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2.4.11

Hífen ou travessão?

O Doutor explica

      Na redacção. Na secção de desporto (ficam assim a saber que não é um desportivo), um jornalista escreveu isto na programação televisiva: «Beira-Mar—Sporting de Braga, 20.h15m. (SportTV1).» Começando pelo fim: há espaço, sim: Sport TV1. As horas já aqui vimos: escrevi (apesar de a minha opção no blogue ser outra) 20h15. E agora o princípio e o principal: «Beira-Mar—Sporting de Braga»?
      Aqui ao lado, Cláudio Moreno pontifica: «O travessão já é vinho de outra pipa; ele serve (1) para indicar, num diálogo, o início da fala de um personagem; (2) para, exatamente como os parênteses, indicar a intercalação de um elemento na frase (como eu próprio fiz, no último período do parágrafo anterior); (3) para introduzir, ao final de um argumento ou de uma enumeração, uma síntese ou conclusão (“Imagine um entardecer de domingo, escuro e frio, debaixo de uma chuva fina, numa estaçãozinha de trens do interior do estado — uma verdadeira desolação!”; (4) para indicar o ponto inicial e final de um percurso ou de um espaço de tempo: a ponte Rio—Niterói; a obra de Tobias Barreto (1839—1869).»
      Será assim (?) no Brasil, não em Portugal. Base XXXII do Acordo Ortográfico de 1945 (e o mesmo se encontra estabelecido no último acordo): «É o hífen que se emprega, e não o travessão, para ligar duas ou mais palavras que ocasionalmente se combinam, formando, não propriamente vocábulos compostos, mas encadeamentos vocabulares: a divisa Liberdade-Igualdade-Fraternidade; a estrada Rio de Janeiro-Petrópolis; o desafio de xadrez Inglaterra-França; o percurso Lisboa-Coimbra-Porto.»
      Quanto às datas, faço, e nem sempre, o mesmo (ou quase: uso meia-risca), mas, como os acordos ortográficos não focam essa questão, fica, por ora, de fora. Mas a ela voltaremos.
      Resumindo: «Beira-Mar-Sporting de Braga, 20h15 (Sport TV1). O Doutor esqueceu-se dos encontros desportivos. Mas qualquer dia chega lá.


[Post 4645]



16.1.11

Notas de rodapé

Critérios mais que discutíveis


      «Não foram encontrados danos cerebrais, nem foi detectada nenhuma doença do sistema nervoso central ou alguma anomalia ao nível do estatuto dos cromossomas» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 141).
      Acharam imprescindível uma nota ao nome do poeta «Archilochos» (não, não me parece necessário consultar os Índices de Nomes Próprios Gregos e Latinos para acertar), mas já quanto a «estatuto dos cromossomas», julgam que todos os leitores conhecem. Estão bem enganados.

[Post 4328]

15.1.11

Revisão

Erros e errata e desculpas


      Eu não disse que é bom dar uma olhadela às cartas ao director dos vários jornais? Na edição de hoje do Público, na página 34, pode ler-se esta carta, assinada pela escritora Helena Osório: «A propósito do texto divulgado na rubrica Livros da página Crianças de sábado passado, assinada por Rita Pimenta, em que se dava conta de “erros de pontuação e de ortografia indesculpáveis” no livro Viagens de José pelo Mundo dos Sonhos, a autora e editora da Animedições informa que os livros estão a ser distribuídos com uma errata cujo conteúdo revelamos:
      “Os contos de José são escritos noutro tempo, quando ainda não vigorava o novo Acordo Ortográfico (a partir ano lectivo 2011/2012). Em todos os contos há referências a esse tempo em caixa alta. E apenas uma legenda na página 31 o indica, onde se escreve “estória” pela 1.ª e única vez (e não “história”, i.e. pp. 4, 5, 8, 9, 11, 20, 27, 46). Não se trata de erro ou de má acentuação e, sim, de fazer ver a diferença junto dos mais jovens. Como, por exemplo, “pêlo” da lontra (pp. 9-10, 31, 34, 37) em confronto (ou não) com “pelo” mundo dos sonhos de José; ou como “as fôrmas das inúmeras flores em forma de cálice” (p. 52). Considere-se, nesta obra, a pontuação e hifenização o estilo próprio da autora (i.e. semi-encoberto e semi-desfocadas, pp. 25, 31).
      Na página 13, onde se lê “caiem”, deve ler-se “caem”. Na página 15, onde se lê “de certo”, deve ler-se “decerto”. Na página 18, onde se lê “Não viajás-te” e “Matás-te”, deve ler-se “Não viajaste” e “Mataste”. Na página 25, onde se lê “As folhas de Outono”, deve ler-se “As imaginadas folhas de Outono”. Na página 37, onde se lê “se não”, deve ler-se “senão”. Na página 38, onde se lê “dar-te-à”, deve ler-se “dar-te-á”. Na página 40, onde se lê “tornaste”, deve ler-se “tornas-te”. Na página 49, onde se lê “ouvis-te”, deve ler-se “ouviste”. Na página 52, onde se lê “possui-las”, deve ler-se “possuí-las”. Na contracapa, onde se lê “vindo a preocupar”, deve ler-se “vindo a preocupar-se”.»
      Percebe-se: o dinheirinho foi todo para os artistas plásticos, não chegou para contratar os serviços de um obscuro revisor.

[Post 4327]

13.1.11

Redacção

Complicando


      «A dobradiça de uma das portas do armário tinha sido quebrada durante a busca e ela pendia agora torta nos gonzos» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 83).
      Claro que sempre podemos complicar a frase com mais sinónimos: «A dobradiça de uma das portas do armário tinha sido quebrada durante a busca e ela pendia agora torta nos gonzos. As portas, que tinham quatro bisagras, ficariam agora definitivamente desiguais, pois já não se fabricavam borboletas daquelas. A fábrica de charneiras, onde tinha trabalhado um tio, fechara há muito. “Que porra!”, pensou Samir. “Agora vou ter de fazer eu um engonço novo na oficina do meu primo. Se a miúda vê que a chumaceira está partida, estou tramado.” Lembrou-se então que tinha alguns gínglimos na arrecadação, e foi para lá que se dirigiu. Procurou na caixa e não encontrou nenhuma macha-fêmea que se assemelhasse, ainda que vagamente. “No baú!” Encontrou um mancal que não destoava muito. Grato, deu um beijo sonoro no quício.»

[Post 4317]

Revisão

Vamos longe


      «A suite tinha 35 m2 e estava decorada em tons quentes de castanho» (Crimes, Ferdinand von Schirach. Tradução de João Bouza da Costa e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, p. 85). «A história desse cativeiro que decorreu por 3096 dias foi revelada pela própria em Setembro do ano passado, numas memórias que acabam de ser traduzidas para português, um livro em que conta quase tudo o que viveu para sobreviver à prisão num cubículo de 5 m² de uma cave e à subnutrição em que era mantida para evitar a sua fuga» («A intimidade dos 3096 dias negros de Natascha Kampusch», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 12.01.2011, p. 46).
      É deprimente ver (e os 13,95 euros que o livro custou ajudam a catalisar o processo) como até nos jornais, por vezes, se tem mais cuidado com a escrita. Serão estas questões a que actualmente só os leitores da área de ciências são sensíveis?

[Post 4314]

6.1.11

Colchetes

Quem escreveu?


      «Antes dele, o snooker [bilhar] era um jogo sombrio, disputado debaixo de muito fumo e álcool, em clubes nocturnos de qualidade duvidosa» («O polémico ‘Furacão’ que se tornou estrela de ‘snooker’», Rui Marques Simões, Diário de Notícias, 26.07.2010, p. 41).
      Os colchetes são de Rui Marques Simões? Sim? Então foram indevidamente utilizados. E, por outro lado, a explicação não devia dizer que o snooker é uma variedade de bilhar? E o sinuca é uma variedade de snooker, como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, ou uma variedade de bilhar? Sinuca, como aportuguesamento de snooker, faz lembrar chulipa, aportuguesamento de sleeper, e chumeco, aportuguesamento de shoemaker.

[Post 4281]

30.12.10

Cacofonia

Ouçam-se


      Os revisores também têm de estar atentos às cacofonias. (Mesmo os revisores de publicações periódicas, apesar de hoje em dia isso ter menos importância, pois os jornais já não são lidos em voz alta, como há um século. «Por volta de 1900, por exemplo», escreve David S. Landes na obra A Riqueza e a Pobreza das Nações [Lisboa: Gradiva, 2001], «apenas três por cento da população da Grã-Bretanha era analfabeta, o número para a Itália era 48 por cento, para Espanha 56 por cento, e para Portugal 78 por cento.» Segundo o Censo de 2001, na viragem do século ainda havia 10 % de analfabetos em Portugal.) Têm de se ouvir a ler. Ninguém, neste aspecto, supera o revisor antibrasileiro, atentíssimo. Nenhum «que agora», acredito, alguma vez lhe escapou. «Uma biblioteca inteira de livros a arder caía violentamente ao longo do deserto de cem metros que agora separava o abrigo da escola.» Eu sou mais sensível aos ecos e à prolixidade. É só cortar!

[Post 4250]

24.11.10

«Colocar-se em fuga»

Duas vezes cegos


      Ou três: jornalistas, editores e revisores? «Após o crime, o condutor colocou-se em fuga, tendo anteontem sido detido pela Polícia Judiciária de Vila Real» («Jovem leva tiro a atravessar rua», Ana Isabel Fonseca/Tânia Laranjo, Correio da Manhã, 23.11.2010, p. 16).
      Quanto aos jornalistas, creio que nada há a fazer. Quanto aos revisores, é uma vergonha que não façam nada. Afinal são pagos para corrigirem ou para respeitarem os erros crassos dos jornalistas? Não lhes quadra nada o que está para lá do prefixo re-, por isso recegos em vez de revisores.

[Post 4120]

Caracteres especiais

Mais um bom exemplo


      «Mais de 160 garrafas de champagne com cerca de 200 anos, recentemente descobertas no mar Báltico, foram recuperadas com o apoio técnico da Corticeira Amorim, que assegurou a substituição da rolha original por uma nova rolha de cortiça natural. O champagne, proveniente de um barco naufragado por volta de 1800, foi descoberto por mergulhadores em Julho a uma profundidade de 50 metros junto à costa do arquipélago Åland, uma região autónoma da Finlândia» («Rolha Amorim ajuda a preservar ‘champagne’ com 200 anos», Diário de Notícias, 24.11.2010, p. 38).
      Lembro-me sempre, nestes casos, de Fårö e especialmente de Nemanja Vidić, pois foi a propósito deste que um ignorante atrevido (sempre anónimos!) me ofendeu. Cada vez é mais vulgar — cada vez é mais fácil fazê-lo! — ver na imprensa estes caracteres especiais, como defendo. Arquipélago de Åland, pois claro.

[Post 4116]

21.11.10

Revisão

Não vale a pena?


      «A presidente-eleita do Brasil escreveu uma carta ao Papa em que afirma que deseja ter “uma relação fecunda” com a Igreja Católica. A missiva, escrita por Dilma mas analisada e revisada pelo chefe de gabinete de Lula, Gilberto Nascimento, é uma forma de mostra não ter ficado ressentida com Bento XVI, que antes da segunda volta pediu aos fiéis para não votarem em quem defendesse o aborto» («Aproximação a Bento XVI», Domingos G. Serrinha, Correio da Manhã, 20.11.2010, p. 33).
      Então agora já não revêem o que um correspondente escreve, ainda por cima um correspondente que não redige segundo as normas do português europeu?

[Post 4104]

20.10.10

Revisão

Conhecer os conhecimentos


      «Deste estudo surgiram ideias para futuras linhas de trabalho que permitirão conhecer melhor os conhecimentos que os conteúdos e instruções dos manuais escolares permitem adquirir.» Mostrei a frase ao revisor antibrasileiro, dada a propensão quase patológica que revela para não deixar passar repetições. Saiu, com muitas desculpas e que podia ser pior a emenda, etc., isto: «Deste estudo surgiram ideias para futuras linhas de trabalho que permitirão adquirir melhor os conhecimentos que os conteúdos e instruções dos manuais escolares permitem adquirir.» Hã?! Nem sempre é possível fazer a poda que ele imagina. E agora?

[Post 3990]

10.10.10

«Empregue/empregado»

Ah, isso


      Os correctores, automáticos, deram agora em expungir de todos os textos qualquer «empregue» que tenha tido a veleidade de existir. Automáticos, sem ponderação. Em vez de estudarem, põem-se, quase lúbricos, a espreitar por cima do ombro dos outros (sim: aprendemos muito com os outros, mas não assim), e depois sai asneira. «Aliás, a expressão tantas vezes empregue...».

[Post 3955]

Revisão

É uma missão


      O revisor antibrasileiro mostrou, mais uma vez, como não deixa passar repetições de qualquer espécie. «Veja: “Está longe de estar”. O jornalista não conseguia dar volta a isto?!» A noite, porém, não foi marcada por estas saborosas prelecções, antes por uma queixa: «... E depois disse-me: ‘“Assim, não é de admitir, etc.”’ Para que é esta vírgula aqui a separar o sujeito do verbo?” “Assim” sujeito!» Bem, eu também fiquei abalado, um revisor experiente a dizer a outro semelhante barbaridade. Lembrei-me de outro. Da primeira vez que falámos, apesar de alguma incoerência, disse muita coisa acertada. «Por exemplo, “fazer com que”: nunca deixo passar tal disparate. Como eu costumo dizer, temos “coque”, não “com que”.» Riu-se. Da segunda vez, porém, tinha os reflexos um pouco embotados, e o nariz, qual tubérculo rugoso, purpúreo, distraía-me tanto como o entrecruzar de conversas e referências que me eram estranhas. No meio de tanta gente, ele tinha um propósito bem claro: comer o máximo de croquetes e beber tanto quanto aguentasse de portos. Deixei-o aportar na mesa das bebidas e eu naufraguei na multidão.

[Post 3953]

7.10.10

Revisão

Isso é empobrecer a língua


      Desrolhar. Desarrolhar. Será legítimo fazer tal emenda? Nem pensar. Tão correcto é a primeira como a segunda: são variantes. Ainda por cima, desarrolhar parece-se muito com o espanhol desarrollar. Outra coisa, claro, que desrolhar (que o Flip 7 não reconhece...) em espanhol é descorchar, pues ‘corcho’ es el tapón que se hace de corcho para las botellas, cántaros, etcétera. Sí, es un mensaje cifrado. Yo mismo desconozco su destinatario. Então agora comecei a escrever em espanhol?!

[Post 3946]

28.9.10

Revisão

Desunião ibérica


      E ainda um dia aparecerá um revisor com ganas de aspar qualquer vestígio de castelhanismo ou tudo que o semelhe na obra de Camilo. Dou-lhe já, a esse ignoto carrasco, como pábulo algumas frases mais suspeitas de Camilo, e coligidas somente nos Mistérios de Lisboa.
      «Imaginei-me com um braço quebrado, com uma gonilha ao pescoço, com oito dias de pão e água, com o ódio do padre eternamente irritado contra mim» (p. 52). Por causa da gonilha, que podia ser golilha, golilla. «A aparição improvisa da mãe a um filho, que sente pulsar no seu um coração cuja existência ignorava — uma surpresa assim, traz consigo um terror santo, que deve ser a preexistência do homem na presença de Deus» (p. 62). É ler Cervantes, se se quer ver «improvisos» e «improvisas». «Um, porém, prendia-me a atenção mais que os outros, por isso que o bruxulear da lâmpada projectava às vezes um relâmpago fugitivo por sobre a escuridade da moldura» (p. 84). Escuridad, obscuridad. «Minha mãe levantou-se, e caminhou com firmeza, mas calada, e recolhida, como se continuasse ainda a sua prática com os espíritos invisíveis» (p. 108). Não faltam, em Cervantes, pláticas, para nosso gosto (gusto?). «Apenas os vestígios da maceração desapareceram da face de D. Ângela de Lima, o conde, recebido em casa de seu futuro sogro, encontrou um sorriso nos lábios da filha» (p. 189). Também suspeito. Apenas, mal... «Alberto de Magalhães viera do Brasil. Quando, e donde fora, ninguém o sabia, nem ele dava lugar a perguntarem-lho» (p. 252). Ainda mais suspeito. «Vi-a chorar, cruzei as pernas, e roí as unhas com o donaire de um cínico enfastiado» (p. 305). A machadada final. Mas há mais, muito mais, mas esse negregado revisor sempre poderia socorrer-se da perspicácia do revisor antibrasileiro.

[Post 3918]

Crudelíssimo/cruelíssimo

Um Camilo corrigido


      Camilo escreveu «cruelíssimas», mas a revisora queria que fosse «crudelíssimas». «Estavam ambos suspensos, silenciosos, sublimes, e recopilando em um rápido pensamento uma síntese de dores cruelíssimas acordadas na reminiscência por aquele encontro» (Mistérios de Lisboa, Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, pp. 235-36).
      (E vejo que o Flip 7 não reconhece o verbo, agora caído em desuso, recopilar.)

[Post 3917]

13.9.10

«Ground Zero», de novo

Maior escolha


      Na edição de anteontem do Jornal de Notícias, podia ler-se que «2000 trabalhadores da construção civil dedicam-se à reconstrução da Zona Zero, sete dias por semana» («Tensões islâmicas marcam os nove anos do 11 de Setembro», Cláudia Luís, Jornal de Notícias, 11.09.2010, p. 47). No Público, ainda continua a experimentar: «Promotor do diálogo inter-religioso, Akbar Ahmed defende salomonicamente que o polémico centro islâmico aprovado junto ao Ground Zero, em Nova Iorque, não deve ser construído naquele local — é um dos raros muçulmanos a ter esta posição» («Com a nova mesquita ao pé do Ground Zero, os muçulmanos estão a desafiar a identidade americana», Kathleen Gomes, «P2»/Público, 10.09.2010, p. 4). «Em vez disso, vai encontrar-se com o imã responsável pelo controverso centro islâmico projectado para as imediações do Ground Zero, em Nova Iorque» («Pastor da Florida desiste de queimar o Corão e quer agora afastar mesquita do Ground Zero», Ana Fonseca Pereira, Público, 10.09.2010, p. 15). Tal como no Diário de Notícias: «A distância entre o futuro centro comunitário muçulmano e o ground zero é de 200 metros e esta proximidade gerou uma discussão sobre a responsabilidade do terrorismo islâmico no 11 de Setembro e os limites da tolerância religiosa na América» («Primeiras vítimas no caso da queima do Alcorão», Luís Naves, Diário de Notícias, 11.09.2010, p. 26). Mas também assim: «Perante a anunciada queima de exemplares do Alcorão, “represália” prévia de um pastor americano à hipotética construção de uma mesquita junto ao Ground Zero, por todo o Ocidente inúmeras almas horrorizadas perguntaram: o que aconteceria se muçulmanos queimassem a Bíblia ou a Tora?» («Os fogos do Alcorão», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 12.09.2010, p. 63).
      Um destes jornalistas é um dos 55 seguidores que tenho no Twitter, e por isso há-de, pelo menos, reflectir nesta falta de critério.

[Post 3872]

15.8.10

Revisão

Uma lição portuguesa


      O trivial: faltas de concordância, erros de pontuação e de ortografia, frases ilegíveis e falta de cultura. Um escreve sobre «um encontro que oporará dois crónicos candidatos», outro confunde «conjuntura» com «conjectura», aqueloutro escreve «beneficiência», estoutro assevera que a capital de Cabo Verde é a «Cidade da Praia», e por aí fora. «“Já se tornou um hábito”! Um hábito, dois hábitos, três hábitos...», murmura o revisor antibrasileiro. Contudo, o que o faz mesmo entrar em delírio é a palavra «soalheiro». Tratava-se de uma ficha de jogo, com o número de espectadores, a hora a que começou, faltas e outras informações de igual jaez e relevância. Naval-FC Porto. «Fim de tarde soalheiro», escreveu o inocente jornalista. Nisto, o revisor lança um grito triunfal e agarra no dicionário e quer ver, à viva força, no verbete «ensolarado», com que queria substituir aquele «soalheiro», algo como «diz-se do tempo em que há sol», mas, desobediente, o dicionário só lhe diz «que está ao sol; soalheiro». Já a matéria não nos obedece. Deve ser porque as ondas de calor interferem com as ondas telepáticas, refractando-as e dispersando-as no éter.

[Post 3787]

Revisão

Uma lição africana


      Mário Pinto de Andrade estava então radicado em Cabo Verde. Tinha mandado rever o texto de um discurso e, quando o revisor lhe entregou as provas, viu, satisfeito, que todas as desconcordâncias, todas as faltas de ortografia, todos os problemas de pontuação estavam resolvidos. Em boa hora (para ele, e má para o revisor), porém, aprofunda a análise e vê que o sapateiro, perdão, o revisor, se tinha atrevido a «corrigir-lhe» uma tirada marxista (ou será proudhoniana?). O intelectual africano tinha escrito «exploitation de l’homme par l’homme», mas o revisor quis que fosse «exploration de l’homme par l’homme». Não morreu então, mas explodiu, apopléctico, perguntando se o revisor já se atrevia a corrigi-lo e se não sabia que exploration se usa em relação à extracção de minério. Uns rapapés, umas humílimas escusas do revisor — e uma lição para a vida.

[Post 3786]

12.6.10

Revisão

Uma grande aventura


      Estou a ler, porque me pediram, a obra Uma Aventura no Egipto, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Tirei algumas notas, como é meu hábito. Vejamos. Os miúdos estão a ser perseguidos por ladrões egípcios, mas Chico resolveu a situação: «Escolhera como alvo as canelas dos inimigos e acertava-lhes em cheio com a ponta da picareta» (Uma Aventura no Egipto, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2008, p. 175). Pouco depois, «os homens jaziam por terra agarrados às pernas que sangravam de um furo redondo» (idem, ibidem, p. 175). Deve ser reminiscência dos desenhos animados, este furo redondo causado por uma picaretada. Pouco depois, apareceu a polícia. «O arqueólogo, que já estava pálido, ficou branco como a cal. Não lhe bastava a experiência terrível porque acabara de passar, e ainda vinham agora dizer-lhe que os homens das escavações eram membros de uma quadrilha?» (idem, ibidem, pp. 176-77) «Por que acabara de passar», deveriam ter escrito, e, indo já na 4.ª edição, é imperdoável continuar ali o erro. Enquanto o chefe da polícia tenta esclarecer tudo, ao lado acontece qualquer coisa: «Quanto ao Gaspar, retido na cama por altos febrões, desatara aos vómitos e eles ouviam os arranques aflitivos» (idem, ibidem, p. 178). «Arranques» dir-se-ia do jipe da polícia. Ânsias são arrancos. Lá que seja um livro para miúdos, não implica que se tenha de escrever como os miúdos, mas por vezes acontece: «— A acusação é muito grave — afirmou Mike franzindo o sobrolho. — Portanto agradecia que obrigasse o prisioneiro a indicar o nome da pessoa e apresentar provas de que fala verdade» (idem, ibidem, p. 180). Prisioneiros, só de guerra. E de novo a linguagem onomatopaica dos desenhos animados: «— Sou uma estúpida! Uma idiota instável, uma inconsciente... Snif... Snif...» (idem, ibidem, p. 187). «— Eu sei, eu sei que não procedi bem, mas o efeito passa ao fim de umas horas... não me prendam! Mereço castigo, mas não quero ir para a cadeia. Arranjem outro castigo qualquer, buá!» (idem, ibidem, p. 191). Uma personagem patética causou um desmoronamento... ou terá sido uma avalancha? «— Tive a triste ideia de raspar nas rochas e sem querer provoquei um desmoronamento que vos entaipou no túnel dos nichos!» (idem, ibidem, p. 192). «— Enquanto uns me batiam, os outros foram lá abaixo e viram que não podiam passar para o túnel dos nichos por causa da avalancha» (idem, ibidem, p. 192). A pontuação também claudica: «As pessoas que se espalhavam pela rua, chegaram-se quanto puderam, alguns jornalistas tomavam notas por escrito, outros tentavam captar a conversa de gravador erguido porque aquelas notícias eram sensacionais e tinham muitas pontas por onde pegar» (idem, ibidem, p. 193). «O enigma que tinham tido tanto trabalho para decifrar, era apenas brincadeira de mau gosto de uma chanfrada?» (idem, ibidem, p. 194). E confunde-se substantivos com locuções: «Incluía-se na aventura sem-cerimónia, fazia-se íntimo, sobretudo de Rosalita, a quem procurava consolar do grande desgosto de amor com elogios e promessas» (idem, ibidem, p. 196). Confunde-se a interjeição ó, reservada para uma função de invocação, da interjeição oh, que, mesmo junto de um nome, traduz sempre surpresa, desejo, repugnância, tristeza, dor, repreensão: «— Ó Chico!» (idem, ibidem, p. 198). Cada um sabe de si, mas eu não usaria o açorianismo (termo desconhecido do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora!) «toleira» (e corrigia a pontuação e tirava as aspas de «inchado» e...): «De coração leve, conversavam, riam, diziam, toleiras, um pouco “inchados” ainda por causa da aventura e do sucesso, felizes por estarem ali, radiantes por poderem gozar mais uns dias de férias que forçosamente seriam excitantes, pois as propostas eram mais que muitas» (idem, ibidem, p. 199). E agora chega, que tenho de ir tomar o pequeno-almoço.

[Post 3571]