dirigente do Reino unificado de Itália, pôde afirmar: «L’Italia è fatta, ora van fatti gli italiani.» Ora em 1502, os Reis Católicos enviaram o exército espanhol (o mais numeroso e heteróclito da Cristandade, com espanhóis, italianos, alemães, valões, etc.), comandado pelo grão-capitão Gonzalo de Córdoba, a Itália. Quando precisavam de qualquer coisa, os soldados do exército espanhol dirigiam-se aos italianos com um escasso «io bisogno», «preciso»...

[Post 3738]

16.7.10

Léxico: «mutala»

Vem de África


      «Anabela cresceu em Caála, na actual província do Huambo, mas era na zona sul de Angola, em Cuanhama, que montavam o acampamento “com as mínimas condições”. Os mínimos, ainda assim, incluíam um frigorífico. Pernoitavam numa mutala, um estrado de madeira feito em cima de uma árvore, em cujo ramo deitavam um colchão de espuma, para não fazer barulho, e à alvorada estavam prontos para a caçada» («A menina dos torneios de tiro», Sara Alves, Notícias Magazine, 11.07.2010, pp. 78-79).
      Não é vocábulo encontradiço. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora di-lo provindo do quimbundo e dá a seguinte definição: «plataforma montada nos ramos de uma árvore, para espera de animais selvagens». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que tantas falhas dos outros supre, não regista o vocábulo.
      O Novo Dicionário Banto do Brasil (Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2003, p. 144), de Nei Lopes, que diz conter «mais de 250 propostas etimológicas acolhidas pelo Dicionário Houaiss», não regista o termo em verbete autónomo, mas em «mataro» diz: «Soldado (VF [Vogt & Fry]) Possivelmente, do quimbundo mutala, vigia». Contudo, a definição de «mutala» no Dicionário Houaiss é semelhante à do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

[Post 3693]

13.7.10

Sobre «enteado»

Curioso


      Para exprimirmos, só com um vocábulo, a ideia de alguém que é filho de união anterior de um dos cônjuges, em relação ao padrasto ou à madrasta, temos apenas uma palavra: enteado. A língua espanhola, em contrapartida, dispõe de três: entenado, alnado e hijastro. As duas primeiras têm o mesmo étimo de «enteado»: a expressão latina ante nātus, ou seja, «nascido antes». A mais curiosa é a última, hijastro. Deriva do vocábulo latino filiaster. Assim, bem podia fazer parte do léxico da língua portuguesa, pois «padrasto» provém de patrāster.

[Post 3688]

15.4.10

Etimologia do sufixo «–istão»

Algo se aprende


      De manhã, no programa infanto-juvenil Zig Zag, na RTP2, lembrou-se que o sufixo –istão (de que falámos aqui recentemente), presente em topónimos como Adzaristão, Afeganistão, Cazaquistão, Nuristão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão, Usbequistão, Waziristão, provém do sufixo de origem persa –stan e significa «terra».

[Post 3343]